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Proposta de apresentação vencedora da nossa escritora Ceres Marcon:

Por mais que eu tentasse me concentrar na leitura, meus olhos buscavam pela porta, se distraiam com a movimentação da rua, os sons de risos e conversas invadiam meus ouvidos, dispersando minha atenção.
Olhei para o relógio. Eu me encontrava sentada naquela cafeteria há pelo menos uma hora, e a ansiedade só aumentava. Aos dezenove anos ainda roía unhas, não sabia arrumar meu cabelo rebelde e havia marcado um encontro com um desconhecido. Alguém por quem eu havia me apaixonado através de conversas pela internet, e que havia me convencido sobre a importância de um encontro, a fim de termos certeza se nossos sentimentos possuíam alguma chance de serem verdadeiros.
Fechei o livro. Minha impulsividade havia me colocado em situações difíceis, mas aquela passava de todos os limites. Conhecia histórias de garotas mortas por conta de encontro às cegas, raptadas, torturadas, estupradas e todo o restante de barbáries que a imprensa divulgava, mesmo assim, aceitei a proposta, afinal, eu estava apaixonada. Pensar em como deveria ser me aninhar em seus braços apertava meu estômago.
Meu celular vibrou no bolso da jaqueta. O nome de minha melhor amiga piscava de forma insistente.
― Oi, Jê!
― Ele já chegou?
― Não.
Eu podia ser impulsiva, mas não me considerava uma idiota. Jessica sabia de meu relacionamento virtual com Fernando desde o princípio.
― Acho que você acabou de ganhar um bolo. E, quer saber, melhor assim. Volte para casa, Sara, e deixe esse idiota de lado.
Naquele momento uma leve pressão em meu ombro fez com que virasse e encontrasse o par de olhos verdes mais maravilhosos que poderiam existir sobre a face da terra. O sorriso radiante, o rosto, apesar dos seus vinte e dois anos, tinham linhas fortes e o faziam parecer muito mais velho. A imagem que a câmera do computador mostrava se mostrou muito mais linda ao vivo.
Balbuciei um “ele já chegou” para Jessica e desliguei o celular, um tanto atrapalhada com a presença de Fernando.
― Desculpe o atraso, fiquei preso em um congestionamento na Marginal.
― Ah! Tudo bem.
Aquela voz trêmula e esganiçada não se parecia com a minha, muito diferente da dele, segura e grave. Uma fisgada na barriga transformou minhas pernas em geleia e minhas mãos suaram frio. Fernando, parado a minha frente, tão lindo quanto eu o havia imaginado, puxou a cadeira e sentou, pousando uma das mãos sobre a minha.
Fechei a boca, que provavelmente ficara aberta enquanto olhava para ele.
― Então… Quer ficar aqui ou prefere ir a outro lugar?
A pergunta me deixou confusa. Nossas conversas eram pervertidas, falávamos de sexo muito mais do que qualquer outro assunto, ambos parecíamos ter urgência em grudar nossos corpos e liberar o tesão. Contudo, eu esperava algo mais.
― Acho que prefiro ficar por aqui.
Ele substituiu o sorriso por uma gargalhada, e pude ver o brilho desafiador em seus olhos.
―Está com medo.
― Não é nada disso. ― Detestava quando alguém me chamava de medrosa. Levantei e puxei-o pelo braço. ― Vamos.
― Para onde?
― Quem é o medroso, agora?

Proposta de desenvolvimento vencedora da nossa escritora Ceres Marcon:

Fernando pagou a conta e seguiu-me em silêncio. Com o canto do olho vi seu sorriso malicioso. Meu coração disparou e precisei segurar a vontade de beijar-lhe a boca, afinal foram meses de conversas pela internet, que só serviram para aumentar o desejo de tocá-lo, de sentir o cheiro da pele, o gosto de sua boca.
Seguimos para a rua e o calor da tarde me acertou em cheio, como se eu tivesse aberto a porta de uma imensa fornalha. Olhei ao redor imaginando qual seria o carro dele, e rezei para chegarmos logo. Queria escapar daquele sol que fazia a pele arder e a respiração ficar pesada. Também estava ansiosa, o que só piorava a sensação de sufoco. Eu não fazia ideia do quê fazer, agi por impulso, por ter sido provocada, e, como sempre, precisava encontrar uma saída. Parei sem aviso e encarei-o de queixo erguido.
― Para aonde vamos?
― Como assim? ― A surpresa em seu rosto me pareceu sincera― Achei que tinha algum lugar em mente quando decidiu aceitar sair.
