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Proposta de apresentação vencedora do nosso escritor Sorley Sales:

Enquanto os meus olhos passeiam pela silhueta de um pássaro a dois mil pés de onde estou, sussurro algo que minha mente não consegue captar. Fecho os olhos involuntariamente, lutando para me recordar da última vez que toquei alguém, ou falei com alguém. Da última vez que pude dizer a uma pessoa o quanto eu a amo, ou a pura necessidade de dar-lhe um sorriso. Os meus pés pisam firmemente num filete por cima de uma montanha, e é estranho, porque parece que estou flutuando num vale só meu, onde os perigos e medos não existem, e a solidão é fria e me abraça de maneira sutil. Calço botas de um couro macio, e visto luvas de um cetim claro amarronzado nas pontas dos dedos. A minha camiseta amarrotada mostra que eu lutei bravamente com um animal feroz, mas não lembro do ocorrido. Ou de ter vencido.
Engulo em seco.
Novamente direciono os meus olhos para cima, onde vi o pássaro sobrevoando as nuvens. Não vejo sol. A necessidade que tenho de saber onde estou é tão grande quanto saber como vim parar aqui. Não tenho uma segunda visão, ainda mais uma que pode me enxergar de cima perfeitamente. Eu diria que os meus olhos estão verdes, ao invés do tom castanho que sempre foi.
É estranho…
Consigo lembrar-me perfeitamente das minhas características físicas, mas não consigo recordar de momentos que ocorreram antes de eu estar aqui. Eu sei que tenho uma cicatriz disforme na omoplata direita, mas não consigo saber como eu a ganhei. E de repente sinto uma pontada de desejo, um frio da beira do estômago que cresce até o peito. Irrefreável. Brusco. Inconveniente.
– Ele poderia ser um deus. – Os meus ouvidos perseguem uma voz aguda vinda de dentro de uma caverna de dez metros de altura com uma porta frontal de duas vezes o meu tamanho.
– Não seja tão ingênua! Nem o conhecemos. Não precisa fazer parte do grupo dos especialistas para dizer que ele é um nativo dos Desprovidos De Sonhos. – Entoou um pequeno homem, de um metro de altura e olhos absurdamente grandes e um semblante rugoso.
A ouvinte, uma mulherzinha quase do seu tamanho, torceu a boca num frenesi, e saltou de onde estava para me olhar nos olhos. Ela tinha dois pares de asas transparentes no dorso, e a boca pequenina, o nariz pontiagudo e escamas ao redor dos olhos.
– Os Desprovidos De Sonhos nunca estariam no nosso mundo, Alaze. – A pequena criatura voltou-se para o homenzinho com rugas desenhando a testa e ao redor de cada olho grande.
Nesse momento, o pequeno homem com metade do meu tamanho, me olhou com inexpressividade no olhar, e sorriu.
– Ele tem o Brilho Ocular! – Falou Alaze, o homenzinho. Ele também tinha asas, para minha surpresa. – Gonna, ele tem o brilho ocular do escolhido! – Segundos antes ele olhara bem firme e profundamente nos meus olhos, antes de entonar o grito de que eu tinha o tal Brilho Ocular e sorrir.
– Graznavadan precisa conhecê-lo e saber que finalmente conseguimos! – A mulherzinha, Gonna, comprimiu os lábios e sobrevoou a caverna, enquanto Alaze se permitia a voltar para a caverna.
Eu tinha percebido que as criaturinhas não haviam me deixado abrir a boca por um minuto. Percebi que eram fadas muito diferentes das que vemos nas histórias que os parentes contam à meia-luz de um quarto aconchegante. Eram tagarelas. O pior!
– Quem é Graznavadan? – Perguntei, assim que Gonna me puxou pelo braço esquerdo. Senti uma dor impetuosa cruzar o meu antebraço. Ela era pequenina, o que fazia de sua mão ainda mais. Fechou toda a palma em dois dedos meus.
– O nosso líder espiritual. Está a procura de um Brilho Ocular, que por obséquio, será o seu!
Necessitei perguntar mais alguma coisa, então complementei?
– O que é Brilho Ocular? – Cruzei uma fileira de arbustos no interior da caverna e tropecei em várias rochas pelo caminho.
– Ele está à sua espera. – Alaze veio às pressas, sobrevoando em um corredor estreito e mal iluminado, com uma capa em mãos. O tecido era de um azul claro e luminoso, como um pijama moderno. Vestiu-me com ele. – O acompanharemos, mas não falaremos qualquer palavra, a menos que Graznavadan nos peça. Você é o escolhido. Você tem o Brilho Ocular. Responda as perguntas dele com respostas coesas. E nada mais.
Atravessei um pátio com vidros postos em fileiras no teto. As paredes eram rebocadas com vitrais enormes e coloridos. No final do corredor uma porta de madeira cresce à medida que me aproximo. E a pergunta “Como eu vim parar aqui?” ainda continua presa na minha cabeça. Cada lado da porta é empurrado por Alaze e Gonna, e centímetro por centímetro é aberto para que eu observe a Grande sala de Graznavadan.
