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Proposta de apresentação vencedora da nossa escritora Kellen Bonassoli:

**** 10/08 08h30 ****
Em meus braços ela é tão pequena e delicada. Andar ao seu lado, com o sol suave da manhã é realmente um presente. Ela não conhecia o mar, nunca tinha sentido a grandiosidade de um oceano e agora contemplava a praia com felicidade e assombro.
Barquinhos perdiam-se no horizonte do infinito do seu olhar. Ela segurava minha mão com firmeza enquanto tentava absorver toda a paisagem.
**** 06/08 – 17h58 ****
– Estou com medo, papai.
– Estamos quase conseguindo, Estrela.
– Eles não vão me deixar ser livre, papai. Eu sei que não vão.
– Segure firme. Está pronta pra pular?
– Te amo, papai.
– (espero que o rastreador resista) 1, 2, 3 e já!
**** 05/08 – 09h46 ****
“Atenção, Doutor Marcelo. Compareça ao setor 5, leito 42 da Ala Experimental B. Atenção, Doutor Marcelo. Compareça ao setor 5, leito 42 da Ala Experimental B.”
(*)
Eu decidi que aquela seria a última amostra que eu retiraria dela.
Olá, eu sou o Marcelo. Sou médico e cientista em uma instalação de segurança máxima. Quer dizer, na verdade eu não sou ninguém, tecnicamente eu fui apagado, jamais nasci e o meu aqui você pode chamar de “lugar nenhum”. Esta instalação sequer existe. Entende?
Eu não tenho orgulho do que tive que fazer para chegar até “lugar nenhum”. Não mesmo. Nos primeiros 07 anos eu realmente acreditei que poderíamos salvar o mundo. Acreditei que encontraríamos a cura para a humanidade.
Besteira.
Eles não querem curar ninguém.
Toda a pesquisa experimental serve apenas para os propósitos de um mal maior. Você não vai gostar de saber disto.
E eu estava indo bem sendo um monstro, mas isto foi antes dela. Antes de Estrela.
Fui eu quem encontrou seu abrigo.
Na verdade não deveríamos dar nomes a eles. São apenas números e tubos de ensaio. Qualquer simpatia é condenável e perigosa para a pesquisa. Eu sabia que não poderia me envolver, mas eu não consegui virar as costas e dei a ela o mesmo nome da minha filha: Estrela.
A minha pequena Estrela, a primeira, minha filha amada.
Ah, que saudades.
Minha pequena Estrela existe apenas nas minhas memórias mais dolorosas.
Abandonei toda a minha humanidade quando perdi sua luz.
Sabia que aceitar este emprego significaria abdicar da minha própria existência, mas agora eu estava sozinho mesmo.
Que diferença faria, não é!?
**** 06/08 – 18h00 ****
O vento levou os dois para uma distância quase mortal. O avião explodiu assim que o contador chegou em 18h00. Eles sabiam que não conseguiriam ir tão longe e Marcelo era capaz de burlar cada uma das medidas de segurança deles. Afinal, não tinha sido ele o principal desenvolvedor daquela monstruosidade?
Com Estrela seria diferente. Ela era de outro tipo. Uma forma de vida completamente nova. Marcelo ainda lembrava, com lágrimas de euforia, do dia que percebeu que podia ouvi-la em pensamentos.
Estavam conectados.
Foi ela quem escolheu o nome de Estrela.
Ela disse a ele que este nome tinha uma intensidade linda dentro de sua mente, Estrela brilhava de cores caleidoscópicas e cintilantes e ela amava como estas cores faziam cócegas em seus sentidos.
Abriu o paraquedas com Estrela aninhada em seus braços. A menina encolhera-se toda ao som da explosão e recusava-se a olhar os destroços flamejantes da pequena aeronave que abrigara a fuga dos dois. Metal retorcido caindo do céu.
Marcelo sabia que poderiam não sobreviver, mas fugir daria pelo menos uma chance de mudar tudo.
Era só nisso que ele pensava: na chance.
O impacto desajeitado fez com que rolassem na grama. Por pouco não bateram em uma árvore. Marcelo instintivamente abraçou e protegeu Estrela da queda, mas não teve tanta sorte consigo mesmo.
– Droga. Droga.
– O que é isso, pai?