― Não tenho. Aceitei porque você me provocou. ― Ali estava eu, jogando limpo com o homem por quem me sentia atraída. ― Além do mais, você convidou primeiro.
Ele achou graça em meu comentário, sorriu e continuou em frente, sem esperar por mim. No mesmo instante fui empurrada por um homem.
― Ei!
Reclamei pelo contato físico grosseiro, o estranho, no entanto, não diminuiu o passo e continuou ainda mais apressado, sem pedir desculpas ou olhar para trás. Ultrapassou Fernando quase correndo, desapareceu atrás de uma van, e não o vi mais. Apertei com força a tira da bolsa que carregava atravessada em frente ao corpo, olhei ao redor, mas não havia mais ninguém por perto.
Fernando, alguns passos à frente, não me escutou, parecia alheio à movimentação do lugar, caminhava descontraído, tinha movimentos seguros, e corri para me sentir mais protegida. Dentro de mim, apesar de toda emoção, sabia que aquela poderia ser uma grande aventura, ou uma enrascada sem tamanho.
― Quer conhecer minha casa?
A pergunta me pegou desprevenida. Achei que seria levada a um motel qualquer. Fiquei calada por alguns instantes antes de decidir o que dizer.
― Sim.
Ele seguiu em frente, mantendo o ritmo. Não parecia preocupado se eu o acompanhava, ou se havia desistido. Me apressei para alcançá-lo e embarcar no carro. Não prestei atenção na marca, muito menos na cor do veículo, apesar de ter pensado nesse detalhe minutos antes. Minha cabeça girava em busca de imagens que pudessem construir a casa de Fernando pelo estilo de vida que ele dizia ter; também traçava estratégias de sedução, porque este era meu objetivo, e meu corpo reagia a cada quadro pintado por meu cérebro.
― Sara!
Quando virei para dar-lhe atenção, havia uma faca em seu pescoço. Antes mesmo de conseguir gritar, meu nariz foi coberto por um pano. Me assustei, tentei gritar, mas ao respirar mais fundo em busca de ar, minha visão ficou turva, e em poucos segundos perdi a consciência.
Acordei com sede. Parecia que todo o líquido de meu corpo havia escapado por meus poros, tinha a boca seca e amarga, sentia a pele pegajosa, e meu cheiro me desagradou. Não fazia a mínima ideia de quantas horas passaram desde que perdi a consciência. Toda aquela escuridão ao meu redor me assustou, e um calafrio percorreu minha espinha. Precisei me acostumar com a falta de luz, porém não havia nada muito nítido, apenas uma leve claridade marcava o contorno da porta.
Alguns sons chegaram até mim. Nenhuma voz conhecida. Risos, algo parecido com cadeiras arrastadas, o barulho de um motor, e depois o silêncio.
― Fernando! ― Chamei, e minha garganta ardeu. Tossi para limpar a voz. ― Fernando!
Eu estava sozinha e comecei a chorar. Devia ter cancelado aquele encontro, agora não sabia onde eu estava, nem Fernando. Lembrei de meus pais, dos conselhos de minha mãe sobre encontro com estranhos, de Jê e nossa última conversa. Chorei até quase adormecer.
Tinha medo de me mexer. Não sabia o que poderia encontrar ao meu lado. Criei coragem e então comecei passar minhas mãos sobre o lugar no qual eu estava deitada. A textura lembrava um colchão. Não havia cordas em meus pulsos nem em minhas pernas. Sentei e encontrei o chão logo em seguida. Respirei fundo e me arrependi, um cheiro podre invadiu minhas narinas e meu estômago embrulhou, vomitei o pouco de líquido que havia no estômago. Aquilo foi horrível, queimou meu nariz por dentro e chorei mais uma vez.
Mesmo com os músculos tremendo e tonta, levantei e me apressei para encontrar apoio. Toquei a parede e minhas mãos ficaram molhadas. Queria sair daquele lugar horrível. Precisava de água, de luz.
― Fernando! ― Gritei com toda força. ― Tem alguém aí? Eu quero sair!
Escorada na parede fui devagar em direção à porta quando a claridade invadiu o pequeno espaço, me fazendo cobrir os olhos com as mãos. Dois vultos entraram e outro foi jogado sobre o colchão, sem o menor cuidado. A porta foi fechada e a escuridão voltou a tomar conta do lugar.
Escutei gemidos, mas tive medo de me aproximar.
― Sara…
Reconheci a voz de Fernando, me agachei, e de joelhos fui tateando o chão até bater na borda do colchão.