Desço uma escadaria, com a ajuda de Gonna, olhando para as dezenas de vitrais postos nas laterais do salão de mármore brilhante. À minha frente, há uma cadeira de aço dourado com detalhes rústicos nas pernas e braços. Nela há sentado um homem velho com uma extensa barba grande e escamas rosadas e prateadas cobrindo o lado esquerdo do rosto. Está vestido com uma túnica de seda amarela; Uma coroa com pedras metálicas está sobre a cabeça dele e o seu olhar pesaroso se direciona a mim.
Um arrepio eriça os pelos da minha nuca. “Ele com certeza é a figura respeitável desse mundo.” Penso.
Não preciso pensar duas vezes para saber quem é.
Graznavadan.
– Joelho esquerdo no chão. Dobre o Direito. E entoe: Graznavadan, senhor meu. Líder de fadas e deus Justo. – Sussurrou Alaze para mim.
Tentei curvar-me, mas achei que não seria uma boa ideia. Com certeza não seria uma ideia plausível. Ao invés disso, eu fiz exatamente o que Alaze me pediu.
– Graznavadan, senhor meu. Líder de fadas e deus justo.
Percebo que fiz o certo a partir do momento que o olho e ele torce o lábio para cima, num escondido sorriso. Graznavadan ergue-se e estende a mão para o lado da poltrona, talvez um trono. De lá puxa uma bengala também em tom dourado, com uma fita presa na parte posterior do metal. Ainda estou ajoelhado, e com a cabeça baixa agora. Os meus olhos erguem-se um pouco à medida que os meus ouvidos ouvem passos se aproximarem.
Quando duas pernas se põem a minha frente, dou-me conta de que uma delas está enfaixada. Um tipo de curativo cinza ao redor dela. Daí o motivo da bengala.
– Levante-se, filho! – Sua voz é rouca e vivida. A partir do momento que o olho vejo traços de sua idade. Talvez seja por isso que ele queira esse tal Brilho Ocular. Talvez ele queira um herdeiro para substituí-lo.
Eu obedeço, e lentamente vou me desfazendo da minha posição e me esticando em frente a ele. Não lembro do meu avô, se tive ou se ele morreu antes de eu nascer. Mas Graznavadan era perfeitamente alguém que eu seria capaz de chamar de avô.
– Ele o tem, senhor. – Gonna estava muito mais calma do que quando a vi. Com as mãos para trás e uma expressão assustadoramente respeitosa. – Vimos o Brilho Ocular em seus olhos. Nós o vimos.
– Então o trouxemos aqui para que o senhor o visse pessoalmente. Pensei eu que talvez ele fosse um Desprovido De Sonhos, então não o dei o devido valor até o momento em que… em que vi o Brilho em seus olhos. – Alaze olhou para mim mais uma vez, como se quisesse checar novamente o brilho que havia visto nos meus olhos há um tempo atrás.
Graznavadan olhou para mim e suavizou um sorriso. Pôs a bengala a frente e suspirou o ar do salão, enquanto eu me sentia desconfortável por não saber o que estava acontecendo.
– Como se chama, filho? – Ele inclinou a cabeça, mas nem assim a coroa presa as seus fios grisalhos desabou de cima.
– Hector. – Sei o meu nome. Isso me pega de surpresa.
A minha voz saiu falha, quase que como eu tivesse distendido um músculo facial.
– Acho que teremos muito o que conversar, Hector. Saiba que o seu Brilho Ocular salvou o nosso reino. – Graznavadan riu e rugas surgiram ao redor dos seus olhos.
Olhei por um momento para Gonna e Alaze, e ambos sorriam. Não sabia porque eu era tão importante, mas se eu estava causando tamanha alegria naquela gente, eu me sentia feliz. Me autorizei a sorrir também.
Longe dali, através das vidraças que circundam o salão no alto vejo centenas de fadas batendo asas e sorrindo.
E me dou conta de que ficarei nesse lugar por um bom tempo…

Proposta de desenvolvimento vencedora do nosso escritor Sorley Sales:

Uma brisa quente bate no meu rosto. Deslizo os dedos pelo tronco de uma árvore sentinela, e os meus braços apoiam-se nela como se me puxasse para fazer parte definitivamente daquele mundo.
Não há muito que conheci Graznavadan, e antes disso, não sabia que existia. Não sabia que fadas existiam. Não sabia que esse mundo existia. E embora tudo pareça envolvido num material resistente de irrealismo, sinto que agora faço parte desse mundo. E minhas escolhas convergem a um só ponto. A um só lugar.
“Saiba que o seu Brilho Ocular salvou o nosso reino.” As palavras de Graznavadan continuavam a irromper na minha mente. Eu realmente não sabia o que era importante, o que era necessário para que ele me dissesse aquilo. Algo muito importante idealizava o poder de Graznavadan. E era exatamente o que eu iria buscar.