– É sangue, Estrela. Não olhe.
– Eu posso consertar.
Sorriu para ele enquanto tocava sua perna mesmo sob protestos. Sua mão agora estava completamente lambuzada com o sangue de Marcelo, mas o corte de sua perna já não estava lá.

 

Proposta de desenvolvimento vencedora da nossa escritora Kellen Bonassoli:

***20 de novembro de 1980***
– Sinto muito, senhor Marcelo. Perdemos Aline, mas o bebê ainda tem chances.
A voz da médica perdeu-se na angústia daquela notícia. Abandonado, sozinho. Uma sensação de revolta, impotência e culpa.
Ah, Aline. Você sempre foi o meu farol, meu caminho, minha companheira. Quem poderia imaginar que o cataclismo chegaria de forma tão sorrateira?
Deveria ter sido eu sob os destroços. O que eu vou fazer sem você?
***20 de novembro de 1984***
– Assopra a velinha, Estrela.
Sorrindo eufórica para as pessoas que aplaudiam e, até mesmo, um pouco confusa com a profusão de cores e personagens que a cercavam, a pequena garota, no colo de seu pai, enchia os pulmões decidida e concentrada como se estivesse preparando-se para um grande desafio, talvez o maior dos seus singelos 4 anos.
Inclinada sobre o bolo e sentindo o calor da chama bem próximo de seu rosto, soprou uma única vez com toda a força e assim extinguiu a chama tremeluzente. As palmas e gritos inundaram seus ouvidos e seu sorriso fez os olhos de Marcelo iluminarem-se também.
– Parabéns, bonequinha do pai. Agora já pode comer brigadeiros, brincar e daqui a pouco a gente vai abrir os presentes.
Mal soltou Estrela no chão e ela já corria para o salão colorido de crepom, balões e crianças saltitando.
***06/08 – 18h00***
Droga. Droga.
– O que é isso, pai?
– É sangue, Estrela. Não olhe.
– Eu posso consertar.
Sorriu para ele enquanto tocava sua perna, mesmo sob protestos. Sua mão agora estava completamente lambuzada com o sangue de Marcelo, mas o corte de sua perna já não estava lá.
Marcelo sentiu a mente conectada com a dela e uma sensação tranquilizante e morna em sua pele. Seus pensamentos ficaram turvos e entrelaçaram-se aos dela num instante que pareceu estender-se por muito mais tempo do que aquele breve toque. Sentiu sua mente sendo tragada para dentro, para baixo, para longe e mergulhou em pensamentos obscuros e multicoloridos sem compreender quanto daquilo era seu e quanto daquilo era dela. Um rosto de olhos verdes que evaporava, vozes misturadas sussurrando seu nome, uma frase que se repetia em som, texto e símbolos embaralhados: “A vida, o passado e o futuro repousam no fundo do mar”
Emergiu de forma brusca e tão incomoda quanto o despertar dum sonho em que se está sempre em queda. Ao abrir os olhos, demorou alguns segundos para entender que o sangue nas mãos de Estrela era apenas dele.
– A vida, o passado e o futuro repousam no fundo do mar.
– Sim, papai. Eu ouvi também.
– Precisamos rastrear a caixa, não deve estar longe. Com ela teremos uma chance.
– Estou muito cansada.
Fechou os olhos e adormeceu.

Proposta de clímax vencedora do nosso escritor Guilherme Porfírio:

**06/08 – 10h22**
-Quais são os planos dos nossos superiores? Porque eles decidiram nos transferir? – Perguntei curioso.
-Marcelo- Respondeu-me Lucas, um rapaz de cabelos ruivos bagunçados olhando ao redor como se temesse que alguém nos escutasse – Preciso te contar uma coisa.
-Oque é? Você está me assustando!
-É sobre o seu envolvimento com o experimento…
-Garota! Ela é uma garota! – Não gosto quando se referem à Estrela dessa forma.
-Com a garota, que seja, é que a direção tem os observado de perto e não está nada satisfeita… Eles planejam… – Ele continuava olhando ao redor preocupado.
-Planejam oque Lucas?
-Eliminar vocês.
-Oque, mas quanto à transferência?
-É uma emboscada, vocês voarão para uma emboscada… Às dezoito horas…
-Oque acontece às dezoito horas?