― Fernando! ― Falei entre soluços. ― Onde estamos? Quem são esses homens?

 

Proposta de desfecho vencedora da escritora Ceres Marcon:

Antes que ele pudesse responder, a porta abriu pela segunda vez, e ouvi o som do interruptor. A lâmpada do teto deixou uma pequena claridade escorrer pelo lugar. Meus olhos piscaram, ofuscados pela luz. As paredes úmidas, o chão de terra e o teto de madeira confirmavam minha suspeita de que estava em um porão.
O homem a minha frente tinha o rosto coberto por uma máscara de esqui. Impossível saber quais seus sentimentos ou intenções. Ele apenas observava. Aguardou até outro entrar e deixar sobre o chão uma garrafa de água. Saíram tão silenciosos quanto entraram. Não me atrevi a falar, o pavor não permitiu. A visão de Fernando sobre o colchão velho e sujo me deixou ainda mais apavorada.
Agarrei depressa a garrafa e juntei-me a Fernando. Ele estava muito machucado. Tinha o rosto inchado, a boca e a testa sangravam e havia encolhido o corpo. Por mais apavorada que eu estivesse, não poderia deixar de me preocupar com ele, afinal, eu acreditava que o amava.
Me aproximei dele, mas não o toquei. Não queria machucá-lo mais, nem fazê-lo sentir dor.
― Fernando! ― Chamei-o, segurando os soluços e limpando as lágrimas. ― Pelo amor de Deus! O que está acontecendo aqui? Quem são esses homens?
Seus olhos não se abriram.
― Vingança.
A palavra saiu quase inaudível. A dificuldade de Fernando em falar não me impediu em perguntar. Eu tinha o direito de saber. Toquei-lhe o ombro com o máximo de cuidado.
― O que você fez? ― O silêncio pesou entre nós dois. Minha pergunta não seria respondida a não ser que eu insistisse. ― Você me deve uma explicação, Fernando!
― Matei uma garota.
Aquela revelação travou minha respiração, e pude sentir minha cabeça latejar no ritmo de meu coração. Me arrastei pelo chão e fiquei longe de Fernando. Ele virou o rosto em minha direção, e um sorriso irônico entortou seus lábios grossos pela surra.
― Quer saber por quê? ― Disse e tossiu cuspindo sangue.
Não conseguia falar. Também não queria mais chorar. Precisava entender porque haviam me carregado junto com ele. Por que me trancaram em um lugar horrível ao invés de me libertarem. Meu silêncio o motivou. Fernando procurou endireitar o corpo, gemeu algumas vezes até conseguir encostar-se à parede.
― Ela não era muito bonita. Quinze anos. Introspectiva. Tímida. Contida. Muito diferente de você. ― Parou e me encarou, sem qualquer sentimento no olhar. ― Foi fácil convencê-la a se encontrar comigo. O perfil dela na internet dizia exatamente como eu deveria agir. ― Fernando apontou para a garrafa. ― Poderia alcançar a água?
Me aproximei com cuidado. Estiquei o braço para que ele pudesse pegá-la. Não queria chegar muito perto.
― Está com medo. ― Ele riu. Tossiu. Tomou um pequeno gole deixando sangue no gargalo. Apesar da dificuldade em falar, ele prosseguiu. ― Reconheço esse sentimento em qualquer um. É o que me motiva, sabia? Sinto prazer em ver essa sombra passar pelos olhos dos outros. Da forma como imploram pela vida antes do último suspiro.
― Você é um monstro!
A porta voltou a se abrir. Desta vez um dos homens trouxe uma pequena mesa e o outro organizou sobre ela alguns objetos.
― Ei! Por que me trouxeram aqui?
Os dois entreolharam-se e saíram.
Caminhei próxima à parede. Não queria correr o risco de ser tocada por Fernando, mesmo machucado, mostrava resistência. Recuperava-se de forma lenta, e eu estava com muito mais medo dele do que dos homens que nos sequestraram.
Arregalei os olhos ao constatar o que havia sobre o tampo. Meu coração disparou. Meu estômago contraiu e vomitei. Não conseguia entender o que aqueles loucos tinham em mente.
― O que foi?
Fernando observava minha reação. Não identifiquei a expressão de seu rosto. As marcas do espancamento ficavam cada vez mais evidentes.
― Não interessa! ― Gritei. ― Não quero ouvir a sua voz. ― Vi quando se movimentou em busca de apoio para se erguer, com o máximo de rapidez, agarrei a faca que estava sobre o tampo e o ameacei. ― Nem tente chegar perto de mim! Entendeu?