– Trinta anos! – A voz rouca dele atinge meus ouvidos num acorde forte.
– Como? – Me afasto da árvore sentinela e olho para Graznavadan, que está atrás de mim, apoiado na bengala e almejando um sorriso torto. Os seus olhos se direcionam para a árvore e eu vejo que nessa posição a sua cabeça faz com que as escamas no lado esquerdo do rosto brilhem num tom mais esbranquiçado com a luz do sol.
– Há trinta anos, quando eu cheguei a esse mundo, as fadas me idolatraram e plantaram essa árvore como forma de me seguir enquanto ela florescer. – Os cabelos brancos caíram pesadamente sobre o ombro. A bengala movimentou-se para a frente e ele veio na minha direção. – Venha, Hector. Teremos muito o que conversar.
E era exatamente a esse ponto que eu queria chegar. As explicações.
Graznavadan me levou por um caminho bifurcado de ervas e flores laranjas. Os seus passos são lentos, então tenho bastante tempo para olhar em volta e sentir a magia da floresta. Algumas fadas estão se deslocando de dentro de seus chalés de madeira e cipós para o alto das montanhas. A alguns metros dali, vejo Gonna ajudando uma outra fada que parecia desorientada em meio a tanto tumulto. Lembro que quando Graznavadan me encontrou pela primeira vez elas sobrevoaram o grande salão fazendo festa, e ser carregado por quatro homenzinhos com asas numa altura de vinte metros não foi uma das melhores sensações que tive, confesso;
Chegamos a um rio com uma ponte plana o cruzando; As águas cintilam por todo o vale que estou observando, e uma grande cachoeira jorra água por entre as rochas sedimentares no alto. Nessa claridade Graznavadan parece uma figura mais apresentável. Se considerar suas vestes.
– E então, Graznavadan… Por que você precisa de mim, por que esses seres precisam de mim? – Olho para algumas fadas que bisbilhotam de cima do monte, e se escondem logo em seguida. – E o que é esse Brilho Ocular que vocês tanto procuram?
Ele não olha para mim. Mas sua voz sai tão limpa quanto a água do rio.
– Eu não preciso de você, Hector! – Agora os seus olhos pesam em mim, mas desviam-se em seguida para as fadas que nos sobrevoam. – Eles precisam.
Ergo a minha cabeça para olhá-los. Os seres fantásticos que conheci nesse mundo.
– Quando eu cheguei aqui, há trinta anos, eu estava completamente perdido. Não sabia onde estava, quem eram esses seres ou o que eu estava fazendo aqui. As minhas roupas estavam amarrotadas e rasgadas, como se um animal feroz tivesse me atacado minutos antes. – As palavras de Graznavadan me faz relembrar a minha situação quando cheguei. Exatamente como ele. Deixo o queixo cair. – Logo depois, as fadas me acolheram. Levaram-me para um pequeno castelo no interior de um bosque rasteiro, com gramas por todo lado. Dias depois eu as ajudei a construir uma grande moradia, e elas me acolheram como seu suserano. Passaram-se alguns dias e imagens começaram a surgir em minha mente. Logo descobri como eu vim parar nesse mundo. – As suas pupilas brilharam ligeiramente, num toque de emoção. Ele olha para mim e me dou conta de que saberei da verdade nesse exato momento. – Há trinta anos eu estou em coma no mundo real. Eu estava viajando com o meu amigo de infância, um piloto, no seu avião. Lembro-me que não estava um bom dia, e o motor falhou. Foi quando a aeronave perdeu a direção e caiu. E daí, eu acordei aqui. Nesse vale. Nas margens desse rio. Eu era escritor, e tinha um talento enorme de criar e sonhar. Talvez esse seja o único motivo porque eu esteja aqui, nesse mundo, há trinta anos. Talvez esse seja o motivo porque você está nesse mundo, Hector. – A sua mão toca o meu ombro direito, enquanto os meus olhos refratam do chão ao rio, buscando memórias perdidas no fundo da minha cabeça. – Você irá saber quem é você, quem foi você no mundo real. E você é a pessoa certa para reinar esse lugar. Você será o meu sucessor. E quando uma pessoa sonha, independente de dificuldades e problemas, ela tem o Brilho Ocular. Pessoas nos dias atuais no mundo real acabam sendo orgulhosas o suficiente, preocupadas com a vaidade e riqueza. E a única certeza que você pode ter, é que se você está aqui, é porque você não se importa com nada disso, Hector. Você não é um desprovido de sonhos. Você é especial. Como eu.
As palavras de Graznavadan me dão um soco emocional, e pesam em mim como um peso de toneladas e mais toneladas. Eu precisava descobrir o que tinha acontecido comigo no mundo real, o que me fez ficar em coma. Mas a minha pergunta nesse momento é outra:
– E qual o motivo de você estar querendo urgentemente um sucessor?