-Tem uma bomba no avião de vocês, ela detonará a essa hora, é o momento em que estarão sobrevoando a mata fechada…
-Onde as buscas por destroços de aeronaves ou sobreviventes são quase impossíveis… – Eu disse devagar, processando os dados – Eu já vi fazerem coisas assim antes, sei que são capazes. Droga, Oque nós faremos?
-Tem um paraquedas no avião de vocês, eu deixei escondido na cabine de pilotagem, não haverá ninguém lá, a aeronave é uma das automáticas e estará sendo controlada pelo diretor.
-Quanto tempo você acha que levaria até eles descobrirem tudo? Até eu você e ela pagarmos o preço por isso. Não vai dar certo. Assim que pularmos eles mandarão alguém atrás de nós. E mesmo se sobrevivêssemos, que vida nós teríamos lá fora? Eu não sou ninguém, se lembra?
-Bem… Acho que você não tem escolha… Além do mais, como você disse, na mata fechada é quase impossível encontrar alguém… Quanto à documentação de vocês, eu darei um jeito, posso conseguir históricos de escolaridade, identidades e até dinheiro… Só que eu preciso de mais algum tempo, além do mais, vocês não vão conseguir embarcar com essas coisas, serão totalmente revistados. Eu enviarei em outra aeronave.
-Nos enviará?
-Sim, eu sei, parece loucura, mas… Eu venho trabalhando nisso… É uma caixa transportadora, um jato automático qualquer pode levá-la à mata e então eu a lançarei lá. Bastará que vocês a encontrem.
-Como nós encontraremos uma caixa no meio da mata?
-Com isso – Disse ele retirando do bolso do seu jaleco empoeirado um aparelho cinza escuro com uma tela preta piscando um ponto vermelho – Um rastreador pareado com a caixa, assim que for lançada, a luz ficará azul, e então… Bem… Você sabe é só seguir…
-Por quê?
-Porque vocês precisam da caixa.
-Não… Digo, por que você está nos ajudando Lucas?
-Porque eu sei como é… Eu não sou mais ninguém também, mas um dia eu fui e acredite… Eu sei como é perder tudo… Não ter escolha… Você é meu único amigo aqui Marcelo… Eu farei oque puder para que você tenha outra chance de viver lá fora. Boa sorte.
**06/08 – 17h32**
-Estamos prontos para detonar Lucas? – Perguntou o diretor.
-Quase tudo pronto doutor… Ainda faltam trinta minutos, calma.
-Quero a imagem das câmeras da aeronave na tela, por favor.
-Não será possível, as câmeras parecem estar com defeito…
-Oque? Como assim? Então como saberemos se foram executados?
-Eles serão pegos de surpresa, chefe, não tem como escapar!
-Me arrume uma aeronave muito rápida e um piloto, agora.
-Oque pretende fazer?
-Me certificar de que o trabalho será bem feito- Disse arqueando as sobrancelhas grisalhas.
**06/08 – 17h 58**
-Quero o cartão de acesso ao setor 5, leito 41 da Ala Experimental B, por favor – Seu nervosismo transparecia na sua pele refletindo pelo suor frio que umedecia seu cabelo ruivo.
-Aqui está… Você está bem Lucas? Parece-me um pouco… Pálido.
-Estou ótimo – Disse apanhando o cartão da mão da secretária.
Caminhou em seguida à passos largos em direção ao setor cinco.
Leitos 37 e 38 – Contava enquanto ultrapassava as macas com números de dois em dois – 39 e 40, e finalmente 41 e 42, o 42 estava vazio, era o antigo leito de Estrela.
-Vim falar com você – Disse Lucas dirigindo a palavra à uma garota que estava deitada no 41.
-Vão me transferir também?
-É sobre sua amiga, a garota do 42, ela está correndo perigo.
-O que? O que houve com a Estrela?
-Era uma armadilha, se lembra daquela coisa de quando vocês se conectavam por pensamento?
-Oque houve com ela? Lembro-me, por quê?
-Preciso que você de um recado a ela!
A garota estendeu as duas mãos e colocou as sobre os ouvidos de Lucas, então flashes de memórias piscaram em sua mente.
-Oque você fez?
-Li a sua mente, desculpe, não se pode confiar em tudo oque ouve.
-Agora acredita em mim?