As lágrimas inundaram meus olhos. Minha garganta doía pela acidez do líquido que eu expeli e pela força que fazia para conter o choro. Estava com medo, mas com raiva de ter sido enganada. Uma adolescente idiota. Era assim que eu me via.
Fernando voltou a rir.
― São as fotos. Olhou bem para elas?
Criei coragem e voltei até a mesa. Meus músculos tremiam. Sentia o suor escorrer em minhas costas. A luz fraca vinda da pequena lâmpada refletia o brilho da lâmina que eu apertava na mão sem o mínimo de confiança. Olhei cada uma das cinco imagens, mesmo com a náusea que elas provocavam. Havia muito sangue. Cada uma retratava um ângulo diferente. Garganta cortada, mãos presas nas costas. Nua. A garota loira. Minhas pernas amoleceram quando vi o rosto machucado e sujo. Os olhos verdes abertos, sem vida, ainda mantinham o horror a que havia sido submetida. Não consegui mais segurar o choro.
― Não acredito que se esqueceu. ― Fernando continuava a falar e a se movimentar. ― Mariana. Estudava na mesma escola que você. Lembra do perfume que ela usava? Você odiava. Fazia piadas sobre a maneira dela se vestir, dos quilos a mais, das bochechas sempre rosadas. Mariana, a desengonçada. Quantas piadinhas você fez? Quantos garotos convenceu para fazerem-na chorar?
― Pare com isso! ― Minha voz soou histérica. ― Nunca desejei… Nunca imaginei que ela pudesse cair nas mãos de um psicopata!
― Não? Tem certeza? Não foi você quem criou um perfil para que ela encontrasse um namorado?
Avancei dois paços na direção dele. Ergui a faca.
― Não tente jogar sobre mim a sua culpa! Eu não a matei!
― Verdade. Mas facilitou meu caminho até ela. É cumplice. Quem respondia as mensagens do perfil? Quem atualizava o diário? Quem colocava fotos novas? Quem marcou o encontro comigo? Não vi você sofrer quando ela desapareceu, nem chorar por sua morte. Pelo contrário. Você riu. Disse que ela mereceu, por ser tola em acreditar que alguém pudesse se apaixonar por ela. Que as lições com os garotos da escola não tinham sido suficientes.
Fernando jogou na minha cara atitudes que eu sufoquei durante um ano. Não entendia como ele podia conhecer tanto a meu respeito, saber sobre a minha vida, do que eu pensava de Mariana. Fernando nunca apareceu na escola, não que eu lembrasse. Um rosto como o dele eu não esqueceria. No perfil que eu havia criado para Mariana, as fotos dele não apareciam. Só havia a imagem de um por de sol, em tons de laranja e vermelho. Ele usava um apelido, que nem se quer lembrava qual. Não queria mais ficar naquele espaço, trancada junto com ele. Respirar começou a ficar difícil. Larguei a faca, o som do metal foi abafado pelo chão de terra úmida. Corri até a porta e bati com força.
― Me tirem daqui! Por favor! ― Meus gritos se perderam no pequeno espaço, misturavam-se aos meus soluços, e os punhos doeram e sangraram por causa das pancadas que desferi contra a madeira. ― Não me deixem junto com ele! Eu não queria que ela morresse! Me perdoem, por favor!
Meu corpo escorregou pela parede e fiquei no chão um longo tempo, soluçando, sem prestar atenção em Fernando. A culpa por ter causado tanta dor à Mariana, apertava meu coração. Não medi as consequências das minhas loucuras. Costumava não me importava com os sentimentos dos outros. Era egoísta demais. Acreditava que podia ser mais esperta do que as garotas da escola. Isolava as mais tímidas. Desdenhava das mais velhas. Os garotos me idolatravam. Considerava-me madura para tomar minhas próprias decisões, desafiar as ordens de meu pai, desconsiderar os conselhos de minha mãe e amigos. O pedido de Jéssica ao telefone para que eu desistisse do encontro fez eu me sentir ainda pior. Ela conhecia o nome de Fernando, eu havia mostrado a filmagem de nossas conversas, onde nos encontraríamos, mas não havia como saber sobre o sequestro.
Me encolhi no canto daquele quarto frio, com medo e repulsa daquele homem por quem eu pensava ter me apaixonado. Ainda não tinha ideia do porque estavam me segurando presa. Tremi ao pensar que pudesse ter o mesmo fim de Fernando ou de Mariana. Rezei em silêncio, pedindo a Deus por misericórdia.