Sinto que a minha pergunta foi como uma mão se fechando ao redor do coração de Graznavadan e o apertando.
Ele engole em seco.
– Por mais que eu não esteja no mundo real agora, eu sinto que todo esse tempo a esperança de vida se esvaiu das pessoas que eu amo. Eu sei que durante esses trinta anos eles lutaram bravamente, e sinto que vão desligar os aparelhos hospitalares. É como uma linha fina que liga esse mundo com o deles. Uma linha frágil e pronta a se partir a qualquer momento. O meu tempo está acabando, Hector. E só você pode trazer esperanças para esses seres.
As palavras de Graznadavan me atingem furiosamente, e a única coisa em que consigo pensar é se a minha família, seja ela qual for, teria coragem para fazer isso. Acabar com qualquer esperança que traga a vida novamente para mim.
Algum tempo depois eu estou com Alaze e Gonna na Terra Dos Chalés, que é como eles a chamam. Alaze está muito mais sorridente do que quando o vi pela primeira vez, um dia antes. E Gonna tenta chamar a atenção das outras fadas para me apresentar formalmente para algumas delas.
– Hector, eu quero que conheça Flimm, Trivian e Plue. – Fala Gonna, me pondo a frente três seres com asas cintilantes.
Flimm é mais pequeno que as outras fadas, mas é o primeiro a me cumprimentar. Trivian tem longas mechas de fios dourados pendendo da cabeça e olhos lilás. Plue tem a boca apertada num risco pincelado de marrom, os seus olhos lembram as águas do rio do vale.
– Então… Esse é o novo sucessor de Graznavadan! – Um ser, um pouco maior do que os outros, com asas com o dobro do tamanho se apresenta. O seu olhar é de raiva e maldade. O seu sorriso me causa calafrios, embora seja menor do que eu.
– E o mais correto sucessor! Ele tem o Brilho Ocular! – Alaze se aproximou e encarou o ser saidinho e raivoso.
– O meu pai foi o Senhor e Rei do nosso reino antes de Graznavadan surgir! Agora ele está a fim de colocar um sucessor no cargo de suserano? – Ele riu mais uma vez. Aproximou-se e me olhou nos olhos. – Eu sou Sonega, filho de Civic, o antigo suserano desse reino. E se for por mim, quem reinará no lugar de Graznavadan será eu!
Ele sobrevoou o vale e foi acompanhado por mais de uma dúzia de fadas.
Alaze e Gonna olharam para mim de relance.
Graznavadan me pediu para reinar em seu lugar. E era isso que eu iria fazer.

Proposta de clímax vencedora do nosso escritor Sorley Sales:

Sete dias. Sete noites.
As minhas memórias crepitaram como brasas na minha cabeça, acendendo como uma tocha num vão negro há dois dias. Pelo menos parte delas. Agora sei, que além do meu nome, sei mais coisas sobre mim:
Sou Hector Tresh, morei durante muitos anos na Rua Row Bannavar, nº 513. Os meus pais Monique Tresh e Alan Tresh. A minha primeira namorada Ruthy Prernie e o meu melhor amigo Dave Dyan. E o mais necessário: Como entrei em coma.
Lembro de uma pessoa com chaves de um carro nas mãos, a jogando para cima e a pegando num certeiro movimento. Uma mulher. Ela põe a chave na ignição e o veículo ronca alto. Seguimos para um lugar muito importante, ainda estou confuso, e ela abaixa e tenta acender um cigarro. A última coisa que vi foi o pneu do veículo deslizando na estrada e ela girando o volante desesperadamente. E então, no primeiro capotamento, eu vi somente escuridão. E percebo, que quando me encontrei nesse mundo as minhas roupas estavam rasgadas e deformadas no meu corpo. Eu realmente lutara com um animal. Eu lutara com o mais feroz de todos e o sem piedade: a morte.
Há sete dias vivo num constante estado filosófico. Agora estou contemplando um céu alaranjado em tons escarlates. Quando visitei Graznavadan, logo após conhecer Sonega, enquanto a noite caía, Ele presenteou-me com uma cota de malha verde com pérolas embutidas num brasão dourado e carmesim. Uma flâmula pendia num mastro no topo da escadaria do grande salão.
– Recebi notícias do incômodo que Sonega lhe causou na Terra dos Chalés. – Graznavadan era velho, mas parecia envelhecer mais com os minutos. Estava branco como leite e demasiado cansado, e claro, a bengala que segurava a frente do corpo lhe atribuía um ar de inferioridade.
– Não, senhor. Não houve incômodo. Gostei de conhecê-lo e sei que é uma boa pessoa… desculpe, uma boa fada. – Eu permaneci onde estava, ali, no mesmo local que estivera no primeiro dia que entrei no salão. Mas agora, sem Gonna e sem Alaze, e sem fadas me olhando.