-Sim, mas não sei se vai dar certo, eu nunca tentei um contato a uma distancia assim… Diga-me qual o recado.
Ela colocou as mãos na própria cabeça e pressionou os olhos concentrada nas palavras de Lucas.
-O diretor se enfureceu por não conseguir acessar as câmeras da aeronave, então convocou um guarda e um piloto para irem se certificar que foram executados… Eu não podia enviar a caixa para a mata, pois não é mais seguro, precisam sair daí, então eu lancei remotamente a caixa no único lugar onde só alguém com um rastreador preciso conseguiria encontrar. O oceano. Não está longe da praia, apressem–se. Saiam da mata o mais rápido possível – A garota tremia na cadeira, deixando escapar alguns grunhidos de dor – Diga a eles que a vida, o passado e o futuro deles repousam no fundo do mar!
Então o nariz da garota começou a sangrar, e ela caiu no chão em convulsão debatendo se aos berros. Então parou.
-Está tudo bem? Meu deus, oque houve?
-Esta tudo bem agora – Disse enxugando o vazamento com o antebraço – Mas temo que sua mensagem não tenha sido entregue, ao menos não inteira, foi muito difícil estabelecer a conexão… E… Eu tentei passar o recado de varias maneiras, mas… Foi o melhor que eu consegui.
-Está bem, vamos torcer para eles terem recebido, oque foi que aconteceu?
-Isto? – Disse ela referindo-se ao sangue – Acontece sempre que forçam nossos limites, oque acontece todos os dias, estou acostumada.
-Eu sinto muito…
-Eu sei, eu li sua mente, eu sei tudo sobre você… Sei sobre o seu plano maior, sei oque quer fazer com esse lugar muito em breve…
-Eu faria agora se pudesse.
-Bem… Eu conheço algumas pessoas com habilidades incríveis por aqui, se lutarmos no mesmo time, creio que estaremos em incrível vantagem.
Disse a garota sorrindo com os lábios.
Lucas sorriu de volta, orgulhoso.
**06/08 – 18h02**
-Estrela! Você ouviu isso?
Então rajadas de vento começaram a balançar as folhas altas das arvores.
-Um helicóptero!
-Precisamos fugir!
-Para onde?
-Vamos seguir o rastreador, por aqui papai!

Proposta de desfecho vencedora do nosso escritor Guilherme Porfírio:

-Quem está no helicóptero papai?
-Não podemos arriscar, Lucas alertou que se alguém suspeitasse de algo viriam atrás de nós…
O helicóptero sobrevoava a mata fazendo as árvores dançarem aquele som estrondoso e amedrontador, Estrela mantinha abertos seus olhos cansados, sem saber oque fazer.
-Precisamos seguir o rastreador!
-Sim! Naquela direção – Disse Estrela que segurando o aparelho.
Então corremos, desviando dos troncos e subindo oque aparentava ser uma pequena colina na mata escura e úmida. Então dei um passo em falso e Estrela agarrou a minha mão. Apontou para frente.
-Droga! – Um penhasco, um precipício que dava acesso ao mar, mas era alto demais para pensar em pular, e além do mais perigoso demais, poderia ter pedras lá em baixo.
-Marcelo, nós viemos resgatá-lo assim que soubemos do acidente – Disse uma voz no autofalante, o helicóptero havia pousado.
Estrela me olhava séria, então eu a ouvi em meus pensamentos.
Ele está atrás das folhas à direita, e está armado papai.
Estrela, eu preciso que façamos uma coisa, mas você não pode ter medo, está bem?
Não vou ter, se você também não tiver.
Precisamos pular. Há agua lá em baixo, vamos sobreviver… Além do que de acordo com o rastreador estamos perto da caixa, ela estar lá embaixo.
A vida, o passado e o futuro repousam no fundo do oceano…
Foi oque isso quis dizer, a caixa está lá! No mar.
Contaremos até três, tudo bem?
Ela me olhava amedrontada, eu podia ouvir alguém se aproximando por detrás das árvores.
Um. Estrela, eu sinto muito por tudo isso…
Dois. Eu entendo, e eu te amo papai.
Três. Eu te amo.