Talvez eu pudesse me redimir. Só não sabia como. Esperava ter tempo suficiente para descobrir.

… continue esta narrativa com sua proposta para o desfecho:

Não percebi o sono chegar, nem sei quanto tempo fiquei adormecida. Quando abri os olhos, me deparei com Fernando suspenso por correntes presas ao teto. Estava nu. A luz próxima a seu corpo deixava à mostra machucados causados pela surra recebida horas antes.
— Sara!
A voz parecia mais fraca e suplicante. Tive a impressão de que não havia apenas suor em seu rosto. Não queria ajudá-lo, muito menos falar com ele.
— Sara, por favor, me ajude!
— Por que eu faria isso? — disse em um tom de indiferença.
— Eles vão me matar.
—Não foi isso que você fez com Mariana? — Mantive minha postura fria. — Aliás, acho que você merece.
— Você não tem ideia do que eles farão comigo antes que eu morra.
A voz tremia e o desespero se evidenciava a cada palavra.
— Devia ter pensado nisso antes de fazer o que fez.
— E você pensa que conseguirá fugir? Acredita que eles a deixarão ir sem nenhum arranhão?
Um calafrio fez minha pele arrepiar. Continuei encostada ao canto no qual me encontrava. O controle das pernas parecia ter ficado fora de meu cérebro, inalcançável. Fernando poderia ter razão, ou ele quisesse apenas conquistar minha piedade a fim de conseguir fugir e me matar na sequência.
— Acha que não a farão sofrer?
— Cale a boca! — gritei com toda a força que ainda tinha. — O monstro aqui é você!
Ele começou a rir até transformar aquele ruído em uma gargalhada histérica.
— Você é a mentora, Sara. — A fala se intercalava ao riso. — Sem você eu não apareceria.
Em um movimento ágil, meu corpo saltou, como se os comandos cerebrais houvessem sido todos ligados ao mesmo tempo. Agarrei a faca sobre a mesa. Detive meu avanço quando o cheiro ácido de suor me abraçou. Encostei a lâmina em seu pescoço.
— Eu disse para você calar a boca. — grunhi com os dentes cerrados. Pude ouvir o atrito de meus dentes.
— A motivação certa gera atitudes impensáveis, Sara. — Ele me encarou. — Vai conseguir me matar?
Comecei a suar. Meus músculos tremiam tanto que imaginei minha carne se separando dos ossos. Eu não imaginava poder sentir tanto ódio por alguém como naquele momento. Pressionei ainda mais a lâmina contra ele até a pele rasgar, deixando escapar um fio de sangue que escorreu e pingou sobre meu peito.
Ele soltou um uivo de dor, praguejou, se contorceu. Esticou as pernas na tentativa de me derrubar. Tomei distância dele, e em um ato de desespero, joguei a faca contra a parede.
— Vamos, Sara! Mate-me.
Coloquei as mãos sobre os ouvidos. Voltei a me encolher no canto de onde eu não deveria ter saído e chorei.
A porta abriu, mas não consegui esboçar reação. Um dos homens se aproximou de mim, segurou meus pulsos com força e me ergueu. Fui prensada contra a parede. A máscara ocultava o rosto, apenas os olhos e a boca ficavam expostas. Achei que ele me mataria naquele momento.
— Você tem duas escolhas, Sara. Cada uma delas terá consequências. Você está me ouvindo? — Disse em meu ouvido.
Sacudi a cabeça para confirmar. Minha voz havia desaparecido.
— Pode ficar e assistir a morte de Fernando — falou em um sussurro que me deu calafrios —, mas terá que dar o último golpe. Vai caber a você matá-lo, ou pode sair daqui. Contudo, se preferir ir embora, terá uma tarefa. Você vai escrever um texto e publicar no jornal. Deve pedir desculpas à família de Mariana, contar o que fez. Assumir que foi você quem provocou o encontro entre os ela e o assassino. Entendeu?
— Sim. — Gaguejei.
— Então, o que escolhe?
Meu corpo convulsionou em soluços. As lágrimas queimavam minha garganta e molhavam meu rosto. Olhei para Fernando. Seus olhos se voltaram para mim. Não havia uma expressão que eu pudesse usar para definir o brilho que eles refletiam. Os lábios cerrados tinham perdido a cor e a beleza de seu rosto havia desaparecido atrás das escoriações. Eu o odiava, o desprezava, mas também tinha pena.
— Quero ir embora.
No mesmo instante um pano tapou meu nariz e meus sentidos apagaram.
Minha redenção viria, lenta e destruidora.