– Civic era cruel e cheio de virtudes maléficas. Era uma fada diferente que relacionou-se com outra fada, e dominou o reino como um legítimo senhor. A fada, senhora sua esposa, abandonou o filho recém-nascido na floresta e Civic a matou quando descobriu. Sonega cresceu sentado ao lado dessa cadeira. – Tocou o trono e bateu a bengala no chão. – Enquanto Civic fazia das fadas escravas de seu reinado. Quando cheguei aqui, ele já estivera morto. E todas as criaturinhas, com temor de sofrerem novamente, me nomearam rei desse lugar. – Sua coroa se sustenta nos fios brancos e ele diz: – Então, Hector. Você tem que me suceder. Perpetuar a paz nesse lugar, antes que Sonega tome esse trono. Irei embora a qualquer momento. Faça o certo, filho.
E agora, dias depois dessa audiência privada que tive com Graznavadan, soube que chegou a hora de agir. Sonega montou o seu exército a duas milhas do castelo. Graznavadan não sai mais do seu recinto, ficando cada vez mais pálido e límpido. Gonna e Alaze assumiram posturas de guerreiro e querem defender o lugar que amam. Junto deles, Flimm, Trivian e Plue com semblantes de defensores. Outras fadas que apoiam o reinado de Graznavadan pegaram a dianteira e estão numa muralha de corpinhos com asas na Terra Dos Chalés. E eu, que apesar de eu ser apenas um mero garoto, tentarei defender vidas inocentes. E puras. E outro instrumento que Graznavadan me presenteou como forma de arma de guerra: Um Cavalo Alado. Um lindo animal esbranquiçado com asas de quatro metros de cada lado do corpo, estendendo-se numa abertura de penas brancas e cintilantes. É uma boa arma contra os que querem se vangloriar regicidas.
– Nervoso? – Flimm se aproxima de mim e toca o meu ombro. Percebo que ele tem um arco e flecha na mão.
– Nem um pouco. – Respondo, sorrindo para que não percebesse que estou apavorado. – Você está?
– Não. Sonega tentou me matar uma vez e não conseguiu. Hoje vou prová-lo que sou forte o bastante para enfrentá-lo.
Flimm era um exemplo de grandeza, mesmo sendo uma pequena criatura com asas aparentemente inofensiva.
Algum tempo depois, ouço chamamentos e vozes nervosas do lado de dentro do castelo. Dou alguns passos longe das fadas que permanecem em guarda e tento saber o que aconteceu. Vejo Gonna sair da pequena porta do castelo e vir em minha direção.
– Hector! – O seu semblante era de preocupação. – Graznavadan… Ele…
Corro para o interior do castelo, a passos largos e precisos. Entro no grande salão e vejo que cinco a seis fadas se aglomeram ao lado da escadaria. Alaze está ao lado de Graznavadan, o apoiando.
– Senhor Graznavadan? – Ajoelho para ver o seu rosto. – O que aconteceu?
O seu rosto ergue-se e ele me olha. O seu olhar é cintilante.
– Hector. Eu não resis… resistirei a essa batalha. Chegou a hora de eu me despedir.
Nenhuma palavra saiu da minha boca. Nenhum som. Nenhum apelo.
– Tome. – Ele ergueu a bengala dourada e eu a peguei. Pesava em minhas mãos. – Retire o revestimento de cima. Eu quero que fique com ela. Que a use nessa batalha.
Retirei a parte de cima da bengala e me deparei com uma pedra verde-esmeralda brilhando à luz do sol. Era acoplada ao mastro do comprimento da bengala formando um bastão.
– Use-o. Defenda não só os meus, mas os seus princípios e em primeiro lugar a integridade desse lugar e dessas criaturas puras. Erradique o mal e perpetue a paz. A segurança do reino pende nas suas mãos, filho.
Graznavadan levantou-se. Lutando contra o próprio corpo. De pé ele parecia muito mais fraco. Uma luz tremeluziu atrás de si, e uma ventania soprou os cabelos grisalhos contra o rosto.
– E não esqueça, Hector. Você tem o Brilho Ocular. Você é o escolhido. – O seu corpo desmaterializou-se no ar e a luz azulada sumiu.
Todas as fadas davam as mãos e de cabeças baixas evocavam um tipo de oração, de despedida. E isso foi o suficiente para que uma força atingisse os meus ossos.
Minutos depois um som se ergue na floresta.
Estão chegando.
Tomo a dianteira com Sina, o Cavalo-Alado. Os meus olhos seguem cada barulho e cada tremor vindo. Olho para trás e vejo muitas fadas com flechas e outras com poderes mágicos. Noto Alaze com um bastão muito menor do que o meu, ele olha para mim e não esboça reação. Gonna está ao lado dele, com nada nas mãos, mas sei que ela tem poderes mágicos. Trivian, a fadinha com olhos lilás que conheci na Terra Dos Chalés, segura firme uma adaga e os seus olhos pesam no ar. Plue, a mais baixa de todas, bate asas e segura uma besta nas mãos. Pequena e valente.