Então nós saltamos, eu vi seus olhinhos regados de lágrimas contidas. Eu ouvi o seu grito no ar. Pular de um penhasco não é tão lento quanto pensava… Você não tem tempo para absorver nada, não vê o céu ou o mar, só sente a mistura de sensações de repente. Não tem explicação melhor, é isso, uma mistura de sensações surpresas de repente. O calor da adrenalina de pular, o frescor do vento no ar e o gelado da água.
Eu estava na água agora, não via Estrela ao meu redor, olhei de um lado ao outro submerso no gelado, então voltei à superfície.
-Estrela! – Gritei com todo o ar me restou nos pulmões, para todas as direções possíveis – Estrela!
Pude ouvir, em meio ao barulho das ondas, que lá em cima o helicóptero voava outra vez. Droga, onde está ela? Eu não posso… Não posso perdê-la… Outra vez… Por favor… Estrela!
Então num piscar de olhos memórias delas me assombraram… Aline, Estrela, a minha família. A minha vida se foi em um piscar de olhos, de repente eu me senti ninguém de novo, só pela possibilidade de eu não tê-la mais.
Papai
Então sua voz doce soou na minha mente.
Estrela! Você está bem? Onde está?
Em baixo, na água, aqui é… Assustador.
Consegue vir até a superfície?
Consigo, estou te vendo daqui, mas eu preciso fazer uma coisa antes… A caixa.
Estrela volte para cá, nós iremos atrás da caixa juntos… Estrela?
Então ela se silenciou, enquanto o som do helicóptero tomava conta dos meus ouvidos. Então o mar, o helicóptero e os tiros soaram juntos como uma sinfonia, misturando os seus sons.
-06/08 – 18h06-
O mar é diferente do que eu pensei. Mais frio, maior, mais escuro.
Aqui no fundo principalmente…
Lembre se dos treinos nos tanques, não é diferente, é como um tanque só que… Gigantesco. Oque são aquelas coisas coloridas? Tem arvorezinhas aqui em baixo, isso é tão esquisito.
Quando olhei para cima eu o vi, papai, suas perninhas aqui de longe tão pequenas batendo para se manter na superfície, ele parece estar voando daqui.
o rastreador indica que a caixa está muito perto, mas eu não consigo ver…
Papai! – Eu pensei com força para que ele ouvisse.
Estrela! Você está bem? Onde está? – A voz dele me parecia desesperada.
Em baixo, na água, aqui é… Assustador.
Consegue vir até a superfície?
Consigo, estou te vendo daqui, mas eu preciso fazer uma coisa antes… A caixa.
Então eu perdi a conexão com os nossos pensamentos, talvez a cabeça dele esteja preocupada demais com alguma outra coisa.
Papai?
Então a onda lá encima começou a se mover de uma forma estranha, era o vento, o vento que o helicóptero fazia encima da água. E então os tiros. Tiros passando pela água, balas cortando as ondas enquanto perdem a velocidade, mas uma delas não acertou só a agua. Papai estava sangrando, eu podia ver a mancha que saia de sua perna.
Só mais um pouco, só mais um pouco, não posso me desesperar. Eu queria respirar, mas a superfície estava longe demais para eu pensar em ir e a caixa perto demais para eu pensar em desistir. Eu podia vê-la agora. Há três metros à minha direita. Mergulhei em sua direção. Meu pulmão apertado pela falta de ar. Meu coração apertado por causa do papai.
A caixa estava em meus braços. Na superfície, um barco se aproximava do corpo de meu pai enquanto o helicóptero saía.
Eu queria chorar, sempre tive vergonha de chorar perto dos meus colegas, eu pareceria muito mais fraca, bem… Aqui eu posso chorar… Ninguém veria minhas lágrimas mesmo se quisesse, elas fariam parte do mar assim que deixassem meus olhos. Sinto-me fraca como nunca. Não é como nos testes, não basta eu bater nos vidros para que eles me tirem do fundo da água. Esse é o último segundo que eu aguento. O último…
Estrela! Aguente firme!
Eu não…
Por mim. Estrela. Faça isso por mim… Estão indo te ajudar
-06/08 – 18h08-
-Ele está baleado! Chamem o doutor!
-Minha filha, por favor! Por favor! É só uma criança!
-Oque? Onde ela está?
-Está lá embaixo, ela… Ela… Está lá, por favor!
