Arquivo do Autor: Narrativa Aberta


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Proposta de apresentação vencedora da nossa escritora Katharyne Chinaia:

Eu achei muito bizarro quando começou, estava passando no noticiário, todos pensaram que fosse alguma divulgação para um novo filme de terror, quando começaram a surgir mais e mais e enfim perceberam que estavam totalmente enganados. Em menos de cinco minutos a cidade já estava um caos, saquearam lojas e supermercados, tentavam levar tudo que pudessem. O governo, por sua vez, fez o máximo que pôde, fechou a cidade por inteiro, ninguém entrava e ninguém saia, em uma tentativa de conter a praga, o que não adiantou muito, pois muitos soldados largavam seus postos e iam à busca de sua família e sobrevivência. Meus pais estavam no trabalho, fiquei telefonando o dia todo, e em todas as vezes eu era direcionado a caixa postal sem ao menos chamar, continuei tentando até que dois dias depois a energia foi cortada, eu não sabia o que fazer, só chorar. Fiquei trancado em casa por quatro dias, na esperança de que meus pais pudessem voltar, não foi o que aconteceu e então eu percebi que eu estava completamente sozinho. Como não tinha nada para fazer, eu passava horas observando aquelas coisas pela janela e pensando em uma maneira de como sairia em busca de meus pais. Nunca os encontrei, porém, encontrei um grupo de sobreviventes que me receberam de braços abertos e nunca mais os larguei.
Em cinco meses, passamos por lugares incontáveis, perdemos cerca de uma dúzia de pessoas e ganhamos cerca de dez. Sinceramente? Eu já estava cansado de ficar seguindo para qualquer lugar e lugar nenhum, eu queria estabilidade, acontece que, ninguém me dava ouvidos, só ordens e mais ordens, essa é parte ruim de ter apenas dezoito anos, todos pensam que você é jovem demais para saber lidar com assuntos de “adulto”.
Nâmbulos, era assim como os chamávamos, não gostávamos de chama-los de zumbis ou mortos-vivos por causa das crianças, muitas acreditavam que eram sonâmbulos, mas de uma maneira meio diferente, às vezes eu achava aquilo uma bobagem, elas tinham o direito de saber o que realmente eram, até porque, um dia teriam que enfrenta-los. Eu cuidava do perímetro com mais três homens e uma garota que se achava durona o suficiente para aquela função, demorávamos um dia para desenhar um mapa do local e mais dois para ter marcações o suficiente para considerar aquela área como altamente insegura, mas não dessa vez.
Um dia desses fomos além do perímetro em busca de suprimentos, íamos em duplas e eu sempre ficava sozinho, e foi então que tudo aconteceu, não muito longe de onde estávamos, encontrei uma caverna, a entrada ficava a uns dois metros de altura, o que seria impossível para nâmbulos subirem, pensei que aquela caverna poderia nos servir como abrigo, além disso, o frio estava se aproximando e ali poderíamos nos manter aquecidos. Então, decidi entrar para dar uma olhadinha rápida…

Proposta de desenvolvimento vencedora da nossa escritora  Katharyne Chinaia:

A caverna era enorme, bem mais do que eu imaginava, e o silêncio era absoluto. Havia muitas passagens, cinco para ser exato, eram como se fossem tuneis. Decidi entrar na que se encontrava no centro, ela era estreita e em grande parte seu percurso era uma descida íngreme, ao longo em que fui caminhando, comecei a sentir uma leve brisa e a escuridão começava a desaparecer lentamente. Continuei andando por cerca de mais dez minutos quando avistei um lago, um grande lago azul, e acima dele, um céu mais azul ainda. Eu só poderia estar sonhando, esse lugar seria perfeito para viver, teríamos água, iluminação e proteção. Eu tinha que conseguir fazer com que todos viessem para cá.
Do outro lado do lago, pude avistar uma única e escondida passagem, o único problema seria em como atravessar o lago. Eu não precisei pensar muito no que fazer, por sorte, havia uma parte mais rasa em um dos lados do lago e daria para passar por ali tranquilamente. Foi exatamente o que eu fiz, tomando muito cuidado para não escorregar, consegui chegar, entrei na passagem e segui em frente. No final dela, qual eu pensei que não existia, havia uma grande porta de madeira, nunca fiquei tão surpreso quanto naquele momento.
A dúvida tomou conta de minha mente, eu não fazia ideia do que poderia estar atrás daquela porta e nem sabia se queria saber. Aquilo era totalmente impossível, como poderia haver uma porta, ou alguém, em uma caverna que se localizava no meio do nada?
Sem mais delongas, decidi descobrir, aliás, de qualquer maneira eu já estava ali e precisava explorar o local para saber se era seguro o suficiente para mim e para o meu grupo. Encostei o ouvido na porta em uma tentativa de ouvir algo. Nada. Nenhum um som sequer. Logo conclui que não deveria ter nada e nem ninguém, então, eu entrei…
O cheiro era péssimo, e o lugar era bem organizado, por sinal. Era uma sala enorme e bem iluminada –aparentemente, havia energia ali- e que me lembrava dum hospital, tinha instrumentos cirúrgicos de todos os tipos, cadernos com inúmeras anotações, frascos e mais frascos do que aparentava serem experimentos e outros frascos com alguns tipos de substâncias desconhecidas por mim. Fiquei ali observando e tentando entender o que era tudo aquilo por um bom tempo, até que eu comecei a ouvir vozes, estavam vindo de outra porta, eram duas mulheres.
– Não, não podemos fazer isso, ele iria nos matar! – Disse uma delas.
– Deixe de ser imbecil, Jasmine! Ele nunca vai desconfiar. – Disse a segunda
– Não é tão simples assim, tá legal?
Elas estavam se aproximando, eu precisava me esconder. Corri para um vão entre a parede e dois armários, tive que empurrar um deles para conseguir entrar e então puxar de volta para que pudesse ficar bem escondido, por sorte, ele tinha rodinhas. A porta finalmente se abriu, elas entraram, as duas eram morenas, porém uma era mais baixa que a outra e tinha uma cicatriz no rosto que ia da testa até o queixo. Elas estavam segurando um deles, estavam segurando um nâmbulo.
– A aparência desse ficou ótima depois daquela limpeza de pele. – Falou a da cicatriz, e as duas começaram a rir.
– Com certeza!
Então, colocaram o nâmbulo em uma cadeira, ele parecia… inofensivo. Ele estava meio fora de si, não estava agindo da mesma forma dos que ficavam do lado de fora, parecia estar se comportando como humano, aquilo era extremamente estranho e me deixou apavorado. Eu tinha que dar um jeito de escapar dali o mais rápido possível.
– Jasmine, me ajuda a colocá-lo na mesa. – Pediu a mais alta.
– Ah Cassie! Não podemos fazer isso com ele ai? Essa coisa é nojenta.
– Claro que não! Vai logo.
Acontece que, em uma situação como essa você deve estar preparado para qualquer coisa que venha a acontecer, e eu não estava nem um pouco. Após colocarem o nâmbulo e o prenderem na mesa, elas saíram, e essa era a minha única chance. Assim que sai de meu esconderijo e me pus a andar, ouvi a porta atrás de mim se abrir.
– Ora, ora, ora… Nem mais um passo, mocinho! Quem é você?
Eu me virei e a olhei, era a mais alta, a Cassie, ela apontava uma arma para mim.
– É…eu estava… – Tentei responder.
– NÃO OUSE SAIR DAQUI! Você vai deixar suas coisas no chão, vai sentar naquela cadeira e vou te prender, se você tentar fazer qualquer coisa, eu te mato. – Ela gritava;
Fiz exatamente o que ela mandou sem hesitar, eu não sabia o que fazer para sair dali, e o pior de tudo, ninguém sabia onde eu estava.

Proposta de clímax vencedora da nossa escritora Kellen Bonassoli:

O que mais eu poderia ter feito?
As pessoas sempre pensam que saberiam lidar com a ameaça de uma arma.
Besteira.
Meu corpo entrou em colapso com a simples possibilidade de levar bala na cara.
O rosto de Cassie contorcendo-se em gritos de ordem tornou tudo ainda mais complicado. O ar não chegava aos pulmões, o coração parecia querer rasgar a pele para fugir sem seu dono. Todos os meus sentidos renderam-se ao medo e ao desespero pela sobrevivência. A única opção que eu tinha era obedecer.
Antes de pensar em qualquer coisa ela já estava com a arma no meu rosto. A voz dela emaranhou-se na minha mente e eu sentia uma vontade irresistível de obedecer.
– Senta direito. Não olha para mim, desgraçado. Não tente nenhuma gracinha ou juro que vai ser a última.
Quando me dei conta já estava com os punhos e pés imobilizados naquela cadeira.
O nâmbulo, a poucos metros de mim, contorcia-se em convulsões. Parecia que choques percorriam o corpo semi-morto da criatura. Se havia alguma humanidade ali, esvaia-se minuto a minuto.
– Cassie, ele é apenas um garoto. Provavelmente está contaminado. Como ele conseguiu chegar até aqui?
– Não faz diferença, Jasmine. Se a gente não conseguir, não tem futuro possível para nenhum de nós. Que diferença faz ter 16, 18 ou 60? Mais cedo ou mais tarde, todos vão virar essas coisas.
Sabe quando você está sonhando? Aquela sensação de semi-consciência que precede o despertar? Eu estava me sentindo mais do que preso, sentia a consciência afastando-se de mim. A visão ficava turva e as vozes pareciam abafadas. O que estava acontecendo comigo?
Do pouco que consegui ouvir, entendia que estavam discutindo sobre o meu estado, sobre o meu futuro e sobre o futuro de toda a humanidade. O que era aquilo? O que fariam comigo?
– Meu Deus, ele está em choque, Jasmine. Precisamos deitar o garoto. Chame o Fernando. Não podemos perder um exemplar tão perfeito.
As luzes corriam sobre os meus olhos e uma série de coisas aconteceu simultaneamente.
Uma sala cirúrgica? Médicos?
Uma série de vozes inquisidoras, mas eu já não conseguia responder.
Um zumbido forte penetrou meu crânio como uma furadeira, e então ouvi aquele grito horrível.
Era o meu grito!

Proposta de desfecho vencedora da nossa escritora Lis:

Eu havia adormecido por algum tempo. Acordei em uma sala, iluminada apenas por uma única luz no centro, sento-me na cama em que estava deitado para organizar melhor as informações que tenho em minha mente. Logo a porta do quarto se abre, não sei quem é aquele, mas me parece ser Fernando,logo atrás vem Cassie. eles conversam entre si:
–Parece que ele não é um Nâmbulo. –Diz Cassie, posicionada ao lado de Fernando com os braços cruzados, olhando para mim.
Fernando ignora o que Cassie diz e me faz uma pergunta:
–Qual o seu nome?
–Will. –Digo. Fernando se aproxima de mim, me permitindo olhar dentro dos seus olhos e perceber que ele tem um pinta próximo à sobrancelha.
–Como encontrou este lugar e de onde veio?
–Eu e um grupo de amigos saímos em busca de…
–O QUE? Existem outros sobreviventes? Isto é impossível, não sobrou mais ninguém depois do vírus ter se alastrado.
–Eu faço parte de um grupo de sobreviventes, próximo daqui, nós podemos ir lá e sei lá, talvez vocês possam…
–NÃO! não vamos à lugar nenhum. –Fiquei tenso naquele momento, eu queria apenas retornar para o grupo de sobreviventes, mas acho que deixei Fernando irritado e por isso não terei a menor chance de sair dali.
Fernando, juntamente com Cassie se retira do quarto. Fico desorientado e não sei se saio ou permaneço ali. Logo então decido sair da sala e procurar por alguém que me diga por que estou ali e para onde devo ir.
Ao sair da sala me deparo com uma escuridão que não parece ter fim. Até que vejo uma porta completamente de vidro e uma certa claridade vindo dela. Vou em direção a essa porta na esperança de encontrar alguém, pois ouço ruídos. E ao atravessar a porta vejo Jasmine, ela se assusta ao me ver e me diz para voltar imediatamente para a sala em que estava, e eu a pergunto por que, mas ela simplesmente me empurra para fora do cômodo tentando me fazer voltar para a sala, mas eu tenho mais força que ela e consigo fazer com que ela pare de me empurrar.
–Você tem que voltar para a sala de controle agora mesmo! –Ela fala baixo para que ninguém mais a escute. Ela olha pra mim como quem está inconformada com o fato de eu ainda estar ali ao invés de voltar para a sala.
–Sala de controle? Me responde uma coisa, por que vivem em uma caverna? –Digo.
–Grr… Olha não entende que… Tudo bem, vem comigo, irei te mostrar uma coisa.
Nós saímos da sala e ela me guia através das paredes grossas da caverna, ao som de gotas de água caindo a cada segundo.
–Olha… –ela aponta para algumas pessoas vestidas com jaleco branco trabalhando em algo que não sei o que é. –Eles produzem esses soros para tentar encontrar a cura para o vírus, por isso ficamos localizados em um lugar onde basicamente nunca ninguém irá nos encontrar, exceto você.
–Mas os outros sobreviventes tem o direito saber que há um departamento especializado em descobrir a cura para estas pragas. –Questiono.
Um alarme toca bem alto e chega a irritar os meus ouvidos. Logo percebo que indica o fim do expediente dos cientistas malucos, especializados na produção de soros para a cura do vírus. Todos aqueles cientistas se retiram da sala e Jasmine me diz que é hora de ir embora… Mas eu passo próximo á uma das mesas e recolo um frasco com um líquido azul dentro, na minha cabeça aquilo seria o soro, e eu realmente espero que seja.
Jasmine me ajuda a fugir daquele lugar me mostrando a saída, ela não sabe que peguei uma amostra do soro. Caminho por cerca de 1 hora até chegar á zona de quarentena. Decido então dormir e tratar de assuntos só na manhã seguinte.
No dia seguinte acordo com vozes e gritos vindo da sala de reuniões. “Temos que pensar em algo!” diz uma das vozes. Sem mal acordar direito, me dirijo a sala de reuniões para apresentar a todos presentes, oque recolhi ontem na caverna.

FIM

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Proposta de apresentação vencedora do nosso escritor Sorley Sales:

Quatro de Abril, 3 dias antes do crime.
(SELLY HANK QUER PERDER A VIRGINDADE)
A manhã daquele dia acordou amarga e fria, com uma nuvem densa pousando na cabeça dos moradores de Londres, mais especificamente da pequena Dorric Ville. Selly Hank estava parada na varanda, olhando para o horizonte nevado. Deu alguns passos em direção a grama brumosa, apertando firme o casaco contra o corpo e enrolando ainda mais a echarpe no pescoço delgado.
Por um minuto pensou ter visto uma lebre correr feliz do outro lado da estrada, e logo depois ser devorada por algum tipo de animal regional. Faminto e cruel. Os seus olhos pesaram rudemente em um caminhão que passou rápido e deliberadamente pela estrada retilínea, que daria uma curva somente um quilômetro depois. O motorista a olhou com fome nos olhos. O bigode ruivo acentuava com o boné cor de limão, as luvas de couro pousadas firmemente no volante. Selly baixou a cabeça e riu quando ele continuou o percurso.
– O que está fazendo aqui fora, sua merdinha? – Benjamin Scoob era um homem de um metro e oitenta, com barriga saliente, uma blusa de madeireiro, bigodes sujos de fuligem e a voz rouca e catarrenta. – Não a autorizei a sair! Volta para casa! JÁ!
O homem pegou no braço da garota e apertou.
– Larga! Seu porco maldito e alcoólatra! – reclamou Selly, se desvencilhando do padrasto.
Benjamin Scoob não tinha sido casado com Aurora Hank, mãe de Selly, mas vivera por dois anos naquela casa de beira de estrada, tempo suficiente para considerar-se parte da família. Desde que Aurora fora enterrada, Benjamin trata a garota como uma empregada boazuda que faz o que ele pedir. Sabe como é! Manda quem pode, obedece quem tem juízo! E decididamente Benjamin havia adotado a frase como lema de sua convivência com a enteada.
– O que você disse, merdinha?
– Isso mesmo! Seu porco nojento e mal cheiroso! – a garota encarou o padrasto com um olhar severo, como se extraísse daquela pupila o máximo de enfrentamento possível.
A ação seguinte deu-se ao levantamento da mão gorda de Benjamin e a uma bofetada certeira no rosto da garota. Selly cambaleou para o lado e esfregou o rosto dolorido.
– Para casa! AGORA! – ordenou Benjamin Scoob, dando dois passos para a esquerda e um para a direita. Era um bêbado sem escrúpulos que se apossava do BAR NICKJOY e bebi todas até tarde da noite, o que significaria voltar pela manhã para continuar a esvaziar todas as garrafas de cerveja do local.
Selly correu o máximo que pôde para casa, direto para o quarto. Trancou a porta num empurrão nervoso e deitou-se na cama. Não passara nem um minuto quando decidiu levantar-se, vestir a jaqueta, pegar o celular e discar o número que estampava-se num papel embolado sobre a escrivaninha:
– Alô… Klein?
– Ah… oi, oi… Alô? Quem é? – falara uma voz masculina do outro lado da linha.
– Oi, eu… Selly, lembra?
Por alguns segundos o silêncio persistiu. Delicadamente a voz voltou.
– Ah, claro… Oi Selly! Está tudo bem? – falou Klein, preocupado.
– Eu queria saber se tem alguma coisa para fazer esta noite?
– Ah, não… com certeza não!
Então ela não iria jogar uma oportunidade fora. Selly era virgem, e isso fazia as suas amigas rirem e deixarem-na para trás por isso. Conhecia Klein há um mês, quando flertaram na Loja de roupas Marrie & Joshie. Queria que o garoto a fizesse enlouquecer em uma cama, era assim que Selly pensava em sua primeira noite de amor. Então marcara de se encontrar com o rapaz no FALCOM, restaurante ao norte de Dorric Ville.
– Abra aqui, sua merdinha! ABRA! – O padrasto esmurrava a porta. – Estou com vontade de lhe dar mais uma surra! ABRE! VAMOS!
Selly tomou o celular para si, um caderno de anotações e levantou o dedo do meio na direção da porta. Rindo ela pulou a janela e correu. Correu o máximo que pôde. Correu horrores.
Foi a última vez que tivera contato com o padrasto.
(CLARE PENNY RECEBE UMA VISITA)
Televisão ligada. Aparelho de som no volume máximo. Clare Penny de pijamas. Típico do dia da garota. Quase não ouviu a porta bater. Quando ouviu, abaixou tudo e notou que Selly Hank estava em pé e lavada de neve dos pés a cabeça.
– Selly? O que aconteceu?
– Eu deixei aquele porco nojento grunhindo em casa e fugi!
– Fugiu? – assustou-se Clare, tendo necessidade de perguntar uma segunda vez. – Como assim fugiu?
– Fugi, Clare! Simplesmente!
A garota não insistiu mais em saber o motivo. Sabia que Benjamin Scoob era o tipo de homem que comia mulheres no bar do amigo quando estava bêbado até o miolo do cérebro; sabia que ele não era o tipo de pessoa respeitável e padrão de padrasto.
Passaram o resto da manhã conversando. Almoçaram juntas e deitaram-se no chão acarpetado da sala, admirando o teto, vira e mecha rindo do nada.
– Quando vai me apresentar esse tal de Klein? – perguntou Clare, insistindo pela quinta vez só naquela semana.
– Talvez não seja o momento, Clar. Talvez ele seja tímido.
– Talvez ele seja virgem como você, querida!
As duas riram alto.
– Não. Acho que não. – falou Selly, parecendo saber alguma coisa secreta do rapaz.
Dessa vez Clare riu sozinha.
Clare Penny tinha voltado de Paris um ano antes. Fora a convite da tia Meredith, e passara alguns meses na cidade. Havia conhecido um garoto por lá, com quem namorara durante os seis meses que ficara na região. Às vezes sentia falta de Neil Flembvar. De ver e sentir o rosto dele e o seu toque quente na pele dela. Mas desde que ela voltara se falam somente por telefone. Nada mais que a voz de Neil para fazer Clare não perder as lembranças. Um gato amarelado pulou no colo da garota. Mister Pob. O felino tinha vindo da casa da tia. E vivia desde então no recinto Londrino.
– Vou pegar chá! Quer também? – ofereceu Clare, levantando-se, fazendo o gato pular para o outro lado, e se direcionando à cozinha.
– Sim. Por favor. – Selly ficou ali, deitada no carpete, sorrindo ao pensar no rosto de Klein. Como seria o encontro? Proveitoso? Frio? Romântico?
Pensou nos olhos verdes e profundos do garoto. Era bonito. Tinha cabelos dourados e quase vinte anos. Um monstro parecia urrar em seu peito. Ainda mais alto depois que começou a imaginar como seria ela e Klein em um quarto. O monstro urrou. Urrou ainda mais. Urrou mais alto.
Não era prazer. Era um alerta!
(ALICE McCLEIN TOMA UM CAFÉ)
As duas tinham ligado no fim da manhã para marcar o café. Alice esperava ansiosamente Selly Hank e Clare Penny em uma Cafeteria a leste de Dorric Ville, a ROSES COFEE. Alice McClein estendia uma carta sobre a mesa e lia com atenção. Sua mãe, Janice McClein, a escreveu da Itália. Fazia três anos que mãe e filha não se viam, e isso confrontava um passado de felicidades juntas e provavelmente um futuro de aproveitamentos familiares. Mas por enquanto se sentia bem. Há dois meses namorava um cara, que proveitosamente a estava fazendo muito feliz.
A garçonete trouxe dois minutos depois um café com biscoitos recheados. Alice mergulhou um biscoito no café e pôs na boca. Depois mergulhou outro e o mordeu bem devagar. Em seguida mais outro, e outra mordida. E então a sineta da porta tilintou e duas garotas entraram rindo. Se dirigiram para a mesa de Alice e sentaram-se com a menina.
– Minha mãe enviou mais uma carta! – Um sorriso branco e aberto o suficiente para causar uma distensão facial apareceu no rosto da garota. – Ela vai enviar uma passagem para mim daqui a um mês!
Ela deu um gritinho ousado e as outras garotas também ficaram felizes.
Meia hora decorreu desde o início da conversa, e então ocorreu das três irem ao banheiro juntas.
Alice McClein ficara de frente ao espelho retocando o batom. Clare Penny lavava as mãos, enquanto Selly Hank saía da cabine feminina.
– Talvez vocês sejam as garotas mais sortudas do mundo!
– Do que você está falando? – perguntou Alice e Clare, em uníssono.
– Vocês não queriam conhecer Klein? Talvez ele tenha esquecido isso aqui! – A garota estava feliz e segurava algo nas mãos. Um moderno celular. – E aqui está ele!
Alice deixou o batom sobre a pia e correu para perto de Selly. Clare fez o mesmo, encarando a tela do celular segundos depois.
– Este é Klein! – A tela do celular indicava um rapaz muito bonito, com cabelos loiros e um olhar verde delicado. O sorriso incomum postava-se no rosto. Usava um belo terno e uma gravata branca.
– Não… Não é ele… Não pode… Como? Não pode ser… esse é…. Não…
Alice foi se afastando, os olhos marejados.
– Diga-me que você não está com ele, Selly! Diga! – interrogou Clare, encarando a amiga.
– Sim. O que aconteceu com vocês? É ele… esse é Klein…
– Esse não é Klein! – falou Alice. – Esse é Franklin! O meu namorado!
– O quê? – disseram ao mesmo tempo Selly e Clare.
Clare interrompeu e disse:
– Não… esse é Neil! – E quando viu a expressão no rosto das amigas, continuou: – O conheci em Paris, há um ano! Nós namoramos e continuamos a nos falar todos os dias…
Mas antes que tivessem tempo de falar mais alguma coisa, Selly viu no celular dois vídeos. Um deles era Clare com o suposto rapaz em um momento íntimo na cozinha de um hotel, fazendo amor. Outro era Alice McClein em um quarto de motel com o mesmo rapaz, fazendo a mesma coisa.
– ELE GRAVOU ISSO? – gritou Alice. – COMO ELE FOI CAPAZ!
Clare estava nervosa demais para falar alguma coisa. E então o celular tocou.
– Alô? – Selly não poupou esforços para atender e pôs no viva-voz.
– Olá, meninas! Não se preocupem! Eu amo todas vocês!
– SEU ORDINÁRIO! – gritou Alice para ele, e ouviu uma risada do outro lado da linha. – Como pôde fazer isso comigo?
– Eu só quero jogar… aceitam?
– VAI PARA O INFERNO, SEU DESGRAÇADO! – agora fora Clare quem tomara a dianteira e gritara.
– Ah, olá, minha querida Clare! Que bom ouvir a sua voz! Terei o prazer de jogar o meu jogo com você também!
– Vamos destruir esse celular nas chamas, seu ordinário! Nunca mais entre no nosso caminho! – As palavras firmes e seguindo uma linha reta e dura de Clare atingiram os ouvidos do rapaz como uma nota de violino. E então ele respondeu:
– Ah, claro. Podem jogar o celular nas chamas! Vão em frente! Tenho todos os vídeos arquivados no computador! Vão em frente! Façam isso!
As três se entreolharam, e de repente Selly falou:
– O que quer que nós façamos?
– Ah, minha linda Selly, eu já disse! Vamos jogar! Só o que eu quero! – E riu por um segundo do outro lado da linha.
– Não faremos merda nenhuma, seu imbecil nojento! – encarou Clare. – Caso ele divulgue os vídeos ou faça algo que possa nos atingir por meio deles será crime!
Dessa vez uma risada mais forte surgiu na linha. Parecia assistir a uma comédia do ano.
– Bem, minha querida Clare, não sei se você reconhece bem os termos associados a palavra crime! Talvez crime seja matar uma pessoa em uma pousada durante as férias de verão há dois anos.
Clare espantou-se. Entonteceu e recostou-se na pia. Como ele sabia disso? Não. Ninguém sabia! Como?
– O que quer que a gente faça? – perguntou novamente Selly, ignorando o fato relatado sobre a amiga um segundo atrás.
– Muito bem. Boa garota, Selly. Estou orgulhoso! Bem… para começar… venha jantar comigo normalmente como você marcou! Mas não hoje! Amanhã, no mesmo horário! Agimos normalmente! E lhe darei todas as coordenadas para que possamos começar o jogo!
– Tudo bem. – foi a última coisa que Selly disse antes de desligar o celular.
– Você vai se encontrar com ele? – perguntou Alice, limpando as lágrimas que rolavam pelo rosto.
– Sim. Tenho que ver o que ele quer. E por que sabe sobre coisas que nem nós sabemos! – E nisso encarou Clare, dando a entender que o fato da pousada nunca tinha sido comentado pela garota.
Selly Hank, Clare Penny e Alice McClein estavam numa enrascada sem tamanho! Nas mãos de um jogador, como ele próprio se autodenominara. O dia lá fora escurecia. Uma delas estaria morta em alguns dias? Duas? As três? De qualquer forma o jogo já começara.

Proposta de apresentação vencedora do nosso escritor EdCampanate:

(Ainda no Rose Cafee)
As amigas estavam confusas com o que acontecera. Selly era a mais tranqüila das três meninas, apesar do seu dia ter começado muito conturbado, ela havia se livrado de uma surra de Scoob, o crápula do seu padrasto que achava que era seu pai.
Benjamin Scoob nunca seria alguém para ela. Pensou, onde sua mãe vira algo de interessante naquele indivíduo? O cara não tinha modos nem pra sentar-se à mesa. Aquilo tinha que viver num chiqueiro. E agora outro Scoob bagunçando sua vida. Não queria aquilo para ela. Não mais com Klein, Franklin, Neil ou sabe lá quem era aquele homem de mil faces. O desgraçado que a deixou decepcionada.
— Meninas vamos arrumar essa bagunça, pois ficar neste baixo astral não nos ajudará em nada. Talvez isso ainda possa ser divertido — entusiasmada Selly disse como se já tivesse um plano.
(Ainda no Rose Cafee)
Alice e Clara ainda estava longe de entender tudo o que estava acontecendo tão rápido e acharam muito estranho aquele “divertido” vindo daquela menina virgem.
— Sempre há uma solução quando as coisas parecem sem saída — disse Selly firmemente tentando convencer as amigas que olhavam para ela sem piscar os olhos.

Apesar de ter ainda quinze anos seu corpo de belas formas faziam com que as pessoas lhe dessem mais alguns anos. A pele branca com as bochechas rosadas da face dava lhe um aspecto de uma linda princesa. Tudo isso era realçado pelos enormes
olhos azuis que ganhara da mãe e os volumosos seios escondidos debaixo do casaco marrom feito de lã. Seios que deixavam Benjamin Scoob excitado.

— Como faremos isso? — disse Clara caminhando para fora do banheiro e ao lado de Alice e Selly vinha mais atrás.

— Temos uma vantagem sobre ele — lembrou Selly. Suas amigas não tiravam os olhos dela, elas estavam muito desanimadas.

Tudo aquilo estava sendo assustador para as três.

— Ele quer um encontro comigo, se lembram? Eu poderia de alguma forma arruinar esse plano ridículo dele. — continuou Selly muito confiante na suas idéias.

Naquela tarde as três passaram a maior parte do tempo arrumando um jeito de dete-lo, aquela cabeça do mal. Um pervertido que pretendia difamar as meninas de Dorric Ville.

(No quarto de Alice)

Selly não tinha onde passar aquela noite, mas Alice a convidou para ficar em sua casa. Alice sabia que ela não poderia voltar com aquele idiota lá dentro. Bêbado e com outras mulheres. Mas isso ela só poderia resolver mais tarde. A prioridade naquele momento era suas amigas.

Assim que Selly colocou um pijama floral de Alice, os primeiros sinais de cansaço aparecem naquelas duas faces angelicais. A bi-cama acomodou as de forma confortável. Alice virou para lado e dormiu. Selly, ainda acordada pensava longe.

Naquela escuridão, Selly notou uma luz que vinha de cima do criado, aquilo estava a incomodando. A luz vermelha piscava intermitentemente, ela levantou-se ficando sentada na cama e pode notar que aquilo vinha de um celular. O celular de Klein. Foi até o aparelho e o segurou. Tinha dificuldades para enxergar, então franziu a testa, fixando os olhos no visor do aparelho.

Nele havia uma mensagem. “Selly, cuidado! Você está em perigo”

— O quê esse maluco está querendo — murmurou e em seguida apagou a mensagem voltando para cama.

Proposta de clímax vencedora da nossa escritora LariSantos:

Selly não conseguiu dormir após ler a mensagem, afinal Klein não tinha nenhum vídeo dela, apenas de suas amigas, era um pensamento egoísta, e ela detestou que esse tipo de pensamento tenha saído dela ,mas decidiu continuar com o plano e logo adormeceu.
Assim que o sol começou a nascer Alice levantou, não muito animada com o viria pela frente, apenas desejando que esse tempo de vinte e quatro horas passasse logo. Fez o café e foi acordar Selly, mas quando chegou no quarto ela já estava acordada e com o celular de Klein na mão, e com uma expressão nada agradável.
– Ai meu Deus Selly, o que foi dessa vez?
– Isso não é nada bom.
– Menina para com isso, fala logo.
– Liga para a casa da Clare agora, vai rápido.
Como Selly suspeitou, Clare havia desaparecido nessa madrugada, logo após de ter recebido a mensagem. E quando acordou tinha uma nova mensagem só que dessa vez sem o número, mas com a frase “Pode até demorar, mas você sempre vai colher o que plantar”. Não que para Selly fizesse sentido na hora mas seu primeiro pensamento foi em Clare e ela estava certa.
O desespero só aumentava, e não podendo fazer algo, aguardaram até a hora de encontrar o Klein, tudo dependia desse encontro, até que receberam outra mensagem, novamente sem número, mas com um aviso “Selly não sejá tola, pagar pelos erros dos outros não te torna um pessoa melhor”, Alice começou a chorar, implorando para que ela não fosse encontrar aquela louco.
– Por favor, não me importo de ser exposta, não quero perder você.
– Alice, precisamos saber o que aconteceu com a Clare.
– Você quer saber? Ela fugiu, pelo simples fato de não se importar com a gente.
– Nada que você fale vai me impedir de ir nesse encontra.
E assim foi, mas chegando lá antes mesmo de entrar no local combinado, ela encontra o padrasto, e nesse momento Selly percebeu…

Proposta de desfecho vencedora da nossa escritora Deborah Pimentel:

( Em frente ao restaurante FALCOM )
… que estava completamente ferrada, e que seu padrasto era o culpado daquilo tudo.
– Então quer dizer que você gosta de homens mais velhos? Não é mesmo? – Seu padrasto a olhou de forma maliciosa e quase a fez cair para trás em um susto.
– O que… você está fazendo aqui? – Selly perguntou assustada e com medo.
– Não é óbvio? Ou preciso chamar o Klein? – Perguntou. – KLEIN! – Ele gritou com seu tom alto e grosso. O homem ao qual uma vez Selly pensou em ter alguma coisa, até mesmo ir para cama com ele. Apareceu atrás de seu padrasto e com um sorriso nos lábios.
– Devia ter me deixado pega-la antes! -Klein falou em um tom brincalhão e parecia estar decepcionado por não poder ter seus desejos realizados.
– Não pense asneiras. Ainda bem que vim aqui. – O Padrasto falou.
Selly estava pronta para correr, aquilo era de mais para ela. Devia ter prestado mais atenção na mensagem de Klein, e ter sumido. Mas seu padrasto a segurou, antes que ela o pudesse fazer.
– Fique aqui, temos um jogo para jogar. – Falou Benjamin Scoob. – Não quer perder a melhor parte, não é mesmo? Ah, antes que você pense algo, a melhor parte é você. Agora vamos! – Ele começou a puxa-la para perto de seu carro, ela poderia gritar, mas ela não o fez, seria inútil. Ele a colocou no carro e ao seu lado se sentou Klein, e o padrasto foi para o banco de motorista e começou a conduzir para um lugar distante, mais precisamente um galpão afastado da cidade. Chegando lá ele a arrastou para fora do carro, e os três entraram por uma porta toda acabada. No galpão: Suas duas amigas amarradas e um homem sentado as observando.
Selly sabia muito bem quem ele era, Daniel Triven, vivia lá em sua casa, com seu padrasto nojento. Eles a olhavam e ela tinha medo disso. A garota foi jogada ao chão junto com suas amigas. E elas se entreolharam, o medo estava visível no rosto das garotas.
– ALGUÉM DA PARA ME EXPLICAR O QUE ESTÁ ACONTECENDO AQUI! – Gritou Selly. Sua coragem de gritar em uma situação dessa fez os três homens rirem.
– Muito bem, Selly. – Disse Daniel. – Explicaremos para vocês. O joguinho todo. – Ele riu de um jeito pavoroso.
– Eu estou com medo. – Sussurrou Alice para as amigas.
– Eu também estou. – Clare falou no mesmo tom que a amiga.
– Vamos sair daqui, eu prometo. – Falou Selly tentando dar um pouco de confiança as amigas, ela queria arranjar um jeito de reverter essa situação e ter duas amigas se cagando de medo não iria ajudar muito. Não que ela não estivesse, mas para quem conviveu sozinha em uma casa com esse padrasto nojento, medo é só uma pequena rotina.
– SAIREMOS DAQUI DEPOIS DE SERMOS ESTUPRADAS POR ESSES NOJENTOS? OU MELHOR, MORTAS? – Gritou Clare.
Klein, Franklin, Neil ou seja lá o nome desse pervertido, começou a rir e se aproximou de Clare. Se ajoelhando a sua frente.
– Não pense uma coisa dessas de mim, amor. – Ele falou a encarando. Colocou a mão sobre seu rosto, mas ela recuou.
– EU TENHO NOJO DE VOCÊ. – Ela gritou.
– Eu sei que não. – Ele sussurrou.
– Vamos parar com isso. – Benjamin Scoob falou. – O jogo está na melhor parte.
– Que jogo? – Perguntou Alice.
– É simples. Eu namorava Clare, essa coisa linda. – Klen falou se levantando. – E fui contatado pelo Benjamin. Olha que incrível. – Ele riu.
– Vá direto ao ponto! – Falou o padrasto.
– Ele me propôs uma coisa, um belo dinheiro por um vídeo de minha namorada e eu juntos. Era uma boa grana. – Klen falou e riu.
– Você é um nojento! – Gritou Clare. – Eu não acredito nisso.
– Quieta. – Ele falou. – Foi o que eu fiz, gravei um vídeo e mandei a ele. No começo achei estranho, mas me explicou tudo. E eu resolvi participar mais. Então vim para cá, e fiz o mesmo com a Alice. Precisava dos dois vídeos para o joguinho. E eu estava pronto para terminar o trabalho, e olha que a terceira vez foi bem fácil. O que é isso Selly. Nem precisei te chamar para um encontro e você já fez isso. Você iria se encontrar comigo, eu te traria para cá e Benjamin faria o resto. – Ele riu novamente. – Vocês estragaram tudo achando aquele celular. Mas pensamos em outro plano para o joguinho. Até que deixou mais divertido. E tivemos que pegar as três, o que deu um belo trabalho.
– Eu quem o diga! – Falou Daniel.
– É o seguinte: Eu quero você, na verdade sempre quis. Mas eu não poderia ser preso, então planejei junto com eles isso tudo, Selly. – Falou o padrasto.
A garota estava cada vez mais assustada, e mil coisas passavam pela sua cabeça.
– O que… o que você quer dizer com isso? – Ela perguntou e engoliu em seco, ela não queria saber aquela resposta.
– Eu não preciso nem falar. Mas bom, o Neil não explicou a melhor parte do jogo, claro, depois de você, querida. – Ele olhou para Selly.
– Que melhor parte do jogo? – Perguntou Neil confuso.
– O que faremos com três garotas aqui? Iriamos ser pego. Eu poderia ser preso. – Ele tirou uma luva do bolso e colocou na mão direita. Depois pegou uma arma de seu outro bolso, e começou a conferir as balas. – Eu tive uma ideia maravilhosa com meu querido amigo Daniel. Não é mesmo?
– Ótima ideia, aliás.
– O que vocês estão falando? – Perguntou Neil.
– Você, sequestrou essas três garotas e as estuprou. Certo? E depois Selly te matou. – O padrasto apontou a arma para a cabeça de Neil, destravou-a e sem dar tempo de nada o matou com um tiro só na cabeça.
As garotas gritaram e o choro que a pouco era disfarçado, estava totalmente desesperador em cada uma.
– Era um bom rapaz. – Concluiu o homem.
– Agora, sua vez. Selly. – Ele se aproximou da garota e colocou a arma em sua mão. – Você o matou por que ele estuprou vocês. Estamos entendidos?
As mãos de Selly começou a tremer, ela tinha um plano. Ela o mataria. Mas quantas balas teria na arma? Ele entregaria se ela tivesse alguma?
– Me deixe a só com elas. – Ordenou Benjamin Scoob. – Te pagarei depois.
Seu comparsa concordou e saiu porta a fora. E a fechou em um baque.
O padrasto voltou a atenção para ela, mas Selly já estava em pé e mais distante dele. Com a arma em suas mãos. O mais firme que ela conseguia. E apontou para ele.
– SE AFASTA! – Ela gritou. Suas amigas gritavam para ela parar de ser louca. E tentavam se soltar das cordas que prendiam seus braços.
– Ouça suas amigas. – Benjamin falou. – Não tem balas ai.
– Será que não mesmo? Seu alcoólatra nojento. Você deu um tiro, ou seja, uma bala. Você vai matar elas. Não vai? – Selly perguntou. – Você precisaria de mais balas. E eu me arrisco a dizer que estão aqui dentro. – Ela balançou a arma um pouco.
Ele riu alto, mas seu olhar estava bem concentrado nela.
– Mesmo se tivesse alguma bala ai, você não teria coragem de atirar. – Ele falou confiante e foi pra cima dela com tudo para tirar a arma de suas mãos. Mas ela foi mais rápida e disparou vários tiros em direção a ele, o que o fez cair sangrando.
– O jogo acabou. Para você.


layout_narrativa05_finalizada

Proposta de apresentação vencedora da nossa escritora Kellen Bonassoli:

**** 10/08 08h30 ****
Em meus braços ela é tão pequena e delicada. Andar ao seu lado, com o sol suave da manhã é realmente um presente. Ela não conhecia o mar, nunca tinha sentido a grandiosidade de um oceano e agora contemplava a praia com felicidade e assombro.
Barquinhos perdiam-se no horizonte do infinito do seu olhar. Ela segurava minha mão com firmeza enquanto tentava absorver toda a paisagem.
**** 06/08 – 17h58 ****
– Estou com medo, papai.
– Estamos quase conseguindo, Estrela.
– Eles não vão me deixar ser livre, papai. Eu sei que não vão.
– Segure firme. Está pronta pra pular?
– Te amo, papai.
– (espero que o rastreador resista) 1, 2, 3 e já!
**** 05/08 – 09h46 ****
“Atenção, Doutor Marcelo. Compareça ao setor 5, leito 42 da Ala Experimental B. Atenção, Doutor Marcelo. Compareça ao setor 5, leito 42 da Ala Experimental B.”
(*)
Eu decidi que aquela seria a última amostra que eu retiraria dela.
Olá, eu sou o Marcelo. Sou médico e cientista em uma instalação de segurança máxima. Quer dizer, na verdade eu não sou ninguém, tecnicamente eu fui apagado, jamais nasci e o meu aqui você pode chamar de “lugar nenhum”. Esta instalação sequer existe. Entende?
Eu não tenho orgulho do que tive que fazer para chegar até “lugar nenhum”. Não mesmo. Nos primeiros 07 anos eu realmente acreditei que poderíamos salvar o mundo. Acreditei que encontraríamos a cura para a humanidade.
Besteira.
Eles não querem curar ninguém.
Toda a pesquisa experimental serve apenas para os propósitos de um mal maior. Você não vai gostar de saber disto.
E eu estava indo bem sendo um monstro, mas isto foi antes dela. Antes de Estrela.
Fui eu quem encontrou seu abrigo.
Na verdade não deveríamos dar nomes a eles. São apenas números e tubos de ensaio. Qualquer simpatia é condenável e perigosa para a pesquisa. Eu sabia que não poderia me envolver, mas eu não consegui virar as costas e dei a ela o mesmo nome da minha filha: Estrela.
A minha pequena Estrela, a primeira, minha filha amada.
Ah, que saudades.
Minha pequena Estrela existe apenas nas minhas memórias mais dolorosas.
Abandonei toda a minha humanidade quando perdi sua luz.
Sabia que aceitar este emprego significaria abdicar da minha própria existência, mas agora eu estava sozinho mesmo.
Que diferença faria, não é!?
**** 06/08 – 18h00 ****
O vento levou os dois para uma distância quase mortal. O avião explodiu assim que o contador chegou em 18h00. Eles sabiam que não conseguiriam ir tão longe e Marcelo era capaz de burlar cada uma das medidas de segurança deles. Afinal, não tinha sido ele o principal desenvolvedor daquela monstruosidade?
Com Estrela seria diferente. Ela era de outro tipo. Uma forma de vida completamente nova. Marcelo ainda lembrava, com lágrimas de euforia, do dia que percebeu que podia ouvi-la em pensamentos.
Estavam conectados.
Foi ela quem escolheu o nome de Estrela.
Ela disse a ele que este nome tinha uma intensidade linda dentro de sua mente, Estrela brilhava de cores caleidoscópicas e cintilantes e ela amava como estas cores faziam cócegas em seus sentidos.
Abriu o paraquedas com Estrela aninhada em seus braços. A menina encolhera-se toda ao som da explosão e recusava-se a olhar os destroços flamejantes da pequena aeronave que abrigara a fuga dos dois. Metal retorcido caindo do céu.
Marcelo sabia que poderiam não sobreviver, mas fugir daria pelo menos uma chance de mudar tudo.
Era só nisso que ele pensava: na chance.
O impacto desajeitado fez com que rolassem na grama. Por pouco não bateram em uma árvore. Marcelo instintivamente abraçou e protegeu Estrela da queda, mas não teve tanta sorte consigo mesmo.
– Droga. Droga.
– O que é isso, pai?
– É sangue, Estrela. Não olhe.
– Eu posso consertar.
Sorriu para ele enquanto tocava sua perna mesmo sob protestos. Sua mão agora estava completamente lambuzada com o sangue de Marcelo, mas o corte de sua perna já não estava lá.

 

Proposta de desenvolvimento vencedora da nossa escritora Kellen Bonassoli:

***20 de novembro de 1980***
– Sinto muito, senhor Marcelo. Perdemos Aline, mas o bebê ainda tem chances.
A voz da médica perdeu-se na angústia daquela notícia. Abandonado, sozinho. Uma sensação de revolta, impotência e culpa.
Ah, Aline. Você sempre foi o meu farol, meu caminho, minha companheira. Quem poderia imaginar que o cataclismo chegaria de forma tão sorrateira?
Deveria ter sido eu sob os destroços. O que eu vou fazer sem você?
***20 de novembro de 1984***
– Assopra a velinha, Estrela.
Sorrindo eufórica para as pessoas que aplaudiam e, até mesmo, um pouco confusa com a profusão de cores e personagens que a cercavam, a pequena garota, no colo de seu pai, enchia os pulmões decidida e concentrada como se estivesse preparando-se para um grande desafio, talvez o maior dos seus singelos 4 anos.
Inclinada sobre o bolo e sentindo o calor da chama bem próximo de seu rosto, soprou uma única vez com toda a força e assim extinguiu a chama tremeluzente. As palmas e gritos inundaram seus ouvidos e seu sorriso fez os olhos de Marcelo iluminarem-se também.
– Parabéns, bonequinha do pai. Agora já pode comer brigadeiros, brincar e daqui a pouco a gente vai abrir os presentes.
Mal soltou Estrela no chão e ela já corria para o salão colorido de crepom, balões e crianças saltitando.
***06/08 – 18h00***
Droga. Droga.
– O que é isso, pai?
– É sangue, Estrela. Não olhe.
– Eu posso consertar.
Sorriu para ele enquanto tocava sua perna, mesmo sob protestos. Sua mão agora estava completamente lambuzada com o sangue de Marcelo, mas o corte de sua perna já não estava lá.
Marcelo sentiu a mente conectada com a dela e uma sensação tranquilizante e morna em sua pele. Seus pensamentos ficaram turvos e entrelaçaram-se aos dela num instante que pareceu estender-se por muito mais tempo do que aquele breve toque. Sentiu sua mente sendo tragada para dentro, para baixo, para longe e mergulhou em pensamentos obscuros e multicoloridos sem compreender quanto daquilo era seu e quanto daquilo era dela. Um rosto de olhos verdes que evaporava, vozes misturadas sussurrando seu nome, uma frase que se repetia em som, texto e símbolos embaralhados: “A vida, o passado e o futuro repousam no fundo do mar”
Emergiu de forma brusca e tão incomoda quanto o despertar dum sonho em que se está sempre em queda. Ao abrir os olhos, demorou alguns segundos para entender que o sangue nas mãos de Estrela era apenas dele.
– A vida, o passado e o futuro repousam no fundo do mar.
– Sim, papai. Eu ouvi também.
– Precisamos rastrear a caixa, não deve estar longe. Com ela teremos uma chance.
– Estou muito cansada.
Fechou os olhos e adormeceu.

Proposta de clímax vencedora do nosso escritor Guilherme Porfírio:

**06/08 – 10h22**
-Quais são os planos dos nossos superiores? Porque eles decidiram nos transferir? – Perguntei curioso.
-Marcelo- Respondeu-me Lucas, um rapaz de cabelos ruivos bagunçados olhando ao redor como se temesse que alguém nos escutasse – Preciso te contar uma coisa.
-Oque é? Você está me assustando!
-É sobre o seu envolvimento com o experimento…
-Garota! Ela é uma garota! – Não gosto quando se referem à Estrela dessa forma.
-Com a garota, que seja, é que a direção tem os observado de perto e não está nada satisfeita… Eles planejam… – Ele continuava olhando ao redor preocupado.
-Planejam oque Lucas?
-Eliminar vocês.
-Oque, mas quanto à transferência?
-É uma emboscada, vocês voarão para uma emboscada… Às dezoito horas…
-Oque acontece às dezoito horas?
-Tem uma bomba no avião de vocês, ela detonará a essa hora, é o momento em que estarão sobrevoando a mata fechada…
-Onde as buscas por destroços de aeronaves ou sobreviventes são quase impossíveis… – Eu disse devagar, processando os dados – Eu já vi fazerem coisas assim antes, sei que são capazes. Droga, Oque nós faremos?
-Tem um paraquedas no avião de vocês, eu deixei escondido na cabine de pilotagem, não haverá ninguém lá, a aeronave é uma das automáticas e estará sendo controlada pelo diretor.
-Quanto tempo você acha que levaria até eles descobrirem tudo? Até eu você e ela pagarmos o preço por isso. Não vai dar certo. Assim que pularmos eles mandarão alguém atrás de nós. E mesmo se sobrevivêssemos, que vida nós teríamos lá fora? Eu não sou ninguém, se lembra?
-Bem… Acho que você não tem escolha… Além do mais, como você disse, na mata fechada é quase impossível encontrar alguém… Quanto à documentação de vocês, eu darei um jeito, posso conseguir históricos de escolaridade, identidades e até dinheiro… Só que eu preciso de mais algum tempo, além do mais, vocês não vão conseguir embarcar com essas coisas, serão totalmente revistados. Eu enviarei em outra aeronave.
-Nos enviará?
-Sim, eu sei, parece loucura, mas… Eu venho trabalhando nisso… É uma caixa transportadora, um jato automático qualquer pode levá-la à mata e então eu a lançarei lá. Bastará que vocês a encontrem.
-Como nós encontraremos uma caixa no meio da mata?
-Com isso – Disse ele retirando do bolso do seu jaleco empoeirado um aparelho cinza escuro com uma tela preta piscando um ponto vermelho – Um rastreador pareado com a caixa, assim que for lançada, a luz ficará azul, e então… Bem… Você sabe é só seguir…
-Por quê?
-Porque vocês precisam da caixa.
-Não… Digo, por que você está nos ajudando Lucas?
-Porque eu sei como é… Eu não sou mais ninguém também, mas um dia eu fui e acredite… Eu sei como é perder tudo… Não ter escolha… Você é meu único amigo aqui Marcelo… Eu farei oque puder para que você tenha outra chance de viver lá fora. Boa sorte.
**06/08 – 17h32**
-Estamos prontos para detonar Lucas? – Perguntou o diretor.
-Quase tudo pronto doutor… Ainda faltam trinta minutos, calma.
-Quero a imagem das câmeras da aeronave na tela, por favor.
-Não será possível, as câmeras parecem estar com defeito…
-Oque? Como assim? Então como saberemos se foram executados?
-Eles serão pegos de surpresa, chefe, não tem como escapar!
-Me arrume uma aeronave muito rápida e um piloto, agora.
-Oque pretende fazer?
-Me certificar de que o trabalho será bem feito- Disse arqueando as sobrancelhas grisalhas.
**06/08 – 17h 58**
-Quero o cartão de acesso ao setor 5, leito 41 da Ala Experimental B, por favor – Seu nervosismo transparecia na sua pele refletindo pelo suor frio que umedecia seu cabelo ruivo.
-Aqui está… Você está bem Lucas? Parece-me um pouco… Pálido.
-Estou ótimo – Disse apanhando o cartão da mão da secretária.
Caminhou em seguida à passos largos em direção ao setor cinco.
Leitos 37 e 38 – Contava enquanto ultrapassava as macas com números de dois em dois – 39 e 40, e finalmente 41 e 42, o 42 estava vazio, era o antigo leito de Estrela.
-Vim falar com você – Disse Lucas dirigindo a palavra à uma garota que estava deitada no 41.
-Vão me transferir também?
-É sobre sua amiga, a garota do 42, ela está correndo perigo.
-O que? O que houve com a Estrela?
-Era uma armadilha, se lembra daquela coisa de quando vocês se conectavam por pensamento?
-Oque houve com ela? Lembro-me, por quê?
-Preciso que você de um recado a ela!
A garota estendeu as duas mãos e colocou as sobre os ouvidos de Lucas, então flashes de memórias piscaram em sua mente.
-Oque você fez?
-Li a sua mente, desculpe, não se pode confiar em tudo oque ouve.
-Agora acredita em mim?
-Sim, mas não sei se vai dar certo, eu nunca tentei um contato a uma distancia assim… Diga-me qual o recado.
Ela colocou as mãos na própria cabeça e pressionou os olhos concentrada nas palavras de Lucas.
-O diretor se enfureceu por não conseguir acessar as câmeras da aeronave, então convocou um guarda e um piloto para irem se certificar que foram executados… Eu não podia enviar a caixa para a mata, pois não é mais seguro, precisam sair daí, então eu lancei remotamente a caixa no único lugar onde só alguém com um rastreador preciso conseguiria encontrar. O oceano. Não está longe da praia, apressem–se. Saiam da mata o mais rápido possível – A garota tremia na cadeira, deixando escapar alguns grunhidos de dor – Diga a eles que a vida, o passado e o futuro deles repousam no fundo do mar!
Então o nariz da garota começou a sangrar, e ela caiu no chão em convulsão debatendo se aos berros. Então parou.
-Está tudo bem? Meu deus, oque houve?
-Esta tudo bem agora – Disse enxugando o vazamento com o antebraço – Mas temo que sua mensagem não tenha sido entregue, ao menos não inteira, foi muito difícil estabelecer a conexão… E… Eu tentei passar o recado de varias maneiras, mas… Foi o melhor que eu consegui.
-Está bem, vamos torcer para eles terem recebido, oque foi que aconteceu?
-Isto? – Disse ela referindo-se ao sangue – Acontece sempre que forçam nossos limites, oque acontece todos os dias, estou acostumada.
-Eu sinto muito…
-Eu sei, eu li sua mente, eu sei tudo sobre você… Sei sobre o seu plano maior, sei oque quer fazer com esse lugar muito em breve…
-Eu faria agora se pudesse.
-Bem… Eu conheço algumas pessoas com habilidades incríveis por aqui, se lutarmos no mesmo time, creio que estaremos em incrível vantagem.
Disse a garota sorrindo com os lábios.
Lucas sorriu de volta, orgulhoso.
**06/08 – 18h02**
-Estrela! Você ouviu isso?
Então rajadas de vento começaram a balançar as folhas altas das arvores.
-Um helicóptero!
-Precisamos fugir!
-Para onde?
-Vamos seguir o rastreador, por aqui papai!

Proposta de desfecho vencedora do nosso escritor Guilherme Porfírio:

-Quem está no helicóptero papai?
-Não podemos arriscar, Lucas alertou que se alguém suspeitasse de algo viriam atrás de nós…
O helicóptero sobrevoava a mata fazendo as árvores dançarem aquele som estrondoso e amedrontador, Estrela mantinha abertos seus olhos cansados, sem saber oque fazer.
-Precisamos seguir o rastreador!
-Sim! Naquela direção – Disse Estrela que segurando o aparelho.
Então corremos, desviando dos troncos e subindo oque aparentava ser uma pequena colina na mata escura e úmida. Então dei um passo em falso e Estrela agarrou a minha mão. Apontou para frente.
-Droga! – Um penhasco, um precipício que dava acesso ao mar, mas era alto demais para pensar em pular, e além do mais perigoso demais, poderia ter pedras lá em baixo.
-Marcelo, nós viemos resgatá-lo assim que soubemos do acidente – Disse uma voz no autofalante, o helicóptero havia pousado.
Estrela me olhava séria, então eu a ouvi em meus pensamentos.
Ele está atrás das folhas à direita, e está armado papai.
Estrela, eu preciso que façamos uma coisa, mas você não pode ter medo, está bem?
Não vou ter, se você também não tiver.
Precisamos pular. Há agua lá em baixo, vamos sobreviver… Além do que de acordo com o rastreador estamos perto da caixa, ela estar lá embaixo.
A vida, o passado e o futuro repousam no fundo do oceano…
Foi oque isso quis dizer, a caixa está lá! No mar.
Contaremos até três, tudo bem?
Ela me olhava amedrontada, eu podia ouvir alguém se aproximando por detrás das árvores.
Um. Estrela, eu sinto muito por tudo isso…
Dois. Eu entendo, e eu te amo papai.
Três. Eu te amo.
Então nós saltamos, eu vi seus olhinhos regados de lágrimas contidas. Eu ouvi o seu grito no ar. Pular de um penhasco não é tão lento quanto pensava… Você não tem tempo para absorver nada, não vê o céu ou o mar, só sente a mistura de sensações de repente. Não tem explicação melhor, é isso, uma mistura de sensações surpresas de repente. O calor da adrenalina de pular, o frescor do vento no ar e o gelado da água.
Eu estava na água agora, não via Estrela ao meu redor, olhei de um lado ao outro submerso no gelado, então voltei à superfície.
-Estrela! – Gritei com todo o ar me restou nos pulmões, para todas as direções possíveis – Estrela!
Pude ouvir, em meio ao barulho das ondas, que lá em cima o helicóptero voava outra vez. Droga, onde está ela? Eu não posso… Não posso perdê-la… Outra vez… Por favor… Estrela!
Então num piscar de olhos memórias delas me assombraram… Aline, Estrela, a minha família. A minha vida se foi em um piscar de olhos, de repente eu me senti ninguém de novo, só pela possibilidade de eu não tê-la mais.
Papai
Então sua voz doce soou na minha mente.
Estrela! Você está bem? Onde está?
Em baixo, na água, aqui é… Assustador.
Consegue vir até a superfície?
Consigo, estou te vendo daqui, mas eu preciso fazer uma coisa antes… A caixa.
Estrela volte para cá, nós iremos atrás da caixa juntos… Estrela?
Então ela se silenciou, enquanto o som do helicóptero tomava conta dos meus ouvidos. Então o mar, o helicóptero e os tiros soaram juntos como uma sinfonia, misturando os seus sons.
-06/08 – 18h06-
O mar é diferente do que eu pensei. Mais frio, maior, mais escuro.
Aqui no fundo principalmente…
Lembre se dos treinos nos tanques, não é diferente, é como um tanque só que… Gigantesco. Oque são aquelas coisas coloridas? Tem arvorezinhas aqui em baixo, isso é tão esquisito.
Quando olhei para cima eu o vi, papai, suas perninhas aqui de longe tão pequenas batendo para se manter na superfície, ele parece estar voando daqui.
o rastreador indica que a caixa está muito perto, mas eu não consigo ver…
Papai! – Eu pensei com força para que ele ouvisse.
Estrela! Você está bem? Onde está? – A voz dele me parecia desesperada.
Em baixo, na água, aqui é… Assustador.
Consegue vir até a superfície?
Consigo, estou te vendo daqui, mas eu preciso fazer uma coisa antes… A caixa.
Então eu perdi a conexão com os nossos pensamentos, talvez a cabeça dele esteja preocupada demais com alguma outra coisa.
Papai?
Então a onda lá encima começou a se mover de uma forma estranha, era o vento, o vento que o helicóptero fazia encima da água. E então os tiros. Tiros passando pela água, balas cortando as ondas enquanto perdem a velocidade, mas uma delas não acertou só a agua. Papai estava sangrando, eu podia ver a mancha que saia de sua perna.
Só mais um pouco, só mais um pouco, não posso me desesperar. Eu queria respirar, mas a superfície estava longe demais para eu pensar em ir e a caixa perto demais para eu pensar em desistir. Eu podia vê-la agora. Há três metros à minha direita. Mergulhei em sua direção. Meu pulmão apertado pela falta de ar. Meu coração apertado por causa do papai.
A caixa estava em meus braços. Na superfície, um barco se aproximava do corpo de meu pai enquanto o helicóptero saía.
Eu queria chorar, sempre tive vergonha de chorar perto dos meus colegas, eu pareceria muito mais fraca, bem… Aqui eu posso chorar… Ninguém veria minhas lágrimas mesmo se quisesse, elas fariam parte do mar assim que deixassem meus olhos. Sinto-me fraca como nunca. Não é como nos testes, não basta eu bater nos vidros para que eles me tirem do fundo da água. Esse é o último segundo que eu aguento. O último…
Estrela! Aguente firme!
Eu não…
Por mim. Estrela. Faça isso por mim… Estão indo te ajudar
-06/08 – 18h08-
-Ele está baleado! Chamem o doutor!
-Minha filha, por favor! Por favor! É só uma criança!
-Oque? Onde ela está?
-Está lá embaixo, ela… Ela… Está lá, por favor!
Estrela! Aguente firme! – Pensei com toda a minha força, minha cabeça latejava mais que meu joelho baleado.
-Aguente firme – Disse o rapaz – Irei atrás dela – Saltando no mar em seguida.
Não ouvi uma resposta, mesmo assim não parei de forçar minha mente para falar com ela, eu sentia que meus olhos iam explodir.
Por mim. Estrela. Faça isso por mim… Estão indo te ajudar
-06/08 – 18h05-
O telefone tocava dentro do helicóptero.
– Eles Pularam! Ligue o helicóptero – Disse o diretor correndo de volta para a aeronave.
-Tudo bem, nós sobrevoaremos a área para ver onde foram parar.
-Prepare as armas.
O telefone não parava de tocar.
-Alô, eu estou meio ocupado agora, oque foi? – O helicóptero se aproximava do mar.
– Aqui é a secretária da base, diretor, tem algo errado aqui, estão liberando todas as portas, as cobaias estão se libertando, é uma espécie de… Rebelião.
-Oque?
-Estrela!- Ouviu se o grito desesperado de Marcelo.
-O encontramos chefe, mas a garota pelo jeito não sobreviveu. Há um barco se aproximando…
-Atirem para matar- Disse o diretor afastando o telefone de si, e depois voltando se à ligação – Estamos a caminho da base, se as coisas piorarem muito, dê a ordem aos guardas para matarem todos – Desligou o telefone em seguida.
-O acertamos.
-Ótimo, mas acho que ele já não é nosso maior problema, precisamos voltar à base imediatamente.
Então o piloto voou de volta à base.
-06/08 – 18h16-
-Venham todos, por aqui!
-Obrigado Lucas! – Disse a menina do leito 41.
-Já era hora disso acabar!
-Venham! Todos para fora!
Então o som do helicóptero paralisou instantaneamente todos de medo, agora apenas uma porta e estariam fora daquele lugar.
O diretor saltou furioso antes mesmo de a aeronave ter sido desligada, com uma arma empunhada. Apontando para Lucas.
-Já era de se esperar que vocês dois um dia tentassem arruinar meus negócios, você e aquele Marcelo, malditos corações moles! Isso termina aqui! – Disse puxando o gatilho. Mirando na cabeça de Lucas. No entanto a bala parou no ar, e caiu desacelerada. Então ele atirou outra vez e o evento se repetiu. A garota saiu de onde se escondiam os outros, revelando-se ao diretor.
-Vocês nos treinam para muitas coisas especiais aqui… O meu forte sempre foi a desaceleração de objetos… Se quiser acabar com ele, com Marcelo e Estrela, terá de passar por mim.
-E por mim – disseram outras crianças e adolescentes enquanto saíam do estabelecimento, caminhando juntos, cada um entoando o seu “e por mim”, como um time.
-Oque você pensa que está fazendo Lucas? Está louco? Eles não são normais, fora daqui, você não teria controle sobre eles, não sabe oque podem se tornar!
-São pessoas, Diretor, merecem nomes que sejam mais do que números e uma oportunidade para ser o que bem quiserem! Não estou louco, alias, se alguém aqui não é normal, esse alguém é você.
-Eu levei uma vida para erguer essa instalação, décadas de experimentos para aperfeiçoar esses dons, anos e anos para cuidar dessas cobaias, você não pode simplesmente soltá-los por aí! Você é tão parte disso quanto eu!
-Ofereça uma vida boa a um homem que perdeu tudo, e ele aceitará… Mas não pense, em hipótese alguma, que chamá-lo de ninguém irá zerar os seus valores… Eu sou alguém… Uma soma de minhas perdas passadas e minhas possíveis vitórias do futuro… Esse sou eu, e isso é oque eu vou fazer… Quanto à pesquisa, chefe, não se preocupe, não voltará a vê-la… Quem aqui foi treinado para controlar chamas mesmo? – Um menino louro, baixinho levantou a mão como haviam combinado, e então toda a instalação se incendiou, todas as pesquisas, salas, os testes, equipamentos, tudo isso logo se resumiria em cinzas.
-06/08 – 20h26-
Estava na cabine de um navio. Então eu a avistei.
-Aline?
-Meu amor… Marcelo!
-Papai- Uma vozinha soou ao seu lado, era ela, nossa filha, a minha primeira Estrela, de mãos dadas com sua mãe.
-Eu senti tanto a falta de vocês – disse sem me esforçar para conter as lagrimas que se formavam em meus olhos.
-Nós também.
-Eu sinto muito Aline… – Disse chorando – Foi um acidente… Eu me virei por um segundo, só um segundo, e então o carro… Ele simplesmente…
-Sabemos disso Marcelo! Eu estava lá– Disse serenamente.
-É papai, está tudo bem.
-Eu sempre estive com vocês, oque me entristeceu não foi você ter nos perdido, pois isso tinha que acontecer, estava escrito, mas sim você ter perdido a si mesmo…
-Viemos pedir para que tenha força, papai, você vai precisar para se reerguer e deixá-la despertar o melhor em você outra vez… A minha irmãzinha… Ela precisará muito de você agora.
-Vocês não estão sozinhos – Disse Aline, sorrindo – Somos uma constelação maior agora.
Acordei como em um daqueles pesadelos em que se sonha estar caindo e então se desperta no momento do impacto. Estava na mesma cabine.
-Finalmente acordou – Disse o senhor que estava do meu lado – Estive aguardando um tempinho, fizemos um curativo no seu ferimento, por sorte a bala passou de raspão… Não sei oque queriam com vocês, mas estão seguros conosco.
-Onde ela está? Estrela, a minha filha… Muito obrigado, senhor… Por tudo, mas, por favor, me diga que ela está bem!
-Ainda está desacordada, mas a resgatamos sim, ela está na cabine ao lado.
Eu não pensei na dor do curativo no joelho, manquei até o quarto ao lado, lá estava ela, deitada, com os olhinhos pregados como se estivesse dormindo.
Estrela. Pensei com força.
Papai!
Sua voz na minha mente me tranquilizou.
Graças a Deus. Você está bem?
Não consigo me mexer, ou abrir os olhos, mas não se preocupe, eu sinto que irá passar… Desculpe-me papai…
Não tenho porque te desculpar, você foi muito corajosa, filha.
Não consegui a caixa.
-Iremos atrás da caixa juntos – eu sussurrei em seu ouvido – Agora descanse um pouco…
O homem que havia nos ajudado observava da porta.
-A caixa? Que estava nos braços dela? Achei que fosse de grande importância então a trouxe também!
Podia senti-la sorrindo, em algum lugar lá dentro.
A caixa guardava um mapa, dinheiro, documentos, tudo isso nos tornaria pessoas normais daqui pra frente…
-09/08 23h06-
Estrela permaneceu desacordada durante toda a viagem, seu coma não me preocupava, pois eu precisava acreditar que tudo ficaria bem, para que ficasse, se eu perdesse a mim mesmo, eu a perderia também.
O senhor que nos transportou em seu grande barco nesses três dias que se seguiram até o lugar onde seguiríamos o mapa em terra havia sido um bom amigo, Estrela ainda não havia despertado quando chegamos, era uma casa, não qualquer uma, um lar, à beira da praia e aconchegante…
Então a nossa primeira noite em casa, eu ainda podia ouvi-la, conversar com ela por pensamento, mas naquele momento tudo fazia silêncio, ela estava dormindo, parecia estar sempre dormindo agora… Isso me preocupava…
-Eu te amo filha – disse enquanto lhe dava um beijo de boa noite na testa.
-10/08 08h26-
A manha clareou nossas janelas descortinadas e então me levantei. Para minha surpresa, ela estava lá, sentada à beira da cama, olhando para fora…
-Quero ver mais de perto… É mais bonito do que você me descreveu!
Eu a abracei sem pensar. Ela retribuiu. Em seguida fomos caminhar à beira da praia
Em meus braços ela é tão pequena e delicada. Andar ao seu lado, com o sol suave da manhã é realmente um presente. Ela não conhecia o mar, nunca tinha sentido a grandiosidade de um oceano e agora contemplava a praia com felicidade e assombro.
Barquinhos perdiam-se no horizonte do infinito do seu olhar. Ela segurava minha mão com firmeza enquanto tentava absorver toda a paisagem.
-Somos uma constelação papai.
Eu podia senti-las
Todas as minhas estrelas, presentes, dentro de mim.
-Uma linda constelação, filha.

fim.

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Proposta de apresentação vencedora da nossa escritora Gabriela Vieira:

Porque as pessoas sempre fazem as piores escolhas?, é como se elas colocassem as melhores, em ultimas opções. Este é o meu caso, quando criança aos 5 anos tinha família, amigos e até mesmo escola. Quando completei 16 anos minha mãe morreu de leucemia, e até os meus 20, sofri muito nas mãos de meu pai, mas só ate os 20, quando decide sair de casa, sem deixar bilhetes nem telefones.
Cheguei na cidade grande (SP) sem qualquer informação ou ajuda, minha primeira casa foi um lar de apoio, onde fazia serviços comunitários. Depois de um tempo as coisas foram se ajeitando, comecei a trabalhar em uma lanchonete, onde conheci meu grande amor Verônica. 4 anos juntos não era muito coisa, mas meu pedido de casamento já estava em planos, até outros roubarem a cena, Verônica descobriu que estava gravida. Uma menina linda nasceu depois de 9 meses de espera, nessa felicidade toda estávamos pensando em se casar, antes que um acidente cruel acontecesse e me levou Verônica. Sem rumo e sem saída, dei minha filha de apenas 1 mês a uma família rica que me ajudou muito quando cheguei em São Paulo.
Agora sou um velho mendigo, arrependido e solitário, esperando um dia rever minha filha, o fruto de meu amor com Verônica…

Proposta de desenvolvimento vencedora do nosso escritor And.holiv:

Enquanto a chuva cai fina, insistindo em correr pela minha face e acabar nos meus lábios secos e rijos, endurecidos pela própria vida, percebo o céu pontilhado de estrelas. Ele estava assim quando conheci Verônica, estava assim quando minha filhinha nasceu, e estará assim quando eu reencontra-la. Quando o frio castiga, busco refugiar-me nos cantos mais ocultados da minha mente, pensando em minha falecida esposa e minha filha, que hoje deve estar no auge de seus vinte e cinco anos, dotada de toda a beleza e vitalidade que um ser humano pode ter. Arrasto-me pelo cimento encardido da calçada até um ponto onde deixo meu cobertor e algumas coisas que consigo das pessoas que me ajudam. Essas sim, são dignas de terem uma vida plena e bela. Aquelas que me auxiliam, não esperando algo em troca, somente meu sorriso e meu agradecimento. Nos meses mais frios, já fui convidado a entrar na casa de algumas pessoas, que me conhecem, mas recusei. Sei que um mendigo não é uma companhia muito agradável, mesmo que eu não seja alguém ruim, somente alguém que não teve sorte.
Alguns me perguntam o porquê de eu viver nessa vida. A resposta sempre é a mesma: “Eu não aguentei mais.” Eu sofri muito durante toda a minha vida. Quando minha mãe morreu, meu pai amargou-se, tornou-se violento e impaciente. Eu tinha 16 anos, e comecei a beber e usar drogas para ver se elas poderiam me fazer esquecer de todo o sofrimento. Quando vim da Paraíba para São Paulo e conheci Verônica, uma moça alta e esbelta que impunha sua presença a todos, nunca pensei que um dia ela se interessaria por mim, um atendente de lanchonete. Com o tempo, começamos a namorar, estava tão feliz que parei de usar drogas. Bebia eventualmente, não mais que isso.
Lembro bem, estávamos em uma festa. A pequena Manuela estava na casa de um casal de amigos nossos, gente de poder inquisitivo grande, mas que eram muito humildes. Gente de bem. Naquela noite, nos soltamos um pouco, bebemos mais do que planejamos e logo estávamos embriagados, assim como quase todos na festa. Na saída, fomos a pé e aos tropeços até a casa de Madalena e Roger Monteiro, nossos amigos. Estávamos no meio do caminho quando um carro surgiu do nada. O farol nos cegou, e a batida foi forte. Depois de alguns dias em coma, no hospital bancado pelos Monteiro, acordei e recebi a notícia da morte de Verônica.
A partir daí, voltei aos vícios. Os Monteiro obtiveram a guarda de Manuela, e eu comecei a ficar violento, assim como meu pai quando perdeu a esposa. Devido a isso, e ao amor que sentiam por Manuela, Madalena e Roger se mudaram para o exterior. Vim a saber depois, que foram para os Estados Unidos. Larguei o emprego, perdi a casa, o contato com a família e meus amigos. A pior parte de ser um morador de rua, é que você tem muito tempo para pensar nas besteiras que você fez durante a vida.
A noite é longa, mas o alvorecer me traz uma sensação de esperança. Nada melhor do que ver o sol nascer entre os dois prédios ao longe. Independente dos problemas, o sol vai nascer. Não importa o que aconteça, o sol vai nascer. Não importa o que aconteça, eu encontrarei a minha filha, mais cedo ou mais tarde. Já não há vejo tem vinte e quatro anos, e a saudades só aumentam a cada dia. Levanto e sigo pela rua, onde algumas pessoas caminham, em direção ao trabalho. Cada olhar de nojo e desprezo causa uma dor no meu peito, uma sensação de inutilidade. Por mais que seja verdade. Me aproximo de um rapaz encostado em uma parede.
– O senhor não teria… – Começo.
– Não. – Interrompe, duramente. O olhar carregado com a ausência de sentimentos. – Não tenho.
Abaixo a cabeça e volto a caminhar, cabisbaixo, a barba longa roçando desconfortavelmente no meu peito. Presa entre duas pedras que revestem a rua, noto que jaz uma nota de dinheiro. Pego-a, entusiasmado, e vou ao bar na esquina. Chegando lá, peço, o mais formalmente que posso:
– Bom dia, senhor. Eu gostaria de…
– Aqui não é lugar de gente como você. – Ele faz um gesto com a mão. – Suma.
Novamente, abaixo a cabeça e saio do bar. Atravesso a rua e sento em um banco de cimento na praça. Depois de alguns instantes, com a barriga roncando, vejo uma moça caminhando em minha direção. Muito bonita, de pele levemente escura, cabelos encaracolados e roupas brancas que contrastam com sua beleza negra. Ela se aproxima e estende uma vasilha de plástico com um pão dentro e um copo descartável de café com leite.
– Percebi como foi tratado, senhor. Parece estar com fome, pegue.
Agradecido, e em silêncio, me alimento vorazmente. A moça se senta ao meu lado.
– Como… Como poderia te agradecer? – Pergunto.
– Não, não, não… Fazer alguém feliz já é um agradecimento. – Arranco uma pequena flor de um arbusto próximo ao banco.
– Não seja por isso. – Lhe entrego.
– Obrigada. – Ela se levanta. – Desculpe, mas tenho que ir agora.
– Claro. Vá com Deus. – Desejo.
– Ah, obrigada. Amém. – Ela se despede com um sorriso.
Posso dizer que meu dia a partir daí foi um dos melhores em anos. Voltei para o meu beco e deitei sobre o cobertor. Através do escuro, vi duas silhuetas caminhando. A maior parecia estar agarrada à menor, sacudindo-a. Ouvi alguns murmúrios. Não, não, não… Por favor. Alguém precisava desesperadamente de ajuda. Aproximei-me e me escondi atrás de uma árvore, e pude ver o rosto da moça que me ajudou hoje de manhã, iluminado pela luz da lua. E um homem grande robusto com os dois punhos apertando seu pescoço.
– Agora você vai aprender a não mexer comigo de novo, sua vadia. – Ele socou o estômago dela e a sacudiu. – Nem pense em gritar.
Eu não posso ficar sem fazer nada, penso. Esgueiro-me pela lateral, às costas do homem, e coloco os braços sob os seus, cruzando-os sobre o seu enorme peito. Sinto os músculos duros e seu coração pulsando.Ele se desvencilha da mulher e tenta lutar, mas antes que ele possa o fazer, o jogo no chão com toda a força e o chuto até que ele pareça desacordado. Checo o pulso, continua vivo. A mulher parece pasma.
– Obrigada. – Ela diz. – Obrigada, obrigada, obrigada. – Ela começa a chorar.
– Eu só quis retribuir. – Digo. Ela me olha com os olhos semicerrados.
– Oh, é você! É você! – Exclama.
– Sim, mas agora vamos sair daqui. O rapaz já vai acordar.
Acompanho a moça até sua casa, não muito longe. É uma verdadeira mansão, com um grande jardim e muitas janelas. Ela abre o portão.
– Não quer entrar? Talvez…
– Não. – Digo, e me detenho com medo de ter soado rude. – Obrigado.
– Não quer jantar? Tenho comida.
– Não, obrigado. Não quero nada.
– Então… Está bem. – Ela sorri e massageia pescoço, onde o homem quase a enforcou. – Existe algo que eu possa fazer por você? – Olho para a enorme mansão.
– Na verdade… – Penso em Manuela. – Tem sim.

Proposta de clímax vencedora do nosso escritor Misael:

…Tem uma coisa
-Claro e só pedir!
-Então lá vai… começo a falar para ela como se aquilo iria mudar minha vida, mas quem sabe não mudaria. Falo toda história da minha vida e o que aconteceu com minha doce e pequena Manuela e com as pessoas que deixei. Termino de falar e um silêncio fica solto no ar. A única coisa que ela diz antes de se virar e ir embora é:
-Senhor…
-Rick, era assim que Verônica me chamava!
-Senhor Rick, eu tenho que pensar. É uma história muito triste e é muito lindo o que você quer fazer eu entendo isso. Minha mãe morreu quando eu tinha 5 anos e meu pai bebia e sempre chegava irritado em casa e ele me fazia trabalhar e se eu não trouxesse nada ele me espancava e eu já fui abusada por ele e um dia quando ele me bateu eu fiquei com tanto ódio, mas tanto ódio que o envenenei e então fui levada para um centro de detenção provisória, então comecei a estudar mais do que tudo. Trabalhava e hoje consegui o que tenho com esforço. E vários anos de tratamentos psicológico. E aquele homem que estava me agredindo comecei a trabalhar para ele por que na minha mente eu sempre vejo meu pai me chamando dos piores nomes possíveis, me mandando conseguir dinheiro e eu tinha um acordo com ele para acabar com o meu peso sobre as costas, e eu te ajudei dando a você comida só para tirar a culpa mais todo dia ela renasce cada vez maior.
E você tentando achar sua filha isso é lindo e meu pai nunca nem me falou que me amava! …
Ela estava aos prantos, botei a minha mão direita, toda imunda, no seu ombro e disse:
– Deus não fez pessoas tão lindas para chorarem e nem para ficarem tristes. Ela sorriu meio torto, com lagrimas inundando seu rosto. Eu nunca vi uma pessoa mais carinhosa como você. Sorria!
-Muito obrigada Sr.Rick eu vou entrar e irei pensar bem sobre isso amanhã eu te darei a resposta você não quer mesmo nada?
-De nada. Mas não, não quero dar trabalho para você irei ficar no lugar de sempre. Tchau! Já vou antes que roubem meu cantinho. Tchau…? Desculpe, não sei seu nome.
-Lisa. Tchau Sr.Rick. Se cuida. Espera! Pegue vinte reais. É a única coisa que tenho aqui.
Ela me entrega os vinte reais e fecha o portão de sua imensa casa. Vejo ela entrar em casa e vou caminhando naquela imensa escuridão e no meu pensamento, será que irei encontrar minha pequena filha, será que eu pedi de mais! Será que a minha vida vai ter um final feliz. Será que a minha vida e a vida de lisa se encontrarão novamente?
Chego ao meu cantinho sujo e olha quem está lá! Richard, meu gato companheiro de todas as horas. Não sei como consegui adormecer tão rápido se minha mente está cheia de pensamentos.
Acordo as lambidas de Tobi, um cachorro vira-lata, branco, sujo e também vejo duas pernas finas, com um salto preto muito elegante que parecia ir trabalhar num escritório. Reconheci, era Lisa com um envelope branco na mão ela vem e me entrega o envelope
Digo: – oi. Coçando meus olhos. Você pensou? Abrindo o envelope vi um passaporte com a bandeira dos Estados Unidos da América e uma quantia muito alta.
– O que é isso? – perguntei
– Oi – respondeu ela e continuou
– Ontem, antes de falar com você, estava ao ponto de me suicidar. Então, quando ia pegar um veneno em cima do armário, mas sem querer, peguei minha bíblia dessas azuis que só tem o novo testamento que minha mãe me deu antes de morrer. Dentro dela estava uma foto amassada dela, depois de dar à luz, me segurando no colo e dava para ver ela chorando e atrás estava a mensagem “Deus não fez pessoas bonitas para chorar” de: mamãe para: Lisandra (Lisa) a minha menininha linda. Sempre ajude as pessoas que mudam a sua vida desde um simples mendigo até a pessoa mais importante do mundo. Eu nunca tinha visto aquela foto na minha vida. E eu lembrei de você! Você mudou minha vida e pode ter certeza eu vou te ajudar. Para onde você for eu vou!
Ela começa a chorar como ontem à noite e eu também começo a cair em lágrimas.
E o que você vai fazer? – perguntei a ela.
– Partiremos amanhã, Rick. Vamos achar sua filha.

Proposta de desfecho vencedora da nossa escritora Paula Arakaki

– O que? -perguntei achando que não estava ouvindo direito – você está mesmo disposta a fazer isso por mim?
– Oras, é claro! Ontem você me fez o bem, só estou retribuindo, aliás é isso que amigos fazem Sr Rick!
Eu não podia acreditar no que ouvirá…amigos! Fazia muito tempo que alguém não me chamava assim, tinha até esquecido como era boa a sensação.
– Lisa, você sabe que ficarei te devendo eternamente por isso, mas para achar minha filha eu aceito tudo e faço de tudo!
– Fico feliz que aceite minha proposta! Até porque já fiz os passaportes e comprei as passagens!
– Se você já comprou as passagens, que dinheiro é esse?- perguntei lhe mostrando o envelope.
– Isso é para você, afinal iremos viajar para fora do país! Você precisa de roupas, produtos de higiene e essas coisas! Irei com você comprar agora mesmo, e depois você passará a noite lá em casa, pois amanhã teremos que sair cedo!
Sem nem ao menos esperar me levantei limpando as mãos em minha calça, Lisa fez um sinal para que eu a acompanhasse e então avistei uma Mercedes logo a frente, ela entrou no carro e eu fiz o mesmo, e quando percebi já estávamos na Paulista.
Foi sem dúvida o melhor dia que eu havia tido em vinte anos, havíamos passado em várias lojas, havíamos almoçado em um dos melhores restaurantes de São Paulo, e não quero parecer uma garota, mas fizemos muitas realmente muitas compras!
– Gostou do nosso dia Sr Rick?- Ela disse assim que chegamos em sua grande cas
– Foi realmente maravilhoso! Muito obrigado! Ah e pode me chamar apenas de Rick, somos amigos certo?
– Certo- ela disse sorrindo para mim- eu sinceramente gostei muito do seu novo corte de cabelo, e você fica bem melhor sem a sua longa barba- disse divertida- e adorei as roupas também!
– Ah obrigado!- disse ainda envergonhado- você tem um ótimo gosto para roupas!
– É pois é- disse indo a cozinha- está com fome? Vou preparar o jantar! Fique a vontade! Ligue a tv se quiser!
Murmurei em aprovação e me sentei no enorme sofá de couro branco que havia na sala e com o controle ligue a TV, estava passando algum programa sobre viagens e cidades turísticas.
– “Hoje iremos até a tão queria Hollywood e entrevistaremos pessoas para saber a opinião do povo sobre Los Angeles” – a repórter falou- “Olá por favor!- disse a uma menina que passava distraída.
– “Sim?”- ela disse em português.
– “Oh, Você fala portugues! É brasileira? Qual o seu nome?”
– “Sou brasileira sim -soltou uma risada – mas moro aqui a muito tempo! Me chamo Manuela Monteiro”
Disse e levei um susto, era ela, minha filha! Havia trocado o sobrenome para o de Madalena e Roger! Como estava linda, parecia tão feliz naquela cidade movimentada, chamei por Lisa e ela rapidamente apareceu na sala.
– O que aconteceu Rick?
– É ela! Minha filha! Veja como é linda! Temos que ir para Los Angeles!
– Meu deus! Realmente uma linda garota! Que coincidência ela estar na TV…parece que o destino quer mesmo que vocês se encontrem! Amanhã de manhã partiremos direto a Los Angeles não se preocupe!
A noite passou como um furacão, havia ficado tão empolgado que mau consegui dormir, e quando vi já estava no avião desembarcando em Los Angeles. Pegamos um taxi que nos levaria direto ao hotel.
– Ansioso?- Lisa me perguntou.
– Você nem faz ideia! Quero procurá-la logo! – disse segurando sua mão por impulso.
– Estarei junto com você até o fim- disse apertando minha mão.
– Que assim seja! – disse sorrindo.
Os dias se passaram, uma semana, e ainda não havíamos a encontrado porém Lisa continuava comigo e minha admiração por ela parecia crescer a cada dia.
– Está pronto para mais um dia de busca? – perguntei a ela enquanto chegávamos a Santa Mônica.
– Sempre! – ela disse sorrindo.
– Sempre- repeti.
Estávamos andando pela praia de Santa Mônica e eu sinceramente não tinha mais esperanças de acha-la ali, tínhamos rodado todas as lojas existentes, entramos em todos os restaurantes e olhamos em todos os brinquedo que existiam no píer e agora andávamos pela praia alertos a qualquer coisa, eu estava andando pela água, enquanto Lisa que parecia não querer se molhar andava na areia seca, após 10 minutos andando uma pedra apareceu no meu caminho, e antes que eu pudesse desviar tropecei caindo de cara na areia molhada. Ouvi alguém gargalhar atrás de mim e logo vi Lisa se abaixando rindo.
– Você está bem?- perguntou segurando o riso.
– Vai rindo mesmo!- disse ainda caído.- acho que vou ficar com um galo!- passei a mão pela cabeça
– Are you okay? – ouvi uma voz diferente perguntar.
Assim que levantei minha cabeça para responder ao gringo que eu estava bem, levei o maior susto da minha vida, cheguei a dar um berro que a assustou.
– MANUELA!- grite me levantando é a abraçando- meu deus como eu senti a sua falta.
– me desculpa- ela disse assustada- não conheço o Senhor!
– O que está acontecendo aqui? – ouvi a voz de um homem que logo reconheci ser Roger.
– Roger meu amigo! – disse agora o olhando- Não se lembra de mim?
– Rick?- disse me cumprimentando- Meu deus não te vejo a…
– vinte anos – o completei.
– Rick? Meu pai?- Minha filha se virou confusa para Roger- você bem que disse que um dia ele iria vir me procurar!
Assim que terminou ela me abraçou e eu finalmente senti que aquele abraço curaria todos os anos em que passei nas ruas, aquele abraço curaria todos os olhares de nojo que já me jogaram, curaria qualquer dor que eu sentisse, curaria tudo…

FIM.

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Proposta de apresentação vencedora da nossa escritora Katharyne Chinaia:

Eram exatamente 6 horas da manhã quando acordei, me sentindo sonolenta como nunca antes, meus olhos verdes agora pareciam ter um tom castanho claro e minha cabeça pesava. Decidi ligar para o Matheus na tentativa de desmarcar nosso tal encontro, foi inútil, o garoto ficou aos berros, dizendo que era de extrema urgência e importância.
– Deve ter encontrado o pote de ouro no fim do arco-íris, não é possível! – Pensei.
Havia muita neblina, estava começando a me perder em meio à floresta, quando o avistei. Estava vestindo um jeans surrado, combinando com seu cabelo castanho desajeitado, seus olhos brilhavam de uma maneira inusitada, sua mão segurava um martelo e isso era tudo o que ele tinha.
-Matheus! O que é que você está fazendo aqui com este martelo?
-Oi pra você também, Rafaela. Dormiu bem?
-Nem começa com suas gracinhas. Não vim aqui pra construir a casinha dos três porquinhos com você. Me diz, o que é tão importante pra você ter me feito acordar tão cedo.
Sem dizer uma única palavra, ele pegou minha mão e me guiou até chegarmos a uma área aberta, qual se parecia com um grande círculo, deveria ter cerca de 15 metros de diâmetro, haviam folhas secas por toda extensão, o que era extremamente estranho, pois estávamos em meio à primavera, não havia sinal de pássaros ou qualquer outro ser vivo, era um silêncio absoluto. Minha atenção foi totalmente desviada quando avistei uma caixa de madeira escura, totalmente lacrada por centenas de pregos, não era grande, mas também não era pequena, uma luz de tom azulado saia pelas frestas. Tive um calafrio ao sentir a brisa gelada, engoli em seco e olhei assustada para meu amigo.
– O que você acha? Encontrei ontem, estou tentando abri-lá.
– Você faz ideia do que pode ter aí dentro? -Perguntei assustada.
-Já ouviu falar em Caixa de Pandora?

Proposta de desenvolvimento vencedora da nossa escritora Katharyne Chinaia:

Por um momento achei que Matheus estava me pregando uma peça, mas ao olhá-lo, percebi que ele realmente estava falando sério.
– Como é possível um artefato da mitologia grega estar literalmente na nossa frente?
– De acordo com as pesquisas que fiz noite passada, essa caixa tem as mesmas características da caixa do mito, além disso, como você já deve saber, como consequência da curiosidade, Pandora, ao abrir a caixa deixou que todos os males se espalhassem… E hoje eu notei um pequeno buraco na caixa, o que talvez explique esse cenário.
– Mas as desgraças não foram destinadas somente aos homens?
-Uma coisa influência a outra, não?
Tomando uma decisão precipitada, falei:
– Então vamos abrir a caixa o quanto antes, estou tão curiosa quanto Pandora.
Ao analisar a caixa, constatei diversos entalhes de símbolos gregos perfeitamente trabalhados e uma figura que aparentava ser Zeus. Matheus me entregou um martelo e enquanto íamos retirando os pregos com tamanho cuidado, o que antes era uma brisa agora se tornava uma ventania, qual me deixou um tanto apavorada e preocupada, a luz azulada ficava cada vez mais forte, consequentemente limitando minha visão.
Assim que retiramos a tampa, fui tomada por uma energia repugnante, minha visão ficou turva e tudo escureceu.

Proposta de clímax vencedora da nossa escritora Katharyne Chinaia:

Acordo atordoada como se tivesse levado uma pancada muito forte na cabeça e ficado desacordada por dias, no entanto, me reparo com o mesmo cenário como se nada tivesse acontecido. Aos poucos vou retomando minha consciência e relembrando dos acontecimentos anteriores, o medo começar a tomar conta do meu corpo e eu entro em estado de choque ao ver uma figura extremamente estranha e distorcida me fitando ao longe, me coloco de pé instantaneamente e levo um grande susto ao sentir meu braço sendo puxado. Para minha sorte, era o Matheus, ele aparentava estar muito assustado, seu rosto estava pálido.
– O… O que aconteceu? –perguntei
-Eu não sei, mas acho melhor irmos embora o quanto antes. A caixa sumiu… –ele responde num sussurro.
Meu olhar percorre por toda a área e não vejo nenhum sinal da caixa, ela não pode simplesmente ter sumido, é impossível! Começo a ouvir estalos em algum lugar em meio às árvores, procuro em todas as direções e não vejo nada, meu temor aumenta cada vez mais.
-Rafa… O que é aqui… – Matheus chama a minha atenção e sigo seu olhar.
Antes que ele pudesse terminar, a figura que eu havia visto vinha em nossa direção como se fosse nos devorar ou algo parecido.
– EPIMETEU E PANDORA! QUE BOM VÊ-LOS NOVAMENTE… -a voz da criatura é tão distorcida quanto sua forma.
– O que? QUEM É VOCÊ? – Matheus gritou.
-Eu me chamo Agnes e vim acabar com o joguinho de vocês. –consigo sentir a raiva em seu tom de voz.
Agnes começa a chegar cada vez mais perto, instintivamente começo a dar passos para trás me segurando ao braço do Matheus. Por que ela nos chamaria de Epimeteu e Pandora? E de que joguinho ela estaria falando?
– Vocês não aprendem nunca, séculos e mais séculos se passam e continuam a abrir esta maldita caixa. Porém, isso acaba hoje, aqui e agora! –Agnes começa a vim em nossa direção novamente.
– Corre. –foi a única coisa que eu consegui dizer.
Começamos a correr e antes que pudéssemos entrar em meio à floresta, inúmeras criaturas passam a aparecer a nossa volta.
-Estamos cercados. –engoli em seco.

Proposta de desfecho vencedora do nosso escritor Wanderley Gonçalves:

Enquanto corríamos em direção à floresta, Agnes parou de se mover.
– Ao redor de vocês se encontra todos os males deste século, mas não se preocupem, eu não sou um deles. Sou Agnes, a deusa representante da pureza, honestidade e da virtude, e não é a primeira vez que alguém abre essa maldita caixa me trazendo de volta a este mundo novamente.
– Ma-mas….eu não sabia que a caixa era real e que despertaria esses males. Afinal, o mundo já os possui em demasia…
– disse Matheus suando frio e com o coração quase saltando pela boca.
– Ah, Epimeteu, como sempre fazendo jus ao seu nome e julgando tudo previamente. Olhe atentamente ao seu redor e me diz o que vê. – a mulher o desafia.
Então, este foi o único momento em que Matheus teve para pensar em onde estava e o que estava acontecendo. Percebeu que à sua direita havia uma criatura dotada de uma beleza forçada e de uma riqueza inigualável – esta representada por uma considerável quantidade de ouro em forma de adornos em seu pescoço e nos braços – além de um olhar triste e um sorriso amarelo estampado no rosto. Ela era a Ambição.
Mais à esquerda, encontrava-se uma criança, sendo mais exato: um garoto. Este protegia junto ao seu peito uma porção de brinquedos e não os largava por nada. Ele era o Egoísmo.
Na frente dos dois jovens havia o pior deles: a Ignorância. Esta sendo representada por uma mulher velha com os cabelos rasos e da espessura de fios de teia de aranha. Os olhos eram brancos, um branco opaco e permaneciam fechados na maior parte do tempo. Bem próximo aos seus ouvidos, havia uma pequena espécie de ser que lhe murmurava coisas, o que a deixava cada vez mais inquieta.
Matheus não teve tempo de responder à Agnes.
– Vocês percebem que essas criaturas estão se tornando cada vez mais assustadoras com o tempo? – questiona Agnes sem obter uma resposta.
– Pois bem, o motivo dessas criaturas serem assim é o fato de que, com o passar dos séculos, elas vêm ganhando cada vez mais força, pois estão se unindo. Como podem ver, a Ignorância se juntou à Discórdia, que é essa criaturinha ao pé de seu ouvido. Aqui não está nem um terço dos novos males em que vocês têm criado, porém vocês não foram os primeiros a abrir esta maldita caixa nestes novos tempos, então por ora é o que temos. Boa sorte! – diz a Deusa.
– Ainda não consigo acreditar em tudo isso. – Diz Rafa indignada.
– Como podemos resolver essa situação, Agnes? – Matheus questiona com um tom de medo na voz.
– É óbvio, não acha? A única maneira de consertar isso é fechando a caixa com todos os males dentro. – Responde Agnes com uma pitada de sarcasmo.
– Mas como? – Rafaela pergunta se esquivando de uma tentativa de golpe aplicada pela Ignorância.
Como pode a Deusa da virtude e de outras coisas boas ter saído da caixa junto com todas essas criaturas malignas? Talvez a caixa não comportasse somente coisas ruins, afinal.
– Peça ajuda a sua mesma amiga que lhe fez abrir a caixa. – Responde Agnes com tom de quem pode ajudar, mas não ajuda.
Neste momento, aparece uma mulher muito bem vestida, de cabelos ruivos e pele branca e suave, mas com um véu escondendo-lhe o rosto, ela, assim como Agnes, não aparentava ser um dos males.
– Pandora e Epimeteu, apresento-lhes a Curiosidade! – Agnes diz após soltar uma gargalhada divertida. Aparentemente, não é a primeira vez em que ela lidava com essa situação e claro, tudo aquilo soava um tanto quanto divertido para ela.
– Ok, Matheus, já sei o que fazer! Diz Rafa alternando seu olhar entre a Curiosidade e Matheus.
– Diga logo, Rafa! – O garoto responde agoniado.
– Veja! – Exclamou Rafa. Neste momento a Curiosidade estava com algum objeto em baixo de seu véu, balançando-o e dando gargalhadas. Aquela situação não só chamou a atenção dos dois jovens, mas também de todos que ali estavam, inclusive as criaturas malignas.
– Vamos usar nossa nova amiga, mas nem tão amiga assim, para atraí-los de volta à caixa. – Completa a menina avistando a caixa a uns 3 metros de si.
– Certo! – concorda o novo Epimeteu.
A Curiosidade começa a se mover para perto de Agnes que se esgueira para a esquerda para tentar ver o que tem de tão engraçado embaixo daquele véu, mas o que se ouve são apenas mais gargalhadas e mistério vindo da moça enigmática.
Rafa decide fingir não se importar com o joguinho da sua amiga misteriosa, por mais que aquilo fosse tentador, pois naquele dia ela e Matheus já tinham sido curiosos o suficiente. Fato este que causou profunda irritação na garota do véu. Foi então que a Curiosidade em contato com a Ambição de ter a atenção de mais curiosos partiu para cima de Rafa, que rapidamente a atirou a caixa de madeira, fazendo com que um forte clarão sugasse a moça centro das atenções para dentro do artefato de madeira. Aquilo fez com que todos , exceto Rafaela e Matheus, seguissem-na para dentro da caixa, atraídos pela vontade tentadora daquele mistério. A última a entrar foi Agnes, que também estava cega por aquele mistério.
Algumas horas depois, Rafaela acordou com a cabeça latejando como se alguém tivesse martelando seu crânio. Quando se deu conta de que tinha realmente alguém martelando algo, por sorte não a sua cabeça e sim um pedaço de madeira no solo. E após se recuperar do profundo sono resolve se reiterar da situação:
– Conseguimos? – dirige a pergunta ao garoto das marteladas, Matheus.
– Sim. Deu tudo certo e aquela maldita caixa desapareceu assim como aquele cenário fúnebre. Mas…veja o que eu encontrei.
O garoto havia encontrado algo enterrado no chão, com somente o cabo visível. Parecia se tratar de um martelo. Na ponta de seu cabo estava escrito Mjölnir pela ortografia parecia ser de origem nórdica. De repente o tempo se fechou e podiam ouvir alguns trovões agressivos vindos do céu escuro de nuvens raivosas.

FIM


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5 sugestões para escrever bons diálogos

Navegando pelo incrível mundo da web, encontrei um post super útil para quem pretende escrever prosa – romances, contos, crônicas, novelas e por aí vai. O artigo original está aqui e traz 5 conselhos para escrever bons diálogos. Sem querer fazer um exercício de tradução (tô longe de ser tradutora de qualquer idioma), decidi me basear no […]


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Proposta de apresentação vencedora do nosso escritor Sorley Sales:

Enquanto os meus olhos passeiam pela silhueta de um pássaro a dois mil pés de onde estou, sussurro algo que minha mente não consegue captar. Fecho os olhos involuntariamente, lutando para me recordar da última vez que toquei alguém, ou falei com alguém. Da última vez que pude dizer a uma pessoa o quanto eu a amo, ou a pura necessidade de dar-lhe um sorriso. Os meus pés pisam firmemente num filete por cima de uma montanha, e é estranho, porque parece que estou flutuando num vale só meu, onde os perigos e medos não existem, e a solidão é fria e me abraça de maneira sutil. Calço botas de um couro macio, e visto luvas de um cetim claro amarronzado nas pontas dos dedos. A minha camiseta amarrotada mostra que eu lutei bravamente com um animal feroz, mas não lembro do ocorrido. Ou de ter vencido.
Engulo em seco.
Novamente direciono os meus olhos para cima, onde vi o pássaro sobrevoando as nuvens. Não vejo sol. A necessidade que tenho de saber onde estou é tão grande quanto saber como vim parar aqui. Não tenho uma segunda visão, ainda mais uma que pode me enxergar de cima perfeitamente. Eu diria que os meus olhos estão verdes, ao invés do tom castanho que sempre foi.
É estranho…
Consigo lembrar-me perfeitamente das minhas características físicas, mas não consigo recordar de momentos que ocorreram antes de eu estar aqui. Eu sei que tenho uma cicatriz disforme na omoplata direita, mas não consigo saber como eu a ganhei. E de repente sinto uma pontada de desejo, um frio da beira do estômago que cresce até o peito. Irrefreável. Brusco. Inconveniente.
– Ele poderia ser um deus. – Os meus ouvidos perseguem uma voz aguda vinda de dentro de uma caverna de dez metros de altura com uma porta frontal de duas vezes o meu tamanho.
– Não seja tão ingênua! Nem o conhecemos. Não precisa fazer parte do grupo dos especialistas para dizer que ele é um nativo dos Desprovidos De Sonhos. – Entoou um pequeno homem, de um metro de altura e olhos absurdamente grandes e um semblante rugoso.
A ouvinte, uma mulherzinha quase do seu tamanho, torceu a boca num frenesi, e saltou de onde estava para me olhar nos olhos. Ela tinha dois pares de asas transparentes no dorso, e a boca pequenina, o nariz pontiagudo e escamas ao redor dos olhos.
– Os Desprovidos De Sonhos nunca estariam no nosso mundo, Alaze. – A pequena criatura voltou-se para o homenzinho com rugas desenhando a testa e ao redor de cada olho grande.
Nesse momento, o pequeno homem com metade do meu tamanho, me olhou com inexpressividade no olhar, e sorriu.
– Ele tem o Brilho Ocular! – Falou Alaze, o homenzinho. Ele também tinha asas, para minha surpresa. – Gonna, ele tem o brilho ocular do escolhido! – Segundos antes ele olhara bem firme e profundamente nos meus olhos, antes de entonar o grito de que eu tinha o tal Brilho Ocular e sorrir.
– Graznavadan precisa conhecê-lo e saber que finalmente conseguimos! – A mulherzinha, Gonna, comprimiu os lábios e sobrevoou a caverna, enquanto Alaze se permitia a voltar para a caverna.
Eu tinha percebido que as criaturinhas não haviam me deixado abrir a boca por um minuto. Percebi que eram fadas muito diferentes das que vemos nas histórias que os parentes contam à meia-luz de um quarto aconchegante. Eram tagarelas. O pior!
– Quem é Graznavadan? – Perguntei, assim que Gonna me puxou pelo braço esquerdo. Senti uma dor impetuosa cruzar o meu antebraço. Ela era pequenina, o que fazia de sua mão ainda mais. Fechou toda a palma em dois dedos meus.
– O nosso líder espiritual. Está a procura de um Brilho Ocular, que por obséquio, será o seu!
Necessitei perguntar mais alguma coisa, então complementei?
– O que é Brilho Ocular? – Cruzei uma fileira de arbustos no interior da caverna e tropecei em várias rochas pelo caminho.
– Ele está à sua espera. – Alaze veio às pressas, sobrevoando em um corredor estreito e mal iluminado, com uma capa em mãos. O tecido era de um azul claro e luminoso, como um pijama moderno. Vestiu-me com ele. – O acompanharemos, mas não falaremos qualquer palavra, a menos que Graznavadan nos peça. Você é o escolhido. Você tem o Brilho Ocular. Responda as perguntas dele com respostas coesas. E nada mais.
Atravessei um pátio com vidros postos em fileiras no teto. As paredes eram rebocadas com vitrais enormes e coloridos. No final do corredor uma porta de madeira cresce à medida que me aproximo. E a pergunta “Como eu vim parar aqui?” ainda continua presa na minha cabeça. Cada lado da porta é empurrado por Alaze e Gonna, e centímetro por centímetro é aberto para que eu observe a Grande sala de Graznavadan.
Desço uma escadaria, com a ajuda de Gonna, olhando para as dezenas de vitrais postos nas laterais do salão de mármore brilhante. À minha frente, há uma cadeira de aço dourado com detalhes rústicos nas pernas e braços. Nela há sentado um homem velho com uma extensa barba grande e escamas rosadas e prateadas cobrindo o lado esquerdo do rosto. Está vestido com uma túnica de seda amarela; Uma coroa com pedras metálicas está sobre a cabeça dele e o seu olhar pesaroso se direciona a mim.
Um arrepio eriça os pelos da minha nuca. “Ele com certeza é a figura respeitável desse mundo.” Penso.
Não preciso pensar duas vezes para saber quem é.
Graznavadan.
– Joelho esquerdo no chão. Dobre o Direito. E entoe: Graznavadan, senhor meu. Líder de fadas e deus Justo. – Sussurrou Alaze para mim.
Tentei curvar-me, mas achei que não seria uma boa ideia. Com certeza não seria uma ideia plausível. Ao invés disso, eu fiz exatamente o que Alaze me pediu.
– Graznavadan, senhor meu. Líder de fadas e deus justo.
Percebo que fiz o certo a partir do momento que o olho e ele torce o lábio para cima, num escondido sorriso. Graznavadan ergue-se e estende a mão para o lado da poltrona, talvez um trono. De lá puxa uma bengala também em tom dourado, com uma fita presa na parte posterior do metal. Ainda estou ajoelhado, e com a cabeça baixa agora. Os meus olhos erguem-se um pouco à medida que os meus ouvidos ouvem passos se aproximarem.
Quando duas pernas se põem a minha frente, dou-me conta de que uma delas está enfaixada. Um tipo de curativo cinza ao redor dela. Daí o motivo da bengala.
– Levante-se, filho! – Sua voz é rouca e vivida. A partir do momento que o olho vejo traços de sua idade. Talvez seja por isso que ele queira esse tal Brilho Ocular. Talvez ele queira um herdeiro para substituí-lo.
Eu obedeço, e lentamente vou me desfazendo da minha posição e me esticando em frente a ele. Não lembro do meu avô, se tive ou se ele morreu antes de eu nascer. Mas Graznavadan era perfeitamente alguém que eu seria capaz de chamar de avô.
– Ele o tem, senhor. – Gonna estava muito mais calma do que quando a vi. Com as mãos para trás e uma expressão assustadoramente respeitosa. – Vimos o Brilho Ocular em seus olhos. Nós o vimos.
– Então o trouxemos aqui para que o senhor o visse pessoalmente. Pensei eu que talvez ele fosse um Desprovido De Sonhos, então não o dei o devido valor até o momento em que… em que vi o Brilho em seus olhos. – Alaze olhou para mim mais uma vez, como se quisesse checar novamente o brilho que havia visto nos meus olhos há um tempo atrás.
Graznavadan olhou para mim e suavizou um sorriso. Pôs a bengala a frente e suspirou o ar do salão, enquanto eu me sentia desconfortável por não saber o que estava acontecendo.
– Como se chama, filho? – Ele inclinou a cabeça, mas nem assim a coroa presa as seus fios grisalhos desabou de cima.
– Hector. – Sei o meu nome. Isso me pega de surpresa.
A minha voz saiu falha, quase que como eu tivesse distendido um músculo facial.
– Acho que teremos muito o que conversar, Hector. Saiba que o seu Brilho Ocular salvou o nosso reino. – Graznavadan riu e rugas surgiram ao redor dos seus olhos.
Olhei por um momento para Gonna e Alaze, e ambos sorriam. Não sabia porque eu era tão importante, mas se eu estava causando tamanha alegria naquela gente, eu me sentia feliz. Me autorizei a sorrir também.
Longe dali, através das vidraças que circundam o salão no alto vejo centenas de fadas batendo asas e sorrindo.
E me dou conta de que ficarei nesse lugar por um bom tempo…

Proposta de desenvolvimento vencedora do nosso escritor Sorley Sales:

Uma brisa quente bate no meu rosto. Deslizo os dedos pelo tronco de uma árvore sentinela, e os meus braços apoiam-se nela como se me puxasse para fazer parte definitivamente daquele mundo.
Não há muito que conheci Graznavadan, e antes disso, não sabia que existia. Não sabia que fadas existiam. Não sabia que esse mundo existia. E embora tudo pareça envolvido num material resistente de irrealismo, sinto que agora faço parte desse mundo. E minhas escolhas convergem a um só ponto. A um só lugar.
“Saiba que o seu Brilho Ocular salvou o nosso reino.” As palavras de Graznavadan continuavam a irromper na minha mente. Eu realmente não sabia o que era importante, o que era necessário para que ele me dissesse aquilo. Algo muito importante idealizava o poder de Graznavadan. E era exatamente o que eu iria buscar.
– Trinta anos! – A voz rouca dele atinge meus ouvidos num acorde forte.
– Como? – Me afasto da árvore sentinela e olho para Graznavadan, que está atrás de mim, apoiado na bengala e almejando um sorriso torto. Os seus olhos se direcionam para a árvore e eu vejo que nessa posição a sua cabeça faz com que as escamas no lado esquerdo do rosto brilhem num tom mais esbranquiçado com a luz do sol.
– Há trinta anos, quando eu cheguei a esse mundo, as fadas me idolatraram e plantaram essa árvore como forma de me seguir enquanto ela florescer. – Os cabelos brancos caíram pesadamente sobre o ombro. A bengala movimentou-se para a frente e ele veio na minha direção. – Venha, Hector. Teremos muito o que conversar.
E era exatamente a esse ponto que eu queria chegar. As explicações.
Graznavadan me levou por um caminho bifurcado de ervas e flores laranjas. Os seus passos são lentos, então tenho bastante tempo para olhar em volta e sentir a magia da floresta. Algumas fadas estão se deslocando de dentro de seus chalés de madeira e cipós para o alto das montanhas. A alguns metros dali, vejo Gonna ajudando uma outra fada que parecia desorientada em meio a tanto tumulto. Lembro que quando Graznavadan me encontrou pela primeira vez elas sobrevoaram o grande salão fazendo festa, e ser carregado por quatro homenzinhos com asas numa altura de vinte metros não foi uma das melhores sensações que tive, confesso;
Chegamos a um rio com uma ponte plana o cruzando; As águas cintilam por todo o vale que estou observando, e uma grande cachoeira jorra água por entre as rochas sedimentares no alto. Nessa claridade Graznavadan parece uma figura mais apresentável. Se considerar suas vestes.
– E então, Graznavadan… Por que você precisa de mim, por que esses seres precisam de mim? – Olho para algumas fadas que bisbilhotam de cima do monte, e se escondem logo em seguida. – E o que é esse Brilho Ocular que vocês tanto procuram?
Ele não olha para mim. Mas sua voz sai tão limpa quanto a água do rio.
– Eu não preciso de você, Hector! – Agora os seus olhos pesam em mim, mas desviam-se em seguida para as fadas que nos sobrevoam. – Eles precisam.
Ergo a minha cabeça para olhá-los. Os seres fantásticos que conheci nesse mundo.
– Quando eu cheguei aqui, há trinta anos, eu estava completamente perdido. Não sabia onde estava, quem eram esses seres ou o que eu estava fazendo aqui. As minhas roupas estavam amarrotadas e rasgadas, como se um animal feroz tivesse me atacado minutos antes. – As palavras de Graznavadan me faz relembrar a minha situação quando cheguei. Exatamente como ele. Deixo o queixo cair. – Logo depois, as fadas me acolheram. Levaram-me para um pequeno castelo no interior de um bosque rasteiro, com gramas por todo lado. Dias depois eu as ajudei a construir uma grande moradia, e elas me acolheram como seu suserano. Passaram-se alguns dias e imagens começaram a surgir em minha mente. Logo descobri como eu vim parar nesse mundo. – As suas pupilas brilharam ligeiramente, num toque de emoção. Ele olha para mim e me dou conta de que saberei da verdade nesse exato momento. – Há trinta anos eu estou em coma no mundo real. Eu estava viajando com o meu amigo de infância, um piloto, no seu avião. Lembro-me que não estava um bom dia, e o motor falhou. Foi quando a aeronave perdeu a direção e caiu. E daí, eu acordei aqui. Nesse vale. Nas margens desse rio. Eu era escritor, e tinha um talento enorme de criar e sonhar. Talvez esse seja o único motivo porque eu esteja aqui, nesse mundo, há trinta anos. Talvez esse seja o motivo porque você está nesse mundo, Hector. – A sua mão toca o meu ombro direito, enquanto os meus olhos refratam do chão ao rio, buscando memórias perdidas no fundo da minha cabeça. – Você irá saber quem é você, quem foi você no mundo real. E você é a pessoa certa para reinar esse lugar. Você será o meu sucessor. E quando uma pessoa sonha, independente de dificuldades e problemas, ela tem o Brilho Ocular. Pessoas nos dias atuais no mundo real acabam sendo orgulhosas o suficiente, preocupadas com a vaidade e riqueza. E a única certeza que você pode ter, é que se você está aqui, é porque você não se importa com nada disso, Hector. Você não é um desprovido de sonhos. Você é especial. Como eu.
As palavras de Graznavadan me dão um soco emocional, e pesam em mim como um peso de toneladas e mais toneladas. Eu precisava descobrir o que tinha acontecido comigo no mundo real, o que me fez ficar em coma. Mas a minha pergunta nesse momento é outra:
– E qual o motivo de você estar querendo urgentemente um sucessor?
Sinto que a minha pergunta foi como uma mão se fechando ao redor do coração de Graznavadan e o apertando.
Ele engole em seco.
– Por mais que eu não esteja no mundo real agora, eu sinto que todo esse tempo a esperança de vida se esvaiu das pessoas que eu amo. Eu sei que durante esses trinta anos eles lutaram bravamente, e sinto que vão desligar os aparelhos hospitalares. É como uma linha fina que liga esse mundo com o deles. Uma linha frágil e pronta a se partir a qualquer momento. O meu tempo está acabando, Hector. E só você pode trazer esperanças para esses seres.
As palavras de Graznadavan me atingem furiosamente, e a única coisa em que consigo pensar é se a minha família, seja ela qual for, teria coragem para fazer isso. Acabar com qualquer esperança que traga a vida novamente para mim.
Algum tempo depois eu estou com Alaze e Gonna na Terra Dos Chalés, que é como eles a chamam. Alaze está muito mais sorridente do que quando o vi pela primeira vez, um dia antes. E Gonna tenta chamar a atenção das outras fadas para me apresentar formalmente para algumas delas.
– Hector, eu quero que conheça Flimm, Trivian e Plue. – Fala Gonna, me pondo a frente três seres com asas cintilantes.
Flimm é mais pequeno que as outras fadas, mas é o primeiro a me cumprimentar. Trivian tem longas mechas de fios dourados pendendo da cabeça e olhos lilás. Plue tem a boca apertada num risco pincelado de marrom, os seus olhos lembram as águas do rio do vale.
– Então… Esse é o novo sucessor de Graznavadan! – Um ser, um pouco maior do que os outros, com asas com o dobro do tamanho se apresenta. O seu olhar é de raiva e maldade. O seu sorriso me causa calafrios, embora seja menor do que eu.
– E o mais correto sucessor! Ele tem o Brilho Ocular! – Alaze se aproximou e encarou o ser saidinho e raivoso.
– O meu pai foi o Senhor e Rei do nosso reino antes de Graznavadan surgir! Agora ele está a fim de colocar um sucessor no cargo de suserano? – Ele riu mais uma vez. Aproximou-se e me olhou nos olhos. – Eu sou Sonega, filho de Civic, o antigo suserano desse reino. E se for por mim, quem reinará no lugar de Graznavadan será eu!
Ele sobrevoou o vale e foi acompanhado por mais de uma dúzia de fadas.
Alaze e Gonna olharam para mim de relance.
Graznavadan me pediu para reinar em seu lugar. E era isso que eu iria fazer.

Proposta de clímax vencedora do nosso escritor Sorley Sales:

Sete dias. Sete noites.
As minhas memórias crepitaram como brasas na minha cabeça, acendendo como uma tocha num vão negro há dois dias. Pelo menos parte delas. Agora sei, que além do meu nome, sei mais coisas sobre mim:
Sou Hector Tresh, morei durante muitos anos na Rua Row Bannavar, nº 513. Os meus pais Monique Tresh e Alan Tresh. A minha primeira namorada Ruthy Prernie e o meu melhor amigo Dave Dyan. E o mais necessário: Como entrei em coma.
Lembro de uma pessoa com chaves de um carro nas mãos, a jogando para cima e a pegando num certeiro movimento. Uma mulher. Ela põe a chave na ignição e o veículo ronca alto. Seguimos para um lugar muito importante, ainda estou confuso, e ela abaixa e tenta acender um cigarro. A última coisa que vi foi o pneu do veículo deslizando na estrada e ela girando o volante desesperadamente. E então, no primeiro capotamento, eu vi somente escuridão. E percebo, que quando me encontrei nesse mundo as minhas roupas estavam rasgadas e deformadas no meu corpo. Eu realmente lutara com um animal. Eu lutara com o mais feroz de todos e o sem piedade: a morte.
Há sete dias vivo num constante estado filosófico. Agora estou contemplando um céu alaranjado em tons escarlates. Quando visitei Graznavadan, logo após conhecer Sonega, enquanto a noite caía, Ele presenteou-me com uma cota de malha verde com pérolas embutidas num brasão dourado e carmesim. Uma flâmula pendia num mastro no topo da escadaria do grande salão.
– Recebi notícias do incômodo que Sonega lhe causou na Terra dos Chalés. – Graznavadan era velho, mas parecia envelhecer mais com os minutos. Estava branco como leite e demasiado cansado, e claro, a bengala que segurava a frente do corpo lhe atribuía um ar de inferioridade.
– Não, senhor. Não houve incômodo. Gostei de conhecê-lo e sei que é uma boa pessoa… desculpe, uma boa fada. – Eu permaneci onde estava, ali, no mesmo local que estivera no primeiro dia que entrei no salão. Mas agora, sem Gonna e sem Alaze, e sem fadas me olhando.
– Civic era cruel e cheio de virtudes maléficas. Era uma fada diferente que relacionou-se com outra fada, e dominou o reino como um legítimo senhor. A fada, senhora sua esposa, abandonou o filho recém-nascido na floresta e Civic a matou quando descobriu. Sonega cresceu sentado ao lado dessa cadeira. – Tocou o trono e bateu a bengala no chão. – Enquanto Civic fazia das fadas escravas de seu reinado. Quando cheguei aqui, ele já estivera morto. E todas as criaturinhas, com temor de sofrerem novamente, me nomearam rei desse lugar. – Sua coroa se sustenta nos fios brancos e ele diz: – Então, Hector. Você tem que me suceder. Perpetuar a paz nesse lugar, antes que Sonega tome esse trono. Irei embora a qualquer momento. Faça o certo, filho.
E agora, dias depois dessa audiência privada que tive com Graznavadan, soube que chegou a hora de agir. Sonega montou o seu exército a duas milhas do castelo. Graznavadan não sai mais do seu recinto, ficando cada vez mais pálido e límpido. Gonna e Alaze assumiram posturas de guerreiro e querem defender o lugar que amam. Junto deles, Flimm, Trivian e Plue com semblantes de defensores. Outras fadas que apoiam o reinado de Graznavadan pegaram a dianteira e estão numa muralha de corpinhos com asas na Terra Dos Chalés. E eu, que apesar de eu ser apenas um mero garoto, tentarei defender vidas inocentes. E puras. E outro instrumento que Graznavadan me presenteou como forma de arma de guerra: Um Cavalo Alado. Um lindo animal esbranquiçado com asas de quatro metros de cada lado do corpo, estendendo-se numa abertura de penas brancas e cintilantes. É uma boa arma contra os que querem se vangloriar regicidas.
– Nervoso? – Flimm se aproxima de mim e toca o meu ombro. Percebo que ele tem um arco e flecha na mão.
– Nem um pouco. – Respondo, sorrindo para que não percebesse que estou apavorado. – Você está?
– Não. Sonega tentou me matar uma vez e não conseguiu. Hoje vou prová-lo que sou forte o bastante para enfrentá-lo.
Flimm era um exemplo de grandeza, mesmo sendo uma pequena criatura com asas aparentemente inofensiva.
Algum tempo depois, ouço chamamentos e vozes nervosas do lado de dentro do castelo. Dou alguns passos longe das fadas que permanecem em guarda e tento saber o que aconteceu. Vejo Gonna sair da pequena porta do castelo e vir em minha direção.
– Hector! – O seu semblante era de preocupação. – Graznavadan… Ele…
Corro para o interior do castelo, a passos largos e precisos. Entro no grande salão e vejo que cinco a seis fadas se aglomeram ao lado da escadaria. Alaze está ao lado de Graznavadan, o apoiando.
– Senhor Graznavadan? – Ajoelho para ver o seu rosto. – O que aconteceu?
O seu rosto ergue-se e ele me olha. O seu olhar é cintilante.
– Hector. Eu não resis… resistirei a essa batalha. Chegou a hora de eu me despedir.
Nenhuma palavra saiu da minha boca. Nenhum som. Nenhum apelo.
– Tome. – Ele ergueu a bengala dourada e eu a peguei. Pesava em minhas mãos. – Retire o revestimento de cima. Eu quero que fique com ela. Que a use nessa batalha.
Retirei a parte de cima da bengala e me deparei com uma pedra verde-esmeralda brilhando à luz do sol. Era acoplada ao mastro do comprimento da bengala formando um bastão.
– Use-o. Defenda não só os meus, mas os seus princípios e em primeiro lugar a integridade desse lugar e dessas criaturas puras. Erradique o mal e perpetue a paz. A segurança do reino pende nas suas mãos, filho.
Graznavadan levantou-se. Lutando contra o próprio corpo. De pé ele parecia muito mais fraco. Uma luz tremeluziu atrás de si, e uma ventania soprou os cabelos grisalhos contra o rosto.
– E não esqueça, Hector. Você tem o Brilho Ocular. Você é o escolhido. – O seu corpo desmaterializou-se no ar e a luz azulada sumiu.
Todas as fadas davam as mãos e de cabeças baixas evocavam um tipo de oração, de despedida. E isso foi o suficiente para que uma força atingisse os meus ossos.
Minutos depois um som se ergue na floresta.
Estão chegando.
Tomo a dianteira com Sina, o Cavalo-Alado. Os meus olhos seguem cada barulho e cada tremor vindo. Olho para trás e vejo muitas fadas com flechas e outras com poderes mágicos. Noto Alaze com um bastão muito menor do que o meu, ele olha para mim e não esboça reação. Gonna está ao lado dele, com nada nas mãos, mas sei que ela tem poderes mágicos. Trivian, a fadinha com olhos lilás que conheci na Terra Dos Chalés, segura firme uma adaga e os seus olhos pesam no ar. Plue, a mais baixa de todas, bate asas e segura uma besta nas mãos. Pequena e valente.
– Preparem-se! – Grito, quando noto sombras esgueirando-se no campo.
Uma sombra estica-se no chão e percebo que estão atacando de cima.
Sina bate as grandes asas no vento e eu me ergo junto com o seu corpo. Agora estou no ar, com uma mão segurando firme a rédea de Sina e com a outra o bastão mágico de Graznavadan. Sei muito bem como conduzir o animal. Olho para baixo e fadas armadas com maldade atacam os defensores. Eles ainda não sabem que Graznavadan se foi, mas nem por isso vão deixar essa ocasião passar. Vejo as primeiras fadas no chão. Mortas. Outras feridas e lutando bravamente. Não estou encontrando Sonega no ar, então conduzo Sina para baixo. Nesse momento, Sina assusta-se com algo. Uma grande ave cinza enorme se projeta na minha frente e sobre ela está Sonega. Com um sorriso particularmente sagaz.
– O servidor de Graznavadan defendendo o reino. Que tocante! – O seu sorriso de desdobra mais uma vez e a ave gigante abre o bico e lança uma rajada de chamas negras.
Conduzo rapidamente Sina para o lado esquerdo, e dou meia-volta. O bastão acende e eu o direciono para Sonega. O raio esverdeado de energia se impulsiona dele e atinge a asa da ave. O grito dela provoca arrepio no ar e num contra-ataque Sonega parte em direção a mim. Com o rosto negro. Viro-me e sigo em uma só direção, voando sobre a floresta e sobre o Vale dos Chalés, o rio e a montanha triangular. Atrás de mim, Sonega lança rajadas de chamas negras por meio da sua ave. Os entroncamentos de árvores caem furiosamente. E no solo analiso luzes em cada ponto.
Sina passa por uma montanha danificada e eu o viro bruscamente. Suas enormes asas batem um rápido reflexo e o Cavalo-Alado ascende se projetando nas nuvens, evitando a cachoeira. Sonega tenta evitar, mas atinge as pedras da queda d’água e atinge as rasas águas no Lago Verde; Enquanto isso, Sina continua a subir, a subir, a subir; Percebo que uma rajada de energia da ave de Sonega atinge a asa direita do Cavalo-Alado.
E caímos. Numa queda mortal;
Sina bate a asa esquerda e luta com a direita para pousar, mas acaba sendo uma queda um pouco brusca.
Tento levantar e percebo que Sonega vem em minha direção. Nas mãos uma espada reluzente. Ele ataca. O meu bastão me protege num rápido movimento meu, e eu o afasto. O segundo golpe o aproxima, de cima para baixo. Aponto o bastão para a espada e uma energia a afasta das mãos dele. E num átimo aponto o bastão para ele e penso em Graznavadan. Um raio azulado o atinge no peitoral e o lança para longe. Quando olho para a ave cinza e gigante, ela boia nas águas verdes já sem vida. Sina está machucado, mas tento salvá-lo. Ele ergue-se um brilho atinge sua asa machucada. Ela se reconstrói imediatamente. Ele está inteiro novamente.
O corpo de Sonega repousa nas águas, em meio a rochas desgastadas. E vejo que que cada membro dele se transforma em cinzas douradas e voam. Se espalhando no ar.
– Tudo bem, amigão? – Aliso a crina de Sina e ele baixa a cabeça, relinchando. – Vamos lá!
Subo novamente nele e voamos de volta para o campo.
A batalha ainda não acabou. Então eu ajudo as outras fadas a derrotar o restante das fadas regicidas que apoiavam Sonega. Quando acabou, só restou poeira e destruição nos campos. Corpos caídos no chão. E ao olhar para uma parte devastada no campo, vejo os corpos de Flimm, Plue e Trivian sem vida. E num segundo eles transformam-se em cinzas douradas e se esvaem no ar. Lágrimas enchem os meus olhos. Alaze está parado junto ao castelo, com um braço machucado. Duas fadas o ajudam no ferimento. Desço de cima de Sina e ele trota a passos lentos pelo vale destruído.
– Hector! – É a voz de Gonna. Ela caminha em minha direção. Tem as escamas do rosto machucadas. – Você conseguiu!
Um sorriso se destaca no meu rosto. Uma sensação de vitória me invade. Logo vejo o semblante de Gonna mudar, e ela se apressa:
– Hector, cuidado! – Os seus bracinhos me empurram e eu caio. Perto dali, vejo a última fada regicida, com um arco e flecha em mãos. A flecha dispara e atinge Gonna no peito.
Giro o bastão e o atinjo com um raio que o dilacera em milhares de cinzas. Levanto.
– Gonna! – A tomo nos braços e vejo os seus olhos perderem o brilho. – Por que você fez isso?
– Eu não sei. – Ela é pequenina. E isso a torna ainda mais inocente. – Eu apenas o fiz.
Uma lágrima cai dos meus olhos.
– Você foi valente. A fada mais valente que eu já conheci. – Digo, apoiando a sua cabeça.
Gonna dá um sorriso, e nas minhas mãos cinzas cor de rosa se espalham. Se arrastando e espalhando-se no ar.
Todas as fadas estão ao meu redor. Alaze cai de joelhos no local onde Gonna estava caída.
– Eu a amava.
Apoio a mão em seu ombro.
– Tenho certeza que ela sabia disso.
Caminho de volta para o castelo. O Grande Salão está vazio agora. Fica difícil imaginá-lo sem Graznavadan. No meio dele está a coroa, caída e inteira. A recolho.
“Só há um alguém que possa reinar no lugar de Grazavadan” pensei. “E não sou eu.”

Proposta de desfecho vencedora do nosso escritor Sorley Sales:

Alaze é uma figura miúda e descompassada sentado no trono.
As mãos em torno do bastão reluzente e uma coroa grande o suficiente para causar uma estranha desproporção com a cabeça. Ele olha para mim, com os olhos grandes, parecendo bem mais simpático e anfitrião. Ele veste uma túnica laranja com pedras encrustadas no alto do peito, um traço azul em safiras cruzado do ombro ao joelho e as pernas pequenas demais para se manterem no chão.
– A magia de Sina parece manter-se afiada em seu corpo atarracado. Suponho que não precise de mais do que duas porções de Arsívia diariamente. – O cavalo alado relinchou alto e pulou os dois degraus para chegar ao lado de Alaze.
Porção de Arsívia era um medicamento com resultados mágicos usado para aumentar a vitalidade de um cavalo alado. Era feito por Ewaly e Nisha, as fadas com mais experiência nesse mundo. Viveram por um século, disse Alaze, enquanto eu o acompanhava a um passeio pela Ponte Noroeste. A Arsívia, quando dada em quantidades equivocadas e sem acordo com a espécie de um cavalo alado, poderia provocar envenenamento súbito do animal.
– Devo admitir que você fica bem melhor sentado nesse trono do que eu. – Confesso. – Embora Graznavadan tenha me tornado o seu sucessor real e confiar a segurança do reino em minhas mãos, sei que ele também tinha um certo apresso por você, Alaze. Talvez eu não tenha feito uma escolha justa, mas sei que fiz a escolha certa. – Fico parado diante dos degraus do trono e Alaze sorri.
Lembro neste momento de quando perdemos Gonna na Batalha de Sonega. Do minuto que ela sorria para mim, enquanto eu respirava aliviado pelo término da guerra, e um momento depois ela estar sufocando em meus braços;
Há três dias, enquanto Alaze espiava o Jardim Florido, eu desejei saber algo que nunca tive a oportunidade de perguntar a Graznavadan: Por que ele amava tanto aquele lugar a ponto de largar a vida real pela imaginação.
Alaze contou que Graznavadan sempre se sobrepôs a qualquer tipo de desastre humano, por isso preferiu a vida doce a uma amarga.
– Então ele poderia retornar? – Perguntei. – Regressar à vida?
– Sim. – Respondeu Alaze, caminhando ao meu lado. Com metade do meu tamanho. – Mas a escolha dele foi ficar e reinar, Hector. Você também tem a livre escolha de retornar para a vida real e esquecer tudo o que aconteceu.
– Esquecer tudo o que aconteceu? – Pergunto.
Neste momento um trompete soa longe.
– Vamos, é hora do toque de recolher. – Alaze virou-se e eu apenas o segui.
Há muito que estou neste mundo. Há muito que eu presenciei a morte de Graznavadan e Gonna, e sei que tudo o que fiz por esse reino transformou-se em um canto sagrado dentro de mim, como uma lembrança boa, somente com finais ruins. Deito na grama vermelha no alto de uma montanha. A minha cabeça não está pesando tanto com decisões ultrajantes. Sei que posso me dispor a esse reino e ajudar Alaze com todas as fadas e a perpetuação dos bons seres. Mas também sei que tenho a escolha de voltar para minha vida, seja ela boa ou ruim, porque sei que talvez tenha pessoas precisando de mim no outro lado, tenho conhecimento de que se eu voltar traga alívio para os meus pais. Para minha família.
Fecho os olhos e o sorriso da minha mãe passa pela minha mente, a maneira de como ela me abraçava e me erguia, contraindo os lábios para um longo beijo logo em seguida. Tudo agora parece girar em um só plano no interior da minha mente, descendo como uma cachoeira e desaguando em um rio de lembranças. Quando os abro, tenho a rápida sensação de que estou em casa, o meu quarto aquecido com meus familiares e minha mãe segurando a minha mão do meu lado. Mas vejo somente as estrelas verdes piscando no céu, e duas fadas passarem rapidamente com madeiras para estocar na Terra dos Chalés. Algo quente desliza da minha pupila para minhas bochechas: Uma lágrima sofrida e longa o suficiente para gotejar.
Não poderia perder mais tempo.
Já tinha a minha decisão.
O dia seguinte veio rápido, com um raio de sol entrando no meu quarto espaçoso no Castelo de Alaze. Levanto da cama com tecidos grossos e sedas macias, o que dava a sensação de conforto demasiado agradável. Sinto-me um consorte há dias, nada parecido com o garoto que chegara aqui há muitos meses. Direciono-me para o salão central, onde Alaze alimenta Sina com uma Porção de Arsívia. O cavalo alado se alimenta, enquanto as enormes asas se estendem e recuam, espantando algumas folhas secas do chão.
– Eu vou sentir a sua falta, amigão. – Digo, tentando não me tornar alguém com quem Alaze poderia contar até o resto dos seus dias.
Ele olha para mim e esboça um sorriso frágil. Como sempre.
O cavalo alado se dirige à porta de saída, percorrendo o caminho da caverna escura.
– Tem certeza de que quer isso? – Alaze está com uma túnica dourada naquela manhã, com pratas em um colar estirando-se do pescoço magro.
– Já obtive a minha decisão. Por mais que eu ame este lugar, esses seres, eu não seria capaz de abandonar a minha família, o lugar de onde eu vim e as pessoas que me amam. Sinto muito só de pensar que elas estão sofrendo por mim agora. Não me perdoaria se eu fizesse isso.
Alaze se aproximou de mim e com o corpo pequenino lançou os braços ao meu redor. Com a túnica se arrastando pelo chão ele parecia maior do que realmente era, e honestamente falando, ele era Grande.
Conversamos por mais algum tempo antes que Alaze reunisse todas as fadas no Campo. Juntas deram as mãos e formaram um enorme círculo ao meu redor. Alaze projetou-se na minha frente, enquanto eu me ajoelhava perante ele. O bastão cruzou o Campo junto com ele.
– A pronúncia a Hector Tresh, guerreiro da Batalha de Sonega e defensor do reino. Sucessor de Graznavadan e abdicado por si. Segundo Dono do Brilho Ocular e supremo ser das fadas. – Entoou Alaze, e todas as fadas disseram as mesmas palavras. – A luz dos seres bons o levará para a entrada do seu mundo, as asas de nossas fadas o encaminhará para seu destino, e o seu retorno trará felicidade para os que te idolatram. O Brilho Ocular sempre viverá em você.
O bastão tocou no alto da minha cabeça e um choque preencheu cada membro meu. Fada a fada apagou-se no tempo e luzes cromáticas atingiram meus olhos, senti uma leve pancada e um ar diferente entrando pelas narinas…
Eu… Como eu… Onde estou?
A minha cabeça dói como nunca ocorreu e os meus olhos abrem-se e vejo um teto branco sobre mim. Estou deitado em um cama nada confortável, como se eu tivesse ficado tanto tempo nela que parecia desagradável o suficiente para me incomodar. Uma mulher está parada ao lado da porta e um homem a abraça amorosamente, enquanto ela chora. Agora me recordo. Meus pais. Outro homem, um médico, está do lado da minha cama olhando o aparelho a sua frente, e uma enfermeira recolhe panos de uma poltrona próxima. Tento esboçar alguma reação, mas o meu corpo parece estasiado o suficiente para isso. Tento falar, e é impossível. Enquanto o médico estabelece todos os procedimentos, sinto o mesmo ar entrar e sair das narinas. Agora parece familiar.
Tempos depois de ter saído do hospital, estou caminhando com minha mãe em direção à Biblioteca Rewis Coonest, que fora inaugurada há três meses. Foi o que o meu pai me falou, pelo menos. A fachada era verde com o grande nome da biblioteca destacado no alto. Entramos pela porta de vidro.
Todos os livros estão separados em corredores enormes, em prateleiras de dois metros de altura. Uma hora depois, estamos nos direcionando à recepção. A minha cadeira de rodas é empurrada pelo meu pai, enquanto minha mãe separa os livros no balcão.
A recepcionista é uma mulher vivida, com traços marcantes nos olhos, os fios grisalhos pendendo do alto da cabeça numa cascata apática. Os meus olhos perseguem uma borboleta no alto do salão e o inseto me leva para um quadro posto atrás da recepcionista. É grande o suficiente para que todos olhem. O homem na pintura é muito elegante, com uma barba negra cobrindo boa parte do maxilar e os olhos bem vivos. Nunca o vi. Mas uma sensação me ataca repentinamente. Decido ignorar. Antes de ir embora passo os olhos pela mulher velha na recepção novamente e dessa vez noto que há um crachá no seu peito com um nome: Sra. Graznavadan.
Direciono o olhar para o quadro e leio embaixo, ao lado da rosa vermelha enfeitando o terno do homem: Em consideração a William Jay Graznavadan.
Um minuto depois estamos fora da biblioteca. Continuo com aquele nome na cabeça, tentando me recordar se alguma vez já o ouvira. E sabia, que em algum lugar, no fundo da minha mente, estaria a resposta.

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Proposta de apresentação vencedora da nossa escritora Ceres Marcon:

Por mais que eu tentasse me concentrar na leitura, meus olhos buscavam pela porta, se distraiam com a movimentação da rua, os sons de risos e conversas invadiam meus ouvidos, dispersando minha atenção.
Olhei para o relógio. Eu me encontrava sentada naquela cafeteria há pelo menos uma hora, e a ansiedade só aumentava. Aos dezenove anos ainda roía unhas, não sabia arrumar meu cabelo rebelde e havia marcado um encontro com um desconhecido. Alguém por quem eu havia me apaixonado através de conversas pela internet, e que havia me convencido sobre a importância de um encontro, a fim de termos certeza se nossos sentimentos possuíam alguma chance de serem verdadeiros.
Fechei o livro. Minha impulsividade havia me colocado em situações difíceis, mas aquela passava de todos os limites. Conhecia histórias de garotas mortas por conta de encontro às cegas, raptadas, torturadas, estupradas e todo o restante de barbáries que a imprensa divulgava, mesmo assim, aceitei a proposta, afinal, eu estava apaixonada. Pensar em como deveria ser me aninhar em seus braços apertava meu estômago.
Meu celular vibrou no bolso da jaqueta. O nome de minha melhor amiga piscava de forma insistente.
― Oi, Jê!
― Ele já chegou?
― Não.
Eu podia ser impulsiva, mas não me considerava uma idiota. Jessica sabia de meu relacionamento virtual com Fernando desde o princípio.
― Acho que você acabou de ganhar um bolo. E, quer saber, melhor assim. Volte para casa, Sara, e deixe esse idiota de lado.
Naquele momento uma leve pressão em meu ombro fez com que virasse e encontrasse o par de olhos verdes mais maravilhosos que poderiam existir sobre a face da terra. O sorriso radiante, o rosto, apesar dos seus vinte e dois anos, tinham linhas fortes e o faziam parecer muito mais velho. A imagem que a câmera do computador mostrava se mostrou muito mais linda ao vivo.
Balbuciei um “ele já chegou” para Jessica e desliguei o celular, um tanto atrapalhada com a presença de Fernando.
― Desculpe o atraso, fiquei preso em um congestionamento na Marginal.
― Ah! Tudo bem.
Aquela voz trêmula e esganiçada não se parecia com a minha, muito diferente da dele, segura e grave. Uma fisgada na barriga transformou minhas pernas em geleia e minhas mãos suaram frio. Fernando, parado a minha frente, tão lindo quanto eu o havia imaginado, puxou a cadeira e sentou, pousando uma das mãos sobre a minha.
Fechei a boca, que provavelmente ficara aberta enquanto olhava para ele.
― Então… Quer ficar aqui ou prefere ir a outro lugar?
A pergunta me deixou confusa. Nossas conversas eram pervertidas, falávamos de sexo muito mais do que qualquer outro assunto, ambos parecíamos ter urgência em grudar nossos corpos e liberar o tesão. Contudo, eu esperava algo mais.
― Acho que prefiro ficar por aqui.
Ele substituiu o sorriso por uma gargalhada, e pude ver o brilho desafiador em seus olhos.
―Está com medo.
― Não é nada disso. ― Detestava quando alguém me chamava de medrosa. Levantei e puxei-o pelo braço. ― Vamos.
― Para onde?
― Quem é o medroso, agora?

Proposta de desenvolvimento vencedora da nossa escritora Ceres Marcon:

Fernando pagou a conta e seguiu-me em silêncio. Com o canto do olho vi seu sorriso malicioso. Meu coração disparou e precisei segurar a vontade de beijar-lhe a boca, afinal foram meses de conversas pela internet, que só serviram para aumentar o desejo de tocá-lo, de sentir o cheiro da pele, o gosto de sua boca.
Seguimos para a rua e o calor da tarde me acertou em cheio, como se eu tivesse aberto a porta de uma imensa fornalha. Olhei ao redor imaginando qual seria o carro dele, e rezei para chegarmos logo. Queria escapar daquele sol que fazia a pele arder e a respiração ficar pesada. Também estava ansiosa, o que só piorava a sensação de sufoco. Eu não fazia ideia do quê fazer, agi por impulso, por ter sido provocada, e, como sempre, precisava encontrar uma saída. Parei sem aviso e encarei-o de queixo erguido.
― Para aonde vamos?
― Como assim? ― A surpresa em seu rosto me pareceu sincera― Achei que tinha algum lugar em mente quando decidiu aceitar sair.
― Não tenho. Aceitei porque você me provocou. ― Ali estava eu, jogando limpo com o homem por quem me sentia atraída. ― Além do mais, você convidou primeiro.
Ele achou graça em meu comentário, sorriu e continuou em frente, sem esperar por mim. No mesmo instante fui empurrada por um homem.
― Ei!
Reclamei pelo contato físico grosseiro, o estranho, no entanto, não diminuiu o passo e continuou ainda mais apressado, sem pedir desculpas ou olhar para trás. Ultrapassou Fernando quase correndo, desapareceu atrás de uma van, e não o vi mais. Apertei com força a tira da bolsa que carregava atravessada em frente ao corpo, olhei ao redor, mas não havia mais ninguém por perto.
Fernando, alguns passos à frente, não me escutou, parecia alheio à movimentação do lugar, caminhava descontraído, tinha movimentos seguros, e corri para me sentir mais protegida. Dentro de mim, apesar de toda emoção, sabia que aquela poderia ser uma grande aventura, ou uma enrascada sem tamanho.
― Quer conhecer minha casa?
A pergunta me pegou desprevenida. Achei que seria levada a um motel qualquer. Fiquei calada por alguns instantes antes de decidir o que dizer.
― Sim.
Ele seguiu em frente, mantendo o ritmo. Não parecia preocupado se eu o acompanhava, ou se havia desistido. Me apressei para alcançá-lo e embarcar no carro. Não prestei atenção na marca, muito menos na cor do veículo, apesar de ter pensado nesse detalhe minutos antes. Minha cabeça girava em busca de imagens que pudessem construir a casa de Fernando pelo estilo de vida que ele dizia ter; também traçava estratégias de sedução, porque este era meu objetivo, e meu corpo reagia a cada quadro pintado por meu cérebro.
― Sara!
Quando virei para dar-lhe atenção, havia uma faca em seu pescoço. Antes mesmo de conseguir gritar, meu nariz foi coberto por um pano. Me assustei, tentei gritar, mas ao respirar mais fundo em busca de ar, minha visão ficou turva, e em poucos segundos perdi a consciência.
Acordei com sede. Parecia que todo o líquido de meu corpo havia escapado por meus poros, tinha a boca seca e amarga, sentia a pele pegajosa, e meu cheiro me desagradou. Não fazia a mínima ideia de quantas horas passaram desde que perdi a consciência. Toda aquela escuridão ao meu redor me assustou, e um calafrio percorreu minha espinha. Precisei me acostumar com a falta de luz, porém não havia nada muito nítido, apenas uma leve claridade marcava o contorno da porta.
Alguns sons chegaram até mim. Nenhuma voz conhecida. Risos, algo parecido com cadeiras arrastadas, o barulho de um motor, e depois o silêncio.
― Fernando! ― Chamei, e minha garganta ardeu. Tossi para limpar a voz. ― Fernando!
Eu estava sozinha e comecei a chorar. Devia ter cancelado aquele encontro, agora não sabia onde eu estava, nem Fernando. Lembrei de meus pais, dos conselhos de minha mãe sobre encontro com estranhos, de Jê e nossa última conversa. Chorei até quase adormecer.
Tinha medo de me mexer. Não sabia o que poderia encontrar ao meu lado. Criei coragem e então comecei passar minhas mãos sobre o lugar no qual eu estava deitada. A textura lembrava um colchão. Não havia cordas em meus pulsos nem em minhas pernas. Sentei e encontrei o chão logo em seguida. Respirei fundo e me arrependi, um cheiro podre invadiu minhas narinas e meu estômago embrulhou, vomitei o pouco de líquido que havia no estômago. Aquilo foi horrível, queimou meu nariz por dentro e chorei mais uma vez.
Mesmo com os músculos tremendo e tonta, levantei e me apressei para encontrar apoio. Toquei a parede e minhas mãos ficaram molhadas. Queria sair daquele lugar horrível. Precisava de água, de luz.
― Fernando! ― Gritei com toda força. ― Tem alguém aí? Eu quero sair!
Escorada na parede fui devagar em direção à porta quando a claridade invadiu o pequeno espaço, me fazendo cobrir os olhos com as mãos. Dois vultos entraram e outro foi jogado sobre o colchão, sem o menor cuidado. A porta foi fechada e a escuridão voltou a tomar conta do lugar.
Escutei gemidos, mas tive medo de me aproximar.
― Sara…
Reconheci a voz de Fernando, me agachei, e de joelhos fui tateando o chão até bater na borda do colchão.
― Fernando! ― Falei entre soluços. ― Onde estamos? Quem são esses homens?

 

Proposta de desfecho vencedora da escritora Ceres Marcon:

Antes que ele pudesse responder, a porta abriu pela segunda vez, e ouvi o som do interruptor. A lâmpada do teto deixou uma pequena claridade escorrer pelo lugar. Meus olhos piscaram, ofuscados pela luz. As paredes úmidas, o chão de terra e o teto de madeira confirmavam minha suspeita de que estava em um porão.
O homem a minha frente tinha o rosto coberto por uma máscara de esqui. Impossível saber quais seus sentimentos ou intenções. Ele apenas observava. Aguardou até outro entrar e deixar sobre o chão uma garrafa de água. Saíram tão silenciosos quanto entraram. Não me atrevi a falar, o pavor não permitiu. A visão de Fernando sobre o colchão velho e sujo me deixou ainda mais apavorada.
Agarrei depressa a garrafa e juntei-me a Fernando. Ele estava muito machucado. Tinha o rosto inchado, a boca e a testa sangravam e havia encolhido o corpo. Por mais apavorada que eu estivesse, não poderia deixar de me preocupar com ele, afinal, eu acreditava que o amava.
Me aproximei dele, mas não o toquei. Não queria machucá-lo mais, nem fazê-lo sentir dor.
― Fernando! ― Chamei-o, segurando os soluços e limpando as lágrimas. ― Pelo amor de Deus! O que está acontecendo aqui? Quem são esses homens?
Seus olhos não se abriram.
― Vingança.
A palavra saiu quase inaudível. A dificuldade de Fernando em falar não me impediu em perguntar. Eu tinha o direito de saber. Toquei-lhe o ombro com o máximo de cuidado.
― O que você fez? ― O silêncio pesou entre nós dois. Minha pergunta não seria respondida a não ser que eu insistisse. ― Você me deve uma explicação, Fernando!
― Matei uma garota.
Aquela revelação travou minha respiração, e pude sentir minha cabeça latejar no ritmo de meu coração. Me arrastei pelo chão e fiquei longe de Fernando. Ele virou o rosto em minha direção, e um sorriso irônico entortou seus lábios grossos pela surra.
― Quer saber por quê? ― Disse e tossiu cuspindo sangue.
Não conseguia falar. Também não queria mais chorar. Precisava entender porque haviam me carregado junto com ele. Por que me trancaram em um lugar horrível ao invés de me libertarem. Meu silêncio o motivou. Fernando procurou endireitar o corpo, gemeu algumas vezes até conseguir encostar-se à parede.
― Ela não era muito bonita. Quinze anos. Introspectiva. Tímida. Contida. Muito diferente de você. ― Parou e me encarou, sem qualquer sentimento no olhar. ― Foi fácil convencê-la a se encontrar comigo. O perfil dela na internet dizia exatamente como eu deveria agir. ― Fernando apontou para a garrafa. ― Poderia alcançar a água?
Me aproximei com cuidado. Estiquei o braço para que ele pudesse pegá-la. Não queria chegar muito perto.
― Está com medo. ― Ele riu. Tossiu. Tomou um pequeno gole deixando sangue no gargalo. Apesar da dificuldade em falar, ele prosseguiu. ― Reconheço esse sentimento em qualquer um. É o que me motiva, sabia? Sinto prazer em ver essa sombra passar pelos olhos dos outros. Da forma como imploram pela vida antes do último suspiro.
― Você é um monstro!
A porta voltou a se abrir. Desta vez um dos homens trouxe uma pequena mesa e o outro organizou sobre ela alguns objetos.
― Ei! Por que me trouxeram aqui?
Os dois entreolharam-se e saíram.
Caminhei próxima à parede. Não queria correr o risco de ser tocada por Fernando, mesmo machucado, mostrava resistência. Recuperava-se de forma lenta, e eu estava com muito mais medo dele do que dos homens que nos sequestraram.
Arregalei os olhos ao constatar o que havia sobre o tampo. Meu coração disparou. Meu estômago contraiu e vomitei. Não conseguia entender o que aqueles loucos tinham em mente.
― O que foi?
Fernando observava minha reação. Não identifiquei a expressão de seu rosto. As marcas do espancamento ficavam cada vez mais evidentes.
― Não interessa! ― Gritei. ― Não quero ouvir a sua voz. ― Vi quando se movimentou em busca de apoio para se erguer, com o máximo de rapidez, agarrei a faca que estava sobre o tampo e o ameacei. ― Nem tente chegar perto de mim! Entendeu?
As lágrimas inundaram meus olhos. Minha garganta doía pela acidez do líquido que eu expeli e pela força que fazia para conter o choro. Estava com medo, mas com raiva de ter sido enganada. Uma adolescente idiota. Era assim que eu me via.
Fernando voltou a rir.
― São as fotos. Olhou bem para elas?
Criei coragem e voltei até a mesa. Meus músculos tremiam. Sentia o suor escorrer em minhas costas. A luz fraca vinda da pequena lâmpada refletia o brilho da lâmina que eu apertava na mão sem o mínimo de confiança. Olhei cada uma das cinco imagens, mesmo com a náusea que elas provocavam. Havia muito sangue. Cada uma retratava um ângulo diferente. Garganta cortada, mãos presas nas costas. Nua. A garota loira. Minhas pernas amoleceram quando vi o rosto machucado e sujo. Os olhos verdes abertos, sem vida, ainda mantinham o horror a que havia sido submetida. Não consegui mais segurar o choro.
― Não acredito que se esqueceu. ― Fernando continuava a falar e a se movimentar. ― Mariana. Estudava na mesma escola que você. Lembra do perfume que ela usava? Você odiava. Fazia piadas sobre a maneira dela se vestir, dos quilos a mais, das bochechas sempre rosadas. Mariana, a desengonçada. Quantas piadinhas você fez? Quantos garotos convenceu para fazerem-na chorar?
― Pare com isso! ― Minha voz soou histérica. ― Nunca desejei… Nunca imaginei que ela pudesse cair nas mãos de um psicopata!
― Não? Tem certeza? Não foi você quem criou um perfil para que ela encontrasse um namorado?
Avancei dois paços na direção dele. Ergui a faca.
― Não tente jogar sobre mim a sua culpa! Eu não a matei!
― Verdade. Mas facilitou meu caminho até ela. É cumplice. Quem respondia as mensagens do perfil? Quem atualizava o diário? Quem colocava fotos novas? Quem marcou o encontro comigo? Não vi você sofrer quando ela desapareceu, nem chorar por sua morte. Pelo contrário. Você riu. Disse que ela mereceu, por ser tola em acreditar que alguém pudesse se apaixonar por ela. Que as lições com os garotos da escola não tinham sido suficientes.
Fernando jogou na minha cara atitudes que eu sufoquei durante um ano. Não entendia como ele podia conhecer tanto a meu respeito, saber sobre a minha vida, do que eu pensava de Mariana. Fernando nunca apareceu na escola, não que eu lembrasse. Um rosto como o dele eu não esqueceria. No perfil que eu havia criado para Mariana, as fotos dele não apareciam. Só havia a imagem de um por de sol, em tons de laranja e vermelho. Ele usava um apelido, que nem se quer lembrava qual. Não queria mais ficar naquele espaço, trancada junto com ele. Respirar começou a ficar difícil. Larguei a faca, o som do metal foi abafado pelo chão de terra úmida. Corri até a porta e bati com força.
― Me tirem daqui! Por favor! ― Meus gritos se perderam no pequeno espaço, misturavam-se aos meus soluços, e os punhos doeram e sangraram por causa das pancadas que desferi contra a madeira. ― Não me deixem junto com ele! Eu não queria que ela morresse! Me perdoem, por favor!
Meu corpo escorregou pela parede e fiquei no chão um longo tempo, soluçando, sem prestar atenção em Fernando. A culpa por ter causado tanta dor à Mariana, apertava meu coração. Não medi as consequências das minhas loucuras. Costumava não me importava com os sentimentos dos outros. Era egoísta demais. Acreditava que podia ser mais esperta do que as garotas da escola. Isolava as mais tímidas. Desdenhava das mais velhas. Os garotos me idolatravam. Considerava-me madura para tomar minhas próprias decisões, desafiar as ordens de meu pai, desconsiderar os conselhos de minha mãe e amigos. O pedido de Jéssica ao telefone para que eu desistisse do encontro fez eu me sentir ainda pior. Ela conhecia o nome de Fernando, eu havia mostrado a filmagem de nossas conversas, onde nos encontraríamos, mas não havia como saber sobre o sequestro.
Me encolhi no canto daquele quarto frio, com medo e repulsa daquele homem por quem eu pensava ter me apaixonado. Ainda não tinha ideia do porque estavam me segurando presa. Tremi ao pensar que pudesse ter o mesmo fim de Fernando ou de Mariana. Rezei em silêncio, pedindo a Deus por misericórdia.
Talvez eu pudesse me redimir. Só não sabia como. Esperava ter tempo suficiente para descobrir.

… continue esta narrativa com sua proposta para o desfecho:

Não percebi o sono chegar, nem sei quanto tempo fiquei adormecida. Quando abri os olhos, me deparei com Fernando suspenso por correntes presas ao teto. Estava nu. A luz próxima a seu corpo deixava à mostra machucados causados pela surra recebida horas antes.
— Sara!
A voz parecia mais fraca e suplicante. Tive a impressão de que não havia apenas suor em seu rosto. Não queria ajudá-lo, muito menos falar com ele.
— Sara, por favor, me ajude!
— Por que eu faria isso? — disse em um tom de indiferença.
— Eles vão me matar.
—Não foi isso que você fez com Mariana? — Mantive minha postura fria. — Aliás, acho que você merece.
— Você não tem ideia do que eles farão comigo antes que eu morra.
A voz tremia e o desespero se evidenciava a cada palavra.
— Devia ter pensado nisso antes de fazer o que fez.
— E você pensa que conseguirá fugir? Acredita que eles a deixarão ir sem nenhum arranhão?
Um calafrio fez minha pele arrepiar. Continuei encostada ao canto no qual me encontrava. O controle das pernas parecia ter ficado fora de meu cérebro, inalcançável. Fernando poderia ter razão, ou ele quisesse apenas conquistar minha piedade a fim de conseguir fugir e me matar na sequência.
— Acha que não a farão sofrer?
— Cale a boca! — gritei com toda a força que ainda tinha. — O monstro aqui é você!
Ele começou a rir até transformar aquele ruído em uma gargalhada histérica.
— Você é a mentora, Sara. — A fala se intercalava ao riso. — Sem você eu não apareceria.
Em um movimento ágil, meu corpo saltou, como se os comandos cerebrais houvessem sido todos ligados ao mesmo tempo. Agarrei a faca sobre a mesa. Detive meu avanço quando o cheiro ácido de suor me abraçou. Encostei a lâmina em seu pescoço.
— Eu disse para você calar a boca. — grunhi com os dentes cerrados. Pude ouvir o atrito de meus dentes.
— A motivação certa gera atitudes impensáveis, Sara. — Ele me encarou. — Vai conseguir me matar?
Comecei a suar. Meus músculos tremiam tanto que imaginei minha carne se separando dos ossos. Eu não imaginava poder sentir tanto ódio por alguém como naquele momento. Pressionei ainda mais a lâmina contra ele até a pele rasgar, deixando escapar um fio de sangue que escorreu e pingou sobre meu peito.
Ele soltou um uivo de dor, praguejou, se contorceu. Esticou as pernas na tentativa de me derrubar. Tomei distância dele, e em um ato de desespero, joguei a faca contra a parede.
— Vamos, Sara! Mate-me.
Coloquei as mãos sobre os ouvidos. Voltei a me encolher no canto de onde eu não deveria ter saído e chorei.
A porta abriu, mas não consegui esboçar reação. Um dos homens se aproximou de mim, segurou meus pulsos com força e me ergueu. Fui prensada contra a parede. A máscara ocultava o rosto, apenas os olhos e a boca ficavam expostas. Achei que ele me mataria naquele momento.
— Você tem duas escolhas, Sara. Cada uma delas terá consequências. Você está me ouvindo? — Disse em meu ouvido.
Sacudi a cabeça para confirmar. Minha voz havia desaparecido.
— Pode ficar e assistir a morte de Fernando — falou em um sussurro que me deu calafrios —, mas terá que dar o último golpe. Vai caber a você matá-lo, ou pode sair daqui. Contudo, se preferir ir embora, terá uma tarefa. Você vai escrever um texto e publicar no jornal. Deve pedir desculpas à família de Mariana, contar o que fez. Assumir que foi você quem provocou o encontro entre os ela e o assassino. Entendeu?
— Sim. — Gaguejei.
— Então, o que escolhe?
Meu corpo convulsionou em soluços. As lágrimas queimavam minha garganta e molhavam meu rosto. Olhei para Fernando. Seus olhos se voltaram para mim. Não havia uma expressão que eu pudesse usar para definir o brilho que eles refletiam. Os lábios cerrados tinham perdido a cor e a beleza de seu rosto havia desaparecido atrás das escoriações. Eu o odiava, o desprezava, mas também tinha pena.
— Quero ir embora.
No mesmo instante um pano tapou meu nariz e meus sentidos apagaram.
Minha redenção viria, lenta e destruidora.