– Preparem-se! – Grito, quando noto sombras esgueirando-se no campo.
Uma sombra estica-se no chão e percebo que estão atacando de cima.
Sina bate as grandes asas no vento e eu me ergo junto com o seu corpo. Agora estou no ar, com uma mão segurando firme a rédea de Sina e com a outra o bastão mágico de Graznavadan. Sei muito bem como conduzir o animal. Olho para baixo e fadas armadas com maldade atacam os defensores. Eles ainda não sabem que Graznavadan se foi, mas nem por isso vão deixar essa ocasião passar. Vejo as primeiras fadas no chão. Mortas. Outras feridas e lutando bravamente. Não estou encontrando Sonega no ar, então conduzo Sina para baixo. Nesse momento, Sina assusta-se com algo. Uma grande ave cinza enorme se projeta na minha frente e sobre ela está Sonega. Com um sorriso particularmente sagaz.
– O servidor de Graznavadan defendendo o reino. Que tocante! – O seu sorriso de desdobra mais uma vez e a ave gigante abre o bico e lança uma rajada de chamas negras.
Conduzo rapidamente Sina para o lado esquerdo, e dou meia-volta. O bastão acende e eu o direciono para Sonega. O raio esverdeado de energia se impulsiona dele e atinge a asa da ave. O grito dela provoca arrepio no ar e num contra-ataque Sonega parte em direção a mim. Com o rosto negro. Viro-me e sigo em uma só direção, voando sobre a floresta e sobre o Vale dos Chalés, o rio e a montanha triangular. Atrás de mim, Sonega lança rajadas de chamas negras por meio da sua ave. Os entroncamentos de árvores caem furiosamente. E no solo analiso luzes em cada ponto.
Sina passa por uma montanha danificada e eu o viro bruscamente. Suas enormes asas batem um rápido reflexo e o Cavalo-Alado ascende se projetando nas nuvens, evitando a cachoeira. Sonega tenta evitar, mas atinge as pedras da queda d’água e atinge as rasas águas no Lago Verde; Enquanto isso, Sina continua a subir, a subir, a subir; Percebo que uma rajada de energia da ave de Sonega atinge a asa direita do Cavalo-Alado.
E caímos. Numa queda mortal;
Sina bate a asa esquerda e luta com a direita para pousar, mas acaba sendo uma queda um pouco brusca.
Tento levantar e percebo que Sonega vem em minha direção. Nas mãos uma espada reluzente. Ele ataca. O meu bastão me protege num rápido movimento meu, e eu o afasto. O segundo golpe o aproxima, de cima para baixo. Aponto o bastão para a espada e uma energia a afasta das mãos dele. E num átimo aponto o bastão para ele e penso em Graznavadan. Um raio azulado o atinge no peitoral e o lança para longe. Quando olho para a ave cinza e gigante, ela boia nas águas verdes já sem vida. Sina está machucado, mas tento salvá-lo. Ele ergue-se um brilho atinge sua asa machucada. Ela se reconstrói imediatamente. Ele está inteiro novamente.
O corpo de Sonega repousa nas águas, em meio a rochas desgastadas. E vejo que que cada membro dele se transforma em cinzas douradas e voam. Se espalhando no ar.
– Tudo bem, amigão? – Aliso a crina de Sina e ele baixa a cabeça, relinchando. – Vamos lá!
Subo novamente nele e voamos de volta para o campo.
A batalha ainda não acabou. Então eu ajudo as outras fadas a derrotar o restante das fadas regicidas que apoiavam Sonega. Quando acabou, só restou poeira e destruição nos campos. Corpos caídos no chão. E ao olhar para uma parte devastada no campo, vejo os corpos de Flimm, Plue e Trivian sem vida. E num segundo eles transformam-se em cinzas douradas e se esvaem no ar. Lágrimas enchem os meus olhos. Alaze está parado junto ao castelo, com um braço machucado. Duas fadas o ajudam no ferimento. Desço de cima de Sina e ele trota a passos lentos pelo vale destruído.
– Hector! – É a voz de Gonna. Ela caminha em minha direção. Tem as escamas do rosto machucadas. – Você conseguiu!
Um sorriso se destaca no meu rosto. Uma sensação de vitória me invade. Logo vejo o semblante de Gonna mudar, e ela se apressa:
– Hector, cuidado! – Os seus bracinhos me empurram e eu caio. Perto dali, vejo a última fada regicida, com um arco e flecha em mãos. A flecha dispara e atinge Gonna no peito.
Giro o bastão e o atinjo com um raio que o dilacera em milhares de cinzas. Levanto.
– Gonna! – A tomo nos braços e vejo os seus olhos perderem o brilho. – Por que você fez isso?
– Eu não sei. – Ela é pequenina. E isso a torna ainda mais inocente. – Eu apenas o fiz.
Uma lágrima cai dos meus olhos.
– Você foi valente. A fada mais valente que eu já conheci. – Digo, apoiando a sua cabeça.
Gonna dá um sorriso, e nas minhas mãos cinzas cor de rosa se espalham. Se arrastando e espalhando-se no ar.
Todas as fadas estão ao meu redor. Alaze cai de joelhos no local onde Gonna estava caída.
– Eu a amava.
Apoio a mão em seu ombro.
– Tenho certeza que ela sabia disso.
Caminho de volta para o castelo. O Grande Salão está vazio agora. Fica difícil imaginá-lo sem Graznavadan. No meio dele está a coroa, caída e inteira. A recolho.
“Só há um alguém que possa reinar no lugar de Grazavadan” pensei. “E não sou eu.”

Proposta de desfecho vencedora do nosso escritor Sorley Sales:

Alaze é uma figura miúda e descompassada sentado no trono.
As mãos em torno do bastão reluzente e uma coroa grande o suficiente para causar uma estranha desproporção com a cabeça. Ele olha para mim, com os olhos grandes, parecendo bem mais simpático e anfitrião. Ele veste uma túnica laranja com pedras encrustadas no alto do peito, um traço azul em safiras cruzado do ombro ao joelho e as pernas pequenas demais para se manterem no chão.
– A magia de Sina parece manter-se afiada em seu corpo atarracado. Suponho que não precise de mais do que duas porções de Arsívia diariamente. – O cavalo alado relinchou alto e pulou os dois degraus para chegar ao lado de Alaze.
Porção de Arsívia era um medicamento com resultados mágicos usado para aumentar a vitalidade de um cavalo alado. Era feito por Ewaly e Nisha, as fadas com mais experiência nesse mundo. Viveram por um século, disse Alaze, enquanto eu o acompanhava a um passeio pela Ponte Noroeste. A Arsívia, quando dada em quantidades equivocadas e sem acordo com a espécie de um cavalo alado, poderia provocar envenenamento súbito do animal.
– Devo admitir que você fica bem melhor sentado nesse trono do que eu. – Confesso. – Embora Graznavadan tenha me tornado o seu sucessor real e confiar a segurança do reino em minhas mãos, sei que ele também tinha um certo apresso por você, Alaze. Talvez eu não tenha feito uma escolha justa, mas sei que fiz a escolha certa. – Fico parado diante dos degraus do trono e Alaze sorri.
Lembro neste momento de quando perdemos Gonna na Batalha de Sonega. Do minuto que ela sorria para mim, enquanto eu respirava aliviado pelo término da guerra, e um momento depois ela estar sufocando em meus braços;
Há três dias, enquanto Alaze espiava o Jardim Florido, eu desejei saber algo que nunca tive a oportunidade de perguntar a Graznavadan: Por que ele amava tanto aquele lugar a ponto de largar a vida real pela imaginação.
Alaze contou que Graznavadan sempre se sobrepôs a qualquer tipo de desastre humano, por isso preferiu a vida doce a uma amarga.
– Então ele poderia retornar? – Perguntei. – Regressar à vida?
– Sim. – Respondeu Alaze, caminhando ao meu lado. Com metade do meu tamanho. – Mas a escolha dele foi ficar e reinar, Hector. Você também tem a livre escolha de retornar para a vida real e esquecer tudo o que aconteceu.
– Esquecer tudo o que aconteceu? – Pergunto.
Neste momento um trompete soa longe.
– Vamos, é hora do toque de recolher. – Alaze virou-se e eu apenas o segui.
Há muito que estou neste mundo. Há muito que eu presenciei a morte de Graznavadan e Gonna, e sei que tudo o que fiz por esse reino transformou-se em um canto sagrado dentro de mim, como uma lembrança boa, somente com finais ruins. Deito na grama vermelha no alto de uma montanha. A minha cabeça não está pesando tanto com decisões ultrajantes. Sei que posso me dispor a esse reino e ajudar Alaze com todas as fadas e a perpetuação dos bons seres. Mas também sei que tenho a escolha de voltar para minha vida, seja ela boa ou ruim, porque sei que talvez tenha pessoas precisando de mim no outro lado, tenho conhecimento de que se eu voltar traga alívio para os meus pais. Para minha família.
Fecho os olhos e o sorriso da minha mãe passa pela minha mente, a maneira de como ela me abraçava e me erguia, contraindo os lábios para um longo beijo logo em seguida. Tudo agora parece girar em um só plano no interior da minha mente, descendo como uma cachoeira e desaguando em um rio de lembranças. Quando os abro, tenho a rápida sensação de que estou em casa, o meu quarto aquecido com meus familiares e minha mãe segurando a minha mão do meu lado. Mas vejo somente as estrelas verdes piscando no céu, e duas fadas passarem rapidamente com madeiras para estocar na Terra dos Chalés. Algo quente desliza da minha pupila para minhas bochechas: Uma lágrima sofrida e longa o suficiente para gotejar.
Não poderia perder mais tempo.
Já tinha a minha decisão.
O dia seguinte veio rápido, com um raio de sol entrando no meu quarto espaçoso no Castelo de Alaze. Levanto da cama com tecidos grossos e sedas macias, o que dava a sensação de conforto demasiado agradável. Sinto-me um consorte há dias, nada parecido com o garoto que chegara aqui há muitos meses. Direciono-me para o salão central, onde Alaze alimenta Sina com uma Porção de Arsívia. O cavalo alado se alimenta, enquanto as enormes asas se estendem e recuam, espantando algumas folhas secas do chão.
– Eu vou sentir a sua falta, amigão. – Digo, tentando não me tornar alguém com quem Alaze poderia contar até o resto dos seus dias.
Ele olha para mim e esboça um sorriso frágil. Como sempre.
O cavalo alado se dirige à porta de saída, percorrendo o caminho da caverna escura.
– Tem certeza de que quer isso? – Alaze está com uma túnica dourada naquela manhã, com pratas em um colar estirando-se do pescoço magro.
– Já obtive a minha decisão. Por mais que eu ame este lugar, esses seres, eu não seria capaz de abandonar a minha família, o lugar de onde eu vim e as pessoas que me amam. Sinto muito só de pensar que elas estão sofrendo por mim agora. Não me perdoaria se eu fizesse isso.
Alaze se aproximou de mim e com o corpo pequenino lançou os braços ao meu redor. Com a túnica se arrastando pelo chão ele parecia maior do que realmente era, e honestamente falando, ele era Grande.
Conversamos por mais algum tempo antes que Alaze reunisse todas as fadas no Campo. Juntas deram as mãos e formaram um enorme círculo ao meu redor. Alaze projetou-se na minha frente, enquanto eu me ajoelhava perante ele. O bastão cruzou o Campo junto com ele.
– A pronúncia a Hector Tresh, guerreiro da Batalha de Sonega e defensor do reino. Sucessor de Graznavadan e abdicado por si. Segundo Dono do Brilho Ocular e supremo ser das fadas. – Entoou Alaze, e todas as fadas disseram as mesmas palavras. – A luz dos seres bons o levará para a entrada do seu mundo, as asas de nossas fadas o encaminhará para seu destino, e o seu retorno trará felicidade para os que te idolatram. O Brilho Ocular sempre viverá em você.
O bastão tocou no alto da minha cabeça e um choque preencheu cada membro meu. Fada a fada apagou-se no tempo e luzes cromáticas atingiram meus olhos, senti uma leve pancada e um ar diferente entrando pelas narinas…
Eu… Como eu… Onde estou?
A minha cabeça dói como nunca ocorreu e os meus olhos abrem-se e vejo um teto branco sobre mim. Estou deitado em um cama nada confortável, como se eu tivesse ficado tanto tempo nela que parecia desagradável o suficiente para me incomodar. Uma mulher está parada ao lado da porta e um homem a abraça amorosamente, enquanto ela chora. Agora me recordo. Meus pais. Outro homem, um médico, está do lado da minha cama olhando o aparelho a sua frente, e uma enfermeira recolhe panos de uma poltrona próxima. Tento esboçar alguma reação, mas o meu corpo parece estasiado o suficiente para isso. Tento falar, e é impossível. Enquanto o médico estabelece todos os procedimentos, sinto o mesmo ar entrar e sair das narinas. Agora parece familiar.
Tempos depois de ter saído do hospital, estou caminhando com minha mãe em direção à Biblioteca Rewis Coonest, que fora inaugurada há três meses. Foi o que o meu pai me falou, pelo menos. A fachada era verde com o grande nome da biblioteca destacado no alto. Entramos pela porta de vidro.
Todos os livros estão separados em corredores enormes, em prateleiras de dois metros de altura. Uma hora depois, estamos nos direcionando à recepção. A minha cadeira de rodas é empurrada pelo meu pai, enquanto minha mãe separa os livros no balcão.
A recepcionista é uma mulher vivida, com traços marcantes nos olhos, os fios grisalhos pendendo do alto da cabeça numa cascata apática. Os meus olhos perseguem uma borboleta no alto do salão e o inseto me leva para um quadro posto atrás da recepcionista. É grande o suficiente para que todos olhem. O homem na pintura é muito elegante, com uma barba negra cobrindo boa parte do maxilar e os olhos bem vivos. Nunca o vi. Mas uma sensação me ataca repentinamente. Decido ignorar. Antes de ir embora passo os olhos pela mulher velha na recepção novamente e dessa vez noto que há um crachá no seu peito com um nome: Sra. Graznavadan.
Direciono o olhar para o quadro e leio embaixo, ao lado da rosa vermelha enfeitando o terno do homem: Em consideração a William Jay Graznavadan.
Um minuto depois estamos fora da biblioteca. Continuo com aquele nome na cabeça, tentando me recordar se alguma vez já o ouvira. E sabia, que em algum lugar, no fundo da minha mente, estaria a resposta.