Estrela! Aguente firme! – Pensei com toda a minha força, minha cabeça latejava mais que meu joelho baleado.
-Aguente firme – Disse o rapaz – Irei atrás dela – Saltando no mar em seguida.
Não ouvi uma resposta, mesmo assim não parei de forçar minha mente para falar com ela, eu sentia que meus olhos iam explodir.
Por mim. Estrela. Faça isso por mim… Estão indo te ajudar
-06/08 – 18h05-
O telefone tocava dentro do helicóptero.
– Eles Pularam! Ligue o helicóptero – Disse o diretor correndo de volta para a aeronave.
-Tudo bem, nós sobrevoaremos a área para ver onde foram parar.
-Prepare as armas.
O telefone não parava de tocar.
-Alô, eu estou meio ocupado agora, oque foi? – O helicóptero se aproximava do mar.
– Aqui é a secretária da base, diretor, tem algo errado aqui, estão liberando todas as portas, as cobaias estão se libertando, é uma espécie de… Rebelião.
-Oque?
-Estrela!- Ouviu se o grito desesperado de Marcelo.
-O encontramos chefe, mas a garota pelo jeito não sobreviveu. Há um barco se aproximando…
-Atirem para matar- Disse o diretor afastando o telefone de si, e depois voltando se à ligação – Estamos a caminho da base, se as coisas piorarem muito, dê a ordem aos guardas para matarem todos – Desligou o telefone em seguida.
-O acertamos.
-Ótimo, mas acho que ele já não é nosso maior problema, precisamos voltar à base imediatamente.
Então o piloto voou de volta à base.
-06/08 – 18h16-
-Venham todos, por aqui!
-Obrigado Lucas! – Disse a menina do leito 41.
-Já era hora disso acabar!
-Venham! Todos para fora!
Então o som do helicóptero paralisou instantaneamente todos de medo, agora apenas uma porta e estariam fora daquele lugar.
O diretor saltou furioso antes mesmo de a aeronave ter sido desligada, com uma arma empunhada. Apontando para Lucas.
-Já era de se esperar que vocês dois um dia tentassem arruinar meus negócios, você e aquele Marcelo, malditos corações moles! Isso termina aqui! – Disse puxando o gatilho. Mirando na cabeça de Lucas. No entanto a bala parou no ar, e caiu desacelerada. Então ele atirou outra vez e o evento se repetiu. A garota saiu de onde se escondiam os outros, revelando-se ao diretor.
-Vocês nos treinam para muitas coisas especiais aqui… O meu forte sempre foi a desaceleração de objetos… Se quiser acabar com ele, com Marcelo e Estrela, terá de passar por mim.
-E por mim – disseram outras crianças e adolescentes enquanto saíam do estabelecimento, caminhando juntos, cada um entoando o seu “e por mim”, como um time.
-Oque você pensa que está fazendo Lucas? Está louco? Eles não são normais, fora daqui, você não teria controle sobre eles, não sabe oque podem se tornar!
-São pessoas, Diretor, merecem nomes que sejam mais do que números e uma oportunidade para ser o que bem quiserem! Não estou louco, alias, se alguém aqui não é normal, esse alguém é você.
-Eu levei uma vida para erguer essa instalação, décadas de experimentos para aperfeiçoar esses dons, anos e anos para cuidar dessas cobaias, você não pode simplesmente soltá-los por aí! Você é tão parte disso quanto eu!
-Ofereça uma vida boa a um homem que perdeu tudo, e ele aceitará… Mas não pense, em hipótese alguma, que chamá-lo de ninguém irá zerar os seus valores… Eu sou alguém… Uma soma de minhas perdas passadas e minhas possíveis vitórias do futuro… Esse sou eu, e isso é oque eu vou fazer… Quanto à pesquisa, chefe, não se preocupe, não voltará a vê-la… Quem aqui foi treinado para controlar chamas mesmo? – Um menino louro, baixinho levantou a mão como haviam combinado, e então toda a instalação se incendiou, todas as pesquisas, salas, os testes, equipamentos, tudo isso logo se resumiria em cinzas.
-06/08 – 20h26-
Estava na cabine de um navio. Então eu a avistei.
-Aline?
-Meu amor… Marcelo!
-Papai- Uma vozinha soou ao seu lado, era ela, nossa filha, a minha primeira Estrela, de mãos dadas com sua mãe.
-Eu senti tanto a falta de vocês – disse sem me esforçar para conter as lagrimas que se formavam em meus olhos.
-Nós também.
-Eu sinto muito Aline… – Disse chorando – Foi um acidente… Eu me virei por um segundo, só um segundo, e então o carro… Ele simplesmente…
-Sabemos disso Marcelo! Eu estava lá– Disse serenamente.
-É papai, está tudo bem.
-Eu sempre estive com vocês, oque me entristeceu não foi você ter nos perdido, pois isso tinha que acontecer, estava escrito, mas sim você ter perdido a si mesmo…
-Viemos pedir para que tenha força, papai, você vai precisar para se reerguer e deixá-la despertar o melhor em você outra vez… A minha irmãzinha… Ela precisará muito de você agora.
-Vocês não estão sozinhos – Disse Aline, sorrindo – Somos uma constelação maior agora.
Acordei como em um daqueles pesadelos em que se sonha estar caindo e então se desperta no momento do impacto. Estava na mesma cabine.
-Finalmente acordou – Disse o senhor que estava do meu lado – Estive aguardando um tempinho, fizemos um curativo no seu ferimento, por sorte a bala passou de raspão… Não sei oque queriam com vocês, mas estão seguros conosco.
-Onde ela está? Estrela, a minha filha… Muito obrigado, senhor… Por tudo, mas, por favor, me diga que ela está bem!
-Ainda está desacordada, mas a resgatamos sim, ela está na cabine ao lado.
Eu não pensei na dor do curativo no joelho, manquei até o quarto ao lado, lá estava ela, deitada, com os olhinhos pregados como se estivesse dormindo.
Estrela. Pensei com força.
Papai!
Sua voz na minha mente me tranquilizou.
Graças a Deus. Você está bem?
Não consigo me mexer, ou abrir os olhos, mas não se preocupe, eu sinto que irá passar… Desculpe-me papai…
Não tenho porque te desculpar, você foi muito corajosa, filha.
Não consegui a caixa.
-Iremos atrás da caixa juntos – eu sussurrei em seu ouvido – Agora descanse um pouco…
O homem que havia nos ajudado observava da porta.
-A caixa? Que estava nos braços dela? Achei que fosse de grande importância então a trouxe também!
Podia senti-la sorrindo, em algum lugar lá dentro.
A caixa guardava um mapa, dinheiro, documentos, tudo isso nos tornaria pessoas normais daqui pra frente…
-09/08 23h06-
Estrela permaneceu desacordada durante toda a viagem, seu coma não me preocupava, pois eu precisava acreditar que tudo ficaria bem, para que ficasse, se eu perdesse a mim mesmo, eu a perderia também.
O senhor que nos transportou em seu grande barco nesses três dias que se seguiram até o lugar onde seguiríamos o mapa em terra havia sido um bom amigo, Estrela ainda não havia despertado quando chegamos, era uma casa, não qualquer uma, um lar, à beira da praia e aconchegante…
Então a nossa primeira noite em casa, eu ainda podia ouvi-la, conversar com ela por pensamento, mas naquele momento tudo fazia silêncio, ela estava dormindo, parecia estar sempre dormindo agora… Isso me preocupava…
-Eu te amo filha – disse enquanto lhe dava um beijo de boa noite na testa.
-10/08 08h26-
A manha clareou nossas janelas descortinadas e então me levantei. Para minha surpresa, ela estava lá, sentada à beira da cama, olhando para fora…
-Quero ver mais de perto… É mais bonito do que você me descreveu!
Eu a abracei sem pensar. Ela retribuiu. Em seguida fomos caminhar à beira da praia
Em meus braços ela é tão pequena e delicada. Andar ao seu lado, com o sol suave da manhã é realmente um presente. Ela não conhecia o mar, nunca tinha sentido a grandiosidade de um oceano e agora contemplava a praia com felicidade e assombro.
Barquinhos perdiam-se no horizonte do infinito do seu olhar. Ela segurava minha mão com firmeza enquanto tentava absorver toda a paisagem.
-Somos uma constelação papai.
Eu podia senti-las
Todas as minhas estrelas, presentes, dentro de mim.
-Uma linda constelação, filha.

